Intervençom de Carlos Morais na homenagem a Francisco Martins

3 de Julho de 2008

Continuamos oferecendo as intervençons no acto de homenagem dedicado a o revolucionário português Francisco Martins Rodrigues, decorrido em Lisboa no passado dia 27 de Junho. Apresentamos agora a do secretário-geral do nosso partido, Carlos Morais.

Chico Martins, um moderno e avançado gps do comunismo que aí vem

Carlos Morais

Lisboa, Biblioteca Museu República e Resistência, 28 de Junho de 2008

Para a Abrente Editora e Primeira Linha representa umha enorme satisfacom podermos colaborar com a Dinossauro na ediçom deste primeiro volume de textos inéditos do Francisco Martins Rodrigues que hoje apresentamos.

Sobram razons para a colaboraçom entre duas editoriais marxistas, som múltiplos os motivos para aprofundar na amizade entre camaradas comunistas da Galiza e de Portugal.

Porém acho pertinente desenvolver as duas principais causas sobre as que sustentar a nossa modestíssima contribuiçom na ediçom deste livro, participando nesta homenagem a quem consideramos um grande amigo da causa galega e um exemplo de integral combatente comunista, cujo legado deve ser transmitido às novas geraçons de militantes revolucionári@s.

Galiza e Portugal compartilhamos umha mesma língua, o povo galego e o povo português tem umha base cultural semelhante, mais acentuada e visível entre o norte e o sul do Minho.

O projecto nacional galego, -e quando me refiro a projecto nacional identifico este objectivo com a construçom de um Estado operário, quando emprego esta formulaçom estou ligando a luita pola independência da Galiza como umha das tarefas principais e determinantes para o sucesso da Revoluçom socialista no meu País. O projecto nacional galego em que objectivamente está interessado a prática totalidade do povo galego, conformado maioritariamente pola classe trabalhadora e sectores populares, leva séculos resistindo as estrategias de aniquilamento e assimilaçom a que se vê submetido por parte da oligarquia espanhola. O grande capital hispano, profundamente imperialista, precisa de consolidar o artificial Estado-naçom espanhol para perpetuar o seu poder.

A grande burguesia espanhola sabe que o projecto nacional da Galiza e das outras naçons sem estado hoje oprimidas polo Estado espanhol deve ser definitivamente aniquilado para aperfeiçoar, melhorar e multiplicar a dominaçom e exploraçom de classe. A burguesia espanhola conhece à perfeiçom a imensa fragilidade do quadro simbólico-material de expansom e acumulaçom de capital chamado Espanha.De aí os grandes esforços e recursos ideológicos dedicados a desqualificar, manipular, estigmatizar e intoxicar sobre as verdadeiras causas e objectivos que subjazem e alimentam a nossa reivindicaçom de umha República Galega, obviamente de carácter socialista, que defendemos como horizonte estratégico para superar boa parte dos problemas da classe trabalhadora galega.

Mas o grande capital espanhol também sabe da importáncia de alargar o seu domínio ao conjunto peninsular. A soberania nacional de Portugal, mermada pola sua entrada na Uniom Europeia e polas políticas entreguistas das forças burguesas que governam desde 1975, está ameaçada polo imperialismo espanhol. Nas últimas duas décadas a penetraçom do capital económico e financeiro espanhol é mais que visível numha curta visita a qualquer cidade de Valença a Faro.

Mas Madrid nom se conforma com isto. Como todo projecto imperialista é insaciável e predador. Tal como nos tempos de Felipe II pretende a plena incorporaçom de Portugal. O que parecia um “disparate”, um diagnóstico absurdo, começa a encontrar eco, ainda de forma tímida e discreta, mas tangível, em certos sectores da intelectualidade e nalgumhas fracçons das elites económicas e financeiras. Isto nom nos deve surpreender pois é umha característica das burguesias dependentes dos países periféricos o alinhamento com as políticas imperialistas das burguesias mais poderosas jogando o papel subsidiário, colaboracionista, sipaio.

Quem renunciou a importantes quotas de soberania incorporando Portugal na NATO e na Uniom Europeia nom vai colocar objecçons insalváveis numha integraçom política disfarçada de voluntária uniom de estados ou cousas similares que podam assim multiplicar a sua taxa de maisvalia.

