Finou George Labica, revolucionário marxista e colaborador do Abrente

20 de Fevereiro de 2008

No passado dia 12 de Fevereiro perdemos um grande teórico e prático da revoluçom socialista: o francês George Labica, conhecedor da Galiza e colaborador da publicaçom do nosso partido, Abrente, através do companheiro comum Domingos Antom Garcia Fernandes, o professor e filósofo promotor das históricas Semanas da Filosofia de Ponte Vedra.

Com ocasiom deste triste acontecimento, pedimos ao companheiro Domingos umhas linhas de lembrança do seu amigo George Labica, de quem traduziu vários trabalhos para galego.

Eis o artigo remetido por Domingos Antom Garcia Fernandes.

Em lembrança de Georges Labica, comunista

Há uns dias que umha hemorragia cerebral segou a vida do amigo Georges. E, se bem é certo que ficam a sua obra e as suas lembranças, nada volta a ser o mesmo. Já nom podes contar com a sua opiniom, nem pedir que colabore com relatórios, escritos, etc. Já nom haverá essas respostas céleres e continuadas, especialmente por correio electrónico. Consultar, debater, enviar textos, pôr em confronto ideias será impossível. Essa segurança que che dava o saber que concordava contigo ou esse convite à rectificaçom que procedia de alguém com um rigor intelectual e moral, nada dado a componendas, nom pode de novo produzir-se. Mais, que ando a fazer ao deixar-me levar por um humanitarismo choroso de que ele nom gostaria?

Diga-se que acudiu à Galiza, ao menos en quatro ocasions: a três ediçons da Semana Galega de Filosofia para falar de Ecologia e Luita de Classes; Filosofia e Religiom. Robespierre e o Ser Supremo; Cidadania, mito ou realidade? E também para ser membro do júri da tese de doutoramento de Francisco Sampedro a respeito de Ideologia e Distorçom. Na nossa língua publicou, e talvez esqueça algo:

Robespierre. Umha Política da Filosofia (1993)

Os que conhecem o pensamento marxista sabem da sua justeza e minuciosidade na análise do pensamento de Marx, Engels, Lenine, Labriola, Henri Lefebvre ou do seu amigo Louis Althusser… Ao procurar na sua página web, labica.lahaine.org, acham-se 5 páginas de bibliografia até 31 de Dezembro de 2006. Embora nom queira deixar de salientar umha obra, que coordenou com G. Bensussan, Dictionnaire critique du marxisme, com várias ediçons, onde, quase 100 especialistas percorrem os conceitos-chave da tradiçom marxista até os anos 80 do passado século. Esse livro, ao fazer um trabalho, sempre traz umha panorámica clara e precisa.

Nom vou seguir por este caminho de recolher vida e obra, mais nom me resisto a recordar algo menos conhecido, dos seus anos moços. O seu primeiro destino como professor de Filosofia num liceu em Argel (1956) situa-o no combate pola independência no lado dos resistentes. E ali onde conhece a Nadya, a sua companheira inseparável a partir de entom. Depois do serviço militar, voltam outra vez a Argel, em 1960, e tenhem de encarar o furor da OAS que os condenou à morte. Ao proclamar-se a independência da Argélia, obtém um posto na Universidade de Argel e forma quadros, participa em grandes campanhas de alfabetizaçom, etc. Consagra as suas primeiras investigaçons a pensadores árabes como Ibn Kaldoum ou Ibn Tufail sob a direcçom do orientalista e militante anti-imperialista Maxime Rodinson.

Volta para França anos mais tarde, mas a sua relaçom com o Terceiro Mundo e os combates em prol da descolonizaçom (mesmo que assuma facianas neocoloniais) serám umha constante do seu existir. Iraque, Palestina, América Latina e um longo et cetera estivérom sempre presentes.

Sempre em luita com os poderosos, os inimigos da humanidade, os negadores da igualdade e da justiça, os que rejeitam um pensar crítico.

Nom fecho estas linhas sem recolher algumhas palavras dele:

É a eles, os condenados às penas do inferno no transcorrer da sua própria vida, estes condenados da terra, que nom som somente do Sul, mas que povoam as nossas democracias-modelos, a quem tenho o atrevimento de oferecer esta obra. Em todo o caso testemunha que estou do lado deles.

"Em contra dos violentos, vira a violência", canta o poeta. E tem razom.

Démocratie et révolution (2002)

O valor de troca atingiu um reino planetário. A mercantilizaçom e a financeirizaçom, que vam de consum, dam preferência ao consumo sob a “governaçom” de instituiçons supranacionais, o FMI, a BM, a OCDE, a OMC, estreitamente ligadas. O que significa que imponhem a sua própria temporariedade, o tempo da Bolsa, o do imediatismo, num ponto sem projecçom que fai desembocar o conjunto das economias na permanente anarquia das “leis” do mercado; que avassalam os Estados, ao limitar a sua soberania, por um jogo de “fatalidades” exteriores, e os colocam sob o seu controlo e mesmo até ocupar o seu território; que elaboram en funçom do seu próprio interesse, as ideologias de legitimaçom, susceptíveis, também elas, de mudar consoante a conjuntura, a partir de proclamaçons jurídicas (Direitos do Homem, Direito Internacional, Estado de Direito, Direito de ingerência…) até o discurso marcial da cruzada do “Eixo do Bem” ou do “conflito de civilizaçons”. É, em conseqüência, a naçom mais poderosa, a saber os Estados Unidos da América, que puxa os fios do fantoche, ao se arrogar todas as liberdades e o poder de as fazer reconhecer e aceitar polas outras naçons, quer com o seu assentimento mais ou menos resignado, quer sob o efeito de umha coacçom mais ou menos apoiada (…)

Théorie de La violence (2008)

Com a consciência de nom ter feito justiça ao seu trabalho teórico e prático – nada se dixo do seu papel nos debates dentro do PCF, somente por pôr um exemplo, que o leva a publicar, com outros camaradas, Ouvrons la fenêtre camarades (1979) e abandonar mais tarde o PCF para seguir a ser comunista – encerram-se estas linhas.

Toda a sua vida dedicada a fazer Crítica da Economia Política e a desvendar as multíplices, e por vezes bem dissimuladas, ideologias.

Toda a sua vida um compromisso para, em expressom do também malogrado Gilles Châtelet, nom viver e pensar como os porcos.

Ponte Vedra, 19/II/09

Domingos Antom Garcia Fernandes

 

 

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