A traiçom de Ingrid

6 de Julho de 2008

Reproduzimos a traduçom para o nosso idioma da interessante reflexom escrita polo jornalista Pascual Serrano, sobre os últimos acontecimentos do conflito colombiano, com destaque para a figura de Ingrid Betancourt.

A traiçom de Ingrid

Leio um clamor de indignaçom entre os sectores progressistas venezuelanos pola reacçom de desprezo de Ingrid Betancourt e a sua família para com pessoas que tanto interesse tivérom na sua libertaçom, nomeadamente o presidente da Venezuela Hugo Chávez e a senadora Piedad Córdoba. Falam de traiçom indignados polo que, com toda a certeza, é umha prova de ingratitude.

Betancourt e família nom atraiçoárom ninguém, voltárom à classe social, política e económica à qual sempre pertencêrom: a burguesia neoliberal abastada da Colômbia. Ingrid é filha de Gabriel Betancourt, ministro da Educaçom durante o governo do ditador Gustavo Rojas Pinilla, e de Yolanda Pulecio, que foi rainha de beleza que chegou a Miss Colômbia e Representante à Cámara por Bogotá. Betancourt, como boa filha da oligarquia, cursou os estudos de secundário no Liceu Francês de Bogotá e mais tarde ciências políticas em França, no Instituto de Estudos Políticos de Paris; especializou-se em comércio exterior e relaçons internacionais. Viveu vários anos em Paris, onde o pai exerceu como embaixador perante a UNESCO; ali conheceu o seu primeiro marido, o diplomata francês Fabrice Delloye, com quem casou em 1981.

Divorciou-se em 1990 e filiou-se ao Partido Liberal, onde trabalhou como assessora do Ministro das Finanças, Rudolf Hommes, e de Comércio Exterior, Juan Manuel Santos, durante o governo de César Gaviria. Ingrid casou pola segunda vez com o publicista colombiano Juan Carlos Lecompte. Durante este período, escreve o livro La Rage au cœur [A raiva no coraçom], publicado originalmente em francês, sobre a sua visom do governo de Ernesto Samper.

O seu apoio popular como candidata à presidência, já fora do Partido Liberal, era de apenas 0,8% de intençom de voto quando foi seqüestrada.

Enquanto havia centenas de simples soldados e civis anónimos em poder das FARC e muitos mais camponeses e pequenos colaboradores da guerrilha sem delitos de sangue a apoderecer nas prisons colombianas, Hugo Chávez e Piedad Córdoba elegêrom a filha do ministro da ditadura e a miss Colômbia como emblema da sua luita pola troca humanitária. Os meios internacionais, com França à cabeça, incorporárom-se à cruzada até elevar Ingrid Betancourt ao grau de heroína nacional. Evidentemente a família da retida, que nunca se teria aproximado de um presidente surgido dos ‘cerros’, nom desprezava qualquer líder social que pedisse a liberdade de Ingrid. Se havia que criticar Uriba para poder estar diante das cámaras junto a um chefe de Estado que pedisse a liberdade da filha, pois criticava-se.

Acreditando estarem a presionar para um acordo humanitário, Chávez e Piedade convertêrom Ingrid em exemplo de resistência e luita e a guerrilha num monstro que retinha umha bondosa filha, esposa e mae.

Enquanto Piedad Córdoba arriscava a vida e Hugo Chávez o seu referendo para a reforma constitucional, o mito crescia perante os ingénuos olhos das pessoas que acreditavam que a sua boa intençom estáva a ser reconhecida por familiares, media e mesmo polo governo francês. Nom percebêrom que só estavam a ser utilizadas.

Ingrid converte-se num símbolo internacional da crueldade das FARC enquanto os anónimos soldados e guerrilheiros continuavam a apodrecer na selva ou nos cárceres. As suas maes nom acudiam convidadas ao Aló Presidente e ninguém as entrevistava na Telesur.

O cobiçado trofeu consegue a liberdade da mao de Uribe e volta junto aos da sua classe, ideologia e condiçom cheia de ódio, como é lógico, contra quem lhe roubou seis anos de vida. Tira fotos junto ao ministro da guerra da Colômbia, pede a reeleiçom de Uribe e di que será um soldado contra as FARC. Viaja a França e beija-se diante das cámaras com um dos presidentes europeus que lidera o encarceramento durante ano e meio de todos os colombianos que chegarem à Europa sem papéis. Nem Chávez nem Piedad lhe interessam já. Sujava-se com a lama dos ‘cerros’ e as maos cheias de calos dos pobres se os acampanhasse, já nom os necessita para dar nas vistas da opiniom pública internacional.

 

 

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