Fidel, sobre a Cimeira de Washington: mais umha mostra de 'preitesia ao império'

18 de Novembro de 2008

Reproduzimos a traduçom galega do artigo em que o revolucionário cubano Fidel Castro analisa os resultados da Cimeira dos principais estados capitalistas em Washington, no passado fim de semana, com Bush como principal protagonista e um espectáculo de submissom aos seus ditados por parte do resto de líderes mundiais.

O Parto dos Montes

Fidel Castro

Bush mostrava-se feliz com ter Lula à sua destra no jantar da sexta-feira. A Hu Jintao, ao qual respeita polo enorme mercado de seu país, pola capacidade de produzir bens de consumo a baixo preço e o caudal de suas reservas em dólares e bónus dos Estados Unidos, sentou-no à sua esquerda.

Medvédev, a quem ofende com a ameaça de colocar os radares e os mísseis estratégicos nucleares nom longe de Moscovo, foi situado num assento distante do anfitriom da Casa Branca.

O rei da Arábia Saudita, um país que produzirá num futuro próximo 15 milhons de toneladas de petróleo ligeiro a preços altamente competitivos, ficou também a sua esquerda, junto de Hu.

O seu aliado mais fiel na Europa, Gordon Brown, Primeiro-ministro do Reino Unido, nom aparecia perto dele nas imagens.

Nicolás Sarkozy, descontente com a arquitetura actual da ordem financeira, ficou distante dele, com o rosto amargado.

Ao Presidente do Governo espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, vítima do ressentimento pessoal de Bush e comparecente ao conclave de Washington, nem sequer o vim nas imagens televisadas do jantar.

Dessa forma fôrom colocados os participantes no banquete.

Qualquer um teria pensado que no dia seguinte se produziria o debate de fundo sobre o peliagudo tema.

Na manhá do sábado, cedo, as agências informavam sobre o programa que teria lugar no National Building Museum de Washington. Cada segundo estava programado. Seriam analisadas a crise actual e as medidas a serem tomadas. Começaria às 11h30, hora local. Primeiro, sessom gráfica: “fotos de família”, como as chamou Bush; vinte minutos depois, a primeira plenária, seguida de umha segunda na metade do dia. Todo rigorosamente programado, até os nobres serviços sanitários.

Os discursos e análises durariam aproximadamente três horas e 30 minutos. Polas 15h25, hora local, o jantar. Logo a seguir, às 17h05, declaraçom final. Umha hora depois, às 18h05, Bush marcharia a descansar, jantar e dormir placidamente em Camp David.

O dia decorria, para os que acompanhavam o evento, com a impaciência por conhecer como em tam breve tempo seriam abordados os problemas do planeta e da espécie humana. Estava anunciada umha declaraçom final.

O facto real é que a declaraçom final da Cúpula foi elaborada por assessores económicos pré-selecionados, bastante afins ao pensamento neoliberal, enquanto Bush nos seus pronunciamentos pré e pós Cimeira reclamava mais poder e mais dinheiro para o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e para outras instituiçons mundiais que estám sob o rigoroso controlo dos Estados Unidos e dos seus aliados mais próximos. Esse país tinha decidido injectar 700 bilions de dólares para salvar os seus bancos e as suas empresas transnacionais. A Europa oferecia um número igual ou maior. O Japom, o seu mais firme alicerce na Ásia, prometera umha contribuiçom de 100 bilions de dólares. Esperam da República Popular China que desenvolva crescentes e convenientes vínculos comerciais com os países da América Latina, outra contribuiçom de 100 bilions procedentes de suas reservas.

Donde sairám tantos dólares, euros e libras esterlinas como nom fosse endividando seriamente as novas geraçons? Como se pode construir o edifício da economia mundial sobre notas de papel, que é no imediato o que realmente se coloca em circulaçom, quando o país que os emite sofre um enorme défice fiscal? Valeria a pena tanta viagem por ar rumo a um ponto do planeta chamado Washington para se reunir com um Presidente a quem lhe restam apenas 60 dias de governo, e subscrever um documento que já estava formulado de antemao para ser aprovado no Washington Museum? Teria razom a imprensa radial, televisiva e escrita dos Estados Unidos ao nom outorgar-lhe atençom especial a esse velho mecanismo imperialista na cacarejante reuniom?

O inacreditável é a própria declaraçom final, aprovada por consenso dos participantes no evento. É óbvio que constitui umha aceitaçom plena das exigências de Bush, antes e durante a Cimeira. A vários dos países participantes nom lhes restava outra alternativa que aprová-la; na sua luita desesperada polo desenvolvimento, nom desejavam ficar isolados dos mais ricos e poderosos, bem como de suas instituiçons financeiras, que constituem a maioria no seio do Grupo G20.

Bush falou com verdadeira euforia, usando palavras demagógicas, leu frases que retratam a declaraçom final:

“A primeira decisom que tivem que adoptar ―dixo― foi indicar quem viria à reuniom. Decidim que deveríamos ter as naçons do Grupo dos 20, em lugar de apenas o Grupo dos Oito ou o Grupo dos Treze.

“Mas, umha vez que é adoptada a decisom de ter o Grupo dos 20, a pergunta fundamental é com quantas naçons de seis diferentes continentes, que representam diferentes etapas de desenvolvimento económico, será possível chegar a acordos que sejam substanciais, e compraz-me informar-lhes que a resposta a essa pergunta é que o conseguimos.

“Os Estados Unidos tomárom algumhas medidas extraordinárias. Vocês, que acompanhárom a minha carreira, sabem que eu sou um partidário do livre mercado, e se a gente nom toma medidas decisivas, é possível que o nosso país se submirja em umha depressom mais terrível que a Grande Depressom.”