Mas o realmente preocupante é umha interpretaçom simplista e demagógica dos benefícios que tal cenário representaria na vida das camadas populares. Esse acceso a umhas conquistas sociais em matéria de saúde, reformas e pensons, serviços sociais, protecçom ao desemprego, salário mínimo, legislaçom laboral, etc, claramente superior ao que hoje rige em Portugal, poderia gerar a conformaçom de umha corrente de opiniom favorável à integraçom de Portugal como umha comunidade autónoma com estatus especial na actual monarquia bourbónica.

Milhares de operários da construçom civil estam hoje vendendo a sua força de trabalho na Galiza, sem as mais mínimas condiçons de habitaçom e segurança laboral, arriscando permanentemente a sua vida nas estradas e no andaime, por salários de miséria, claramente inferiores aos vigorantes nos convénios colectivos galegos, mas substancialmente superiores ao que podem receber em Bragança, Chaves, Caminha ou Viana do Castelo.

Em diversas ocasions temos conversado com o Chico sobre esta questom. Muitas horas investimos neste debate com o Francisco Martins Rodrigues, com a Ana Barradas e com muit@s outr@s camaradas da Política Operária. Sempre manifestando a nossa preocupaçom sobre esta ameaça, mas também alertando da despreocupaçom que a esquerda revolucionária portuguesa empresta à importáncia das identidades nacionais, aos fenómenos nacionais no combate contra o Capital.

A forte pegada da hegemonia ideológica do estalinismo, a sua profunda penetraçom no conjunto das diversas correntes que se reclamam marxistas provoca a incomprensom e posiçons refractárias a respeito da importáncia da questom nacional nas revoluçons socialistas. O jacobinismo da III Internacional no que Dimitrov tivo um destaque indiscutível reproduz o essencialismo, historicismo e mecanicismo de “O marxismo e a questom nacional” atribuido ao georgiano, provocando enormes dificuldades entre as e os comunistas portugueses à hora de emprestar apoio e solidariedade com as luitas de libertaçom nacional na área geográfica e cultural no que se insire.

Porquê a Palestina ou o Sara tem direito à independência, porquê é legítima a resistência iraquiana e afgá e as suas reivindicaçons devem ser assumíveis, e nom as da Galiza, País Basco, Catalunha ou Córsega?. Porquê é legítima a via armada na Colômbia e é simples terrorismo o exercício da autodefesa e resistência nacional e popular na Europa ocidental?

Boa parte dos esforços de reflexom e elaboraçom teórica do Lenine desde metade da segunda década do século XX até a sua morte em 1924 estivérom centrados em aperfeiçoar e desenvolver o marxismo neste campo. As suas conclusons som categóricas. Vladimir Ilich elaborou umha estratégia coerente para o movimento operário alicerçada na defesa intransigente do direito de autodeterminaçom. Sobre estes princípios e conceitos:

-as naçons som produtos históricos, nem naturais, nem eternos;

-umha naçom que oprime outra nom pode ser livre;

-a libertaçom da naçom oprimida é umha premissa para a revoluçom socialista na própria naçom dominante;

combatem boa parte dos movimentos de libertaçom nacional que hoje questionam a hegemonia da globalizaçom neoliberal na Europa do Capital.

Desde que nós o conhecimos Francisco Martins Rodrigues manifestou grande permeabilidade e simpatia pola nossa luita.

Contrariamente à linha oficial do PCP, do BE e de muit@s activistas políticos e sociais que entre inércias, dogmatismos e rigideces ideológicas, e às vezes entre o desconcerto e o temor que provoca descubrir fenómenos descohecidos difíceis de explicar e de imbricar no corpo teórico herdado, caracterizam de forma trivial a nossa luita independentista como pintoresca quando nom pequeno-burguesa e mesmo reaccionária porque dividiria ao proletariado na luita comum contra o Capital, o Chico sempre manifestou umha enorme capacidade para analisar a realidade. Sempre ouvindo as opinions de camaradas, submetendo à crítica e valorizando neste caso sobre o terreno a legitimidade da reivindicaçom e a importáncia da participaçom comunista na defesa do direito de autodeterminaçom naquelas formaçons sociais que carecem de estado.