“Recém-começamos a trabalhar com o fundo de 700 bilions de dólares que está começando a liberar dinheiro para os bancos.”

“Portanto, todos entendemos a necessidade de promover políticas económicas a favor do crescimento”.

“A transparência é muito importante para que os investidores e os reguladores podam saber exactamente o que está a acontecer.”

O texto do resto do que dixo Bush é do mesmo estilo.

A declaraçom final da Cimeira, que precisa pola sua extensom de meia hora para ser lida em público, define-se a si própria em um grupo de parágrafos seleccionados:

“Nós, líderes do Grupo dos 20, realizamos umha reuniom inicial em Washington no dia 15 de novembro entre sérios desafios para a economia e para os mercados financeiros mundiais…”

“…devemos colocar as bases para umha reforma que nos ajude a assegurar-nos que umha crise global como esta nom voltará a acontecer. O nosso trabalho deve estar norteado polos princípios do mercado, o regime de livre comércio e investimento…”

“…os actores do mercado procurárom rentabilidades mais altas sem umha avaliaçom adequada dos riscos, e fracassárom…”

“As autoridades, reguladores e supervisores de alguns países desenvolvidos nom constatárom nem advertírom adequadamente dos riscos que eram criados nos mercados financeiros…”

“…as políticas macroeconómicas insuficientes e inconsistentemente coordenadas, e inadequadas reformas estruturais, conduzírom a um insustentável resultado macroeconómico global.”

“Muitas economias emergentes, que ajudárom a sustentar a economia mundial, sofrem cada vez mais o impacto da travaçom mundial.”

“Sublinhamos o importante papel do FMI na resposta à crise, saudamos o novo mecanismo de liquidez a curto prazo e urgimos para a contínua revisom dos seus instrumentos para garantir a flexibilidade.

“Encorajaremos o Banco Mundial e outros bancos multilaterais de desenvolvimento para usarem a sua plena capacidade em apoio de sua agenda de ajuda…”

“Asseguraremo-nos que o FMI, o Banco Mundial e os outros bancos multilaterais de desenvolvimento tenham os recursos suficientes para continuar desempenhando seu papel na resoluçom da crise.”

“Exercitaremos umha forte vigiláncia sobre as agências de crédito, com o desenvolvimento de um código de conduta internacional.”

“Comprometemo-nos a proteger a integridade dos mercados financeiros do mundo, reforçando a protecçom do investidor e do consumidor.”

“Estamos comprometidos a avançar na reforma das instituiçons de Bretton Woods, de molde a que podam reflectir as mudanças na economia mundial para incrementar a sua legitimidade e efectividade.”

“Reuniremo-nos de novo no dia 30 de Abril de 2009 para rever a entrada em funcionamento dos princípios e decisons tomadas hoje.”

“Admitimos que estas reformas só terám sucesso se estiverem na base do compromisso com os princípios do livre mercado, incluindo o império da lei, respeito à propriedade privada, investimento e comércio livre, mercados competitivos e eficientes e sistemas financeiros regulados efectivamente.”

“Absteremo-nos de colocar barreiras ao investimento e ao comércio de bens e serviços.”

“Somos conscientes do impacto da actual crise nos países em desenvolvimento, nomeadamente nos mais vulneráveis.

“Enquanto avançamos, temos a certeza de que mediante a colaboraçom, a cooperaçom e o multilateralismo superaremos os desafios que temos perante nós e conseguiremos restabelecer a estabilidade e a prosperidade na economia mundial.”

Linguagem tecnocrática, inacessível para as massas.

Preitesia ao império, que nom recebe crítica algumha ao seus métodos abusivos.

Louvores ao FMI, ao Banco Mundial e às organizaçons multilaterais de créditos, criadores de dívidas, despesas burocráticas fabulosas e investimentos encaminhados ao fornecimento de matérias-primas às grandes transnacionais, que além disso som responsáveis pola crise.

E assim por diante, até o último parágrafo. É aborrecida, pragada de lugares comuns. Nom dixo absolutamente nada. Foi subscrita por Bush, campeom do neoliberalismo, responsável por chacinas e guerras genocidas, que investiu nas suas aventuras sangrentas todo o dinheiro que teria sido suficiente para mudar a face económica do mundo.

No documento nom se di umha palavra do absurdo da política de converter os alimentos em combustível que propugnam os Estados Unidos, do intercámbio desigual de que somos vítimas os povos do Terceiro Mundo, nem sobre a estéril corrida armamentista, a produçom e comércio de armas, a ruptura do equilíbrio ecológico, e as gravíssimas ameaças à paz que colocam o mundo à beira do extermínio.

Só umha pequena frase perdida no comprido documento menciona a necessidade de “encarar a mudança climática”, quatro palavras.

Pola declaraçom se verá como os países presentes no conclave demandam reunir-se de novo em Abril de 2009, no Reino Unido, no Japom ou em qualquer outro país que possua os requisitos adequados ―ninguém sabe qual―, para analisar a situaçom das finanças mundiais, com o sonho de que as crises cíclicas nunca voltem a se repetir com as suas dramáticas conseqüências.

Agora corresponderá aos teóricos de esquerda e de direita opinar fria ou acaloradamente sobre o documento.

Do meu ponto de vista, nom fôrom roçados nem com a pétala de umha flor os privilégios do império. Se se dispuger da paciência necessária para o ler desde o princípio até o final, poderá-se constatar como se trata simplesmente de um apelo piedoso à ética do país mais poderoso do planeta, tecnológica e militarmente, na época da globalizaçom da economia, como quem rogam ao lobo que nom devore o Chapeuzinho Vermelho.

Fidel Castro Ruz

16 de novembro de 2008

 

 

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