O Chico armado do seu rigor intelectual e coerência ideológica foi evoluindo a respeito da importáncia que se deve conceder às reivindicaçons nacionais na luita de classes e sobre a posiçom que devem adoptar as organizaçons revolucionárias comunistas. O grande conhecimento do marxismo e basicamente da dialéctica materialista que atingiu Francisco Martins Rodrigues ao longo de tam dilatada e exemplar vida de combatente revolucionário, permitiu que nessa incansável procura dos caminhos certos para a atingir a emancipaçom humana e a felicidade, os mais elevados objectivos do Comunismo, se tenha despreendido dessas anoréxicas leituras pseudo-marxistas, dessas adulteraçons ideológicas realizadas sempre com olhos eurocéntricos e desde a lógica ocidental-burguesa, que tanto dano tem provocado ao marxismo ao longo do século XX nos povos da América Latina, e a partir da década de sessenta nos processos de descolonizaçom mais formal que real dos emergentes estados africanos virtualmente libertados do jugo europeu. @s comunistas portugueses sabeis bem disto pola experiência de Angola, Moçambique e dos resto das antigas colónias africanas. O Chico já tinha chocado frontalmente a inícios dos sessenta com as dificuldades de compreensom das luitas nacionais quando no PCP foi censurada a sua correcta orientaçom a respeito da posiçom a adoptar na guerra colonial.

FMR verificou nestes últimos anos, comprovou empiricamente a correcçom das suas análises, -extraidas basicamente de Lenine, mas também produto da sua grande capacidade teórica-, que já vinha manifestando na etapa prévia de mútua colaboraçom e amizade tecida com o movimento de libertaçom nacional da Galiza.

·Em segundo lugar o Chico contribuiu para clarificar processos e reforçar as posiçons ideológicas de Primeira Linha e de boa parte da esquerda independentista galega em diversos campos e questons.

Sem lugar a dúvidas as reflexons teóricas do FMR sobre o 25 de Abril e a linha reformista e oportunista imprimida por Cunhal no movimento operário português contribuirom a umha maior e melhor compreensom de um processo tam familiar para a Galiza, mas também tam pouco conhecido. Umha boa parte dos textos, ensaios e artigos publicados ao longo dos anos na PO e parcialmente reproducidos em 2004 no Comunismo que aí vem permitem compreender a nefasta influência do cunhalismo como versom autóctone da via nacional portuguesa da esterilizante leitura e interpretaçom do marxismo de matriz soviética.

Longe de tantos mitos e fetiches o Chico, com essa mestria pedagógica e habilidade divulgativa que o caracterizava, ajudou a entendermos melhor porque a crise revolucionária de 74-75 nom se transformou em Revoluçom, e as imensas responsabilidades do PCP neste fracasso.

O Chico também contribuiu para reforçar ideologicamente a nossa crítica à degeneraçom burocrática da Revoluçom bolchevique e à nefasta experiência estalinista. O Anti-Dimitrov é um texto de grande utilidade para recuperar a militáncia decepcionada com as derivas reformistas, um antídoto contra as derivas postmodernistas que fascinam a juventude rebelde, pois clarifica de forma consistente a necessidade de umha demarcaçom clara entre a linha proletária e a burguesa, umha oposiçom às alianças frentepopulistas com a burguesia liberal que tantas derrotas tenhem provocado à classe operária e aos pobres do mundo, essa intransigente negativa a praticar a conciliaçom de classes que hoje define a acçom política da esquerda oficial e domesticada. Deve ser pois reeditado e difundido.

O Chico foi ante todo um avançado e moderno gps que evita perder-se no caminho, que contribui para facilitar chegar com facilidade a sítios nunca antes transitados.

Contrariamente às trajectórias que caracterizam à maioria das pessoas, o Chico a medida que ia madurecendo como ser humano e como revolucionário, -o degrau mais elevado da espécie humana como bem definiu o Che Guevara do que este ao celebramos o 80 aniversário do seu nascimento-, nom se acomodou, nom se adaptou, nom se deixou domesticar, nom abrandou posiçons, nom procurou comodidades e reconhecimentos, nom desfaleceu, nem claudicou, mantivo-se fiel aos princípios, intolerante frente à opressom. Sempre rebelde e indomável!. Mas nom só frente à burguesia e o Capital.

Frente aos anacronismos, frente às petrificadas e obsoletas concepçons e leituras da luita de classes imperantes em boa parte das forças, correntes e militantes que se reclamam do marxismo revolucionário, o Chico foi capaz de actualizar o discurso da luita de classes, a centralidade da antagónica contradiçom Capital-Trabalho, incorporando as novas e nom tam novas rebeldias derivadas de fenómenos inerentes à sociedade de classes e/ou gerados polo desenvolvimento do modo de produçom capitalista que o atravessam transversalmente. Como um dos mais destacados teóricos do movimento revolucionário português, do marxismo criativo e portanto genuinamente iconoclasta, nom se deixou oxidar nem burocratizar.

Com oito décadas às suas costas era um jovem carregado de optimismo, humor e vitalidade.

Por todo isto, sempre de parámetros anticapitalistas e anti-imperialistas, foi capaz de incorporar à arquitectura ideológica da Política Operária, de inserir com resistências derivadas de lógicas contradiçons e inércias, mas incorporar a fim de contas, com diferentes graus e modulaçons, parte das cores das rebeldias que o marxismo tradicional desconsiderou, desprezou ou simplesmente desconheceu.

O Chico nom era um desses dinossauros fosilizados que desde um marxismo tradicional e extremamente conservador identifica as reivindicaçons da plena liberdade sexual e soberania sobre os nossos corpos como simples desviaçons burguesas e preocupaçons impróprias do proletariado. A data de amanhá, 28 de Junho, Dia internacional do orgulho lésbico-gay-bissexual e transexual, nom deve ser alheia para a esquerda revolucionária marxista.

O combate ao machismo e ao patriarcado, aliado simbioticamente com o capitalismo, nom é umha reivindicaçom pequeno-burguesa, umha tarefa subsidiária na acçom teórico-prática do comunismo. O combate contra a singular e específica opressom, exploraçom e dominaçom que padece mais de metade da força de trabalho, as mulheres, é questom central e determinante no comunismo do século XXI. Sem feminismo nom há revoluçom. Sem a plena igualdade real das trabalhadoras nom é possível construir umha nova sociedade.

E para podermos ter algumha hipótese de sucesso na hora de atingirmos este objectivo, as nossas organizaçons revolucionárias devem ser laboratórios, imperfeito espelho presente da sociedade pola qual luitamos. As camaradas tenhem que incorporar-se activamente nas tarefas militantes, na direcçom do movimento operário. E para atingir isto tem que ser desmontado e combatido sem trégua na nossa quotidianidade familiar, laboral, nas nossas relaçons sociais, os roles impostos polo patriarcado e reproduzidos polo capitalismo. E isto gera tensons porque os homens nom queremos renunciar aos privilégios.

Camaradas: o feminismo de classe nom divide o movimento operário. Contribui para armá-lo ideologicamente e para vaciná-lo dos males das revoluçons do século XX quem por falta de suficiente radicalidade na sua prática totalidade acabárom restaurando o capitalismo.

Devem ser @s comunistas que defendamos a biodiversidade do planeta, um modelo de desenvolvimento ecologicamente sustentável; que combatamos qualquer forma de autoritarismo, a cíclica reproduçom do poder adulto, assumindo as reivindicaçons juvenis de emancipaçom; que apoiemos sem reserva o direito de autodeterminaçom dos povos oprimidos; que emprestemos atençom à defesa da diversidade e do pluralismo social, que promovamos toda forma de criatividade cultural e artística.

Já para terminar acho imprescindível resgatar a sua ficha policial como a mais eloqüente carta de apresentaçom de toda umha vida consagrada a luitar contra o capitalismo e em prol do Socialismo. Nesta sociedade onde os méritos imperantes impostos pola ideologia dominante som medidos na capacidade de atingir sucesso, lamentavelmente identificado com o enriquecimento material, a biografia do Chico apresenta cinco detençons, doze anos de prisom e dez na clandestinidade. Isto para muita gente nom diz nada. Mas para qualquer revolucionári@ nom necessita explicaçom. Estes som os méritos reais de quem luitou com coragem e inteligência, primeiro contra o fascismo e depois contra esta falsa democracia que reproduz boa parte do modelo socioeconómico do salazarismo.

Hoje, quando o capitalismo neoliberal abandona a máscara pretendendo impor condiçons laborais do século XIX, as 65 horas semanais aprovadas pola Comissom europeia, quando seguem inalteráveis boa parte das condiçons que provocárom há oitenta anos que umha criança alentejana emigrasse para Lisboa e de muito jovem se incorporasse na luita contra o fascismo, a trajectória do Chico nom só ganhou força, é umha necessidade impostergável que do seio do povo trabalhador português emerjam mais Chicos. Som mais necessários que nunca pois os anos do silêncio nom passárom.

A melhor maneira de o homenagearmos é recolher o seu exemplo, contribuindo para culminar parte das tarefas inacabadas às quais dedicou a sua vida: construir o partido comunista revolucionário que oriente e coordene as luitas operárias, juvenis, das mulheres, populares, sob a hegemonia socialista para atingir os objectivos que o 25 de Abril nom consegiu: umha verdadeira e original revoluçom socialista em Portugal.

 

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