Mass media e políticas de massas: Perspectivas conservadora, liberal e marxista

9 de Dezembro de 2008

O teórico marxista norte-americano James Petras analisa neste texto o poder limitado dos media como ferramentas de dominaçom e manipulaçom das massas, a partir da concepçom marxista da luita social. Diferentes exemplos da história das últimas décadas mostram esses limites quando se articula umha maioria activa nas transformaçons e na participaçom.

Mass media e políticas de massas: Perspectivas conservadora, liberal e marxista

James Petras

Debates e estudos sobre os mass media (MM) tenhem focado a sua parcialidade política, propriedade e ligaçons às grandes empresas, relaçons e laços com o Estado, abertura e diversidade relativas, promoçom de guerras e interesses corporativos, entre outros grandes problemas que afectam as relaçons de poder, riqueza e imperialismo. De particular interesse para os autores que se oponhem ou apoiam o papel dos MM é o impacto que estes tenhem, ao influenciar a visom geral do mundo, opinions e comportamentos das pessoas. Ensaios, monografias e estudos empíricos tenhem sido publicados quanto à extensom da influência dos MM, o período de tempo durante o qual mantém controlo, a profundidade das opinions inculcadas polos MM e o 'lugar' que as mensagens transmitidas polos MM tenhem na induçom da opiniom pública à conformidade com os interesses da classe dominante.

Uma compreensom do papel e poder dos MM na actual sociedade capitalista exige-nos que organizemos um debate compreendendo três grandes escolas – Conservadora, Liberal e Marxista – antes de procedermos a umha análise crítica e finalmente apresentarmos notas destinadas a criar alternativas às redes de informaçom e comunicaçons controladas polas elites.

Paradigmas em competiçom: conservador, liberal e marxista

Há três paradigmas quanto ao papel, poder e relaçom dos mass media com a opiniom e acçom pública: o conservador, o liberal e o marxista.

O paradigma conservador, ou 'pluralista', largamente propagado polos cientistas sociais dos EUA e Europa, enfatiza as múltiplas vozes, as redes em competiçom, o mercado de informaçom e a diversidade de opinions. Os conservadores – 'pluralistas', afirmam que mesmo se a posse dos mass media estiver concentrada e a sua mensagem deturpada a favor do status quo, os mass media som simplesmente umha 'ferramenta', contrabalançada por outras 'ferramentas', tais como os 'grandes números' de votantes de baixos salários. Embora concedendo que haja um acesso desigual aos mass media entre trabalhadores e o capital, regimes pró-guerra e oposiçom anti-guerra, afirmam que a oposiçom também tem alguns meios de acesso ao mercado, através de numerosos escritores e agentes de difusom: O controlo sobre os mass media é 'desigual mas disperso'. Discutem ainda que, com o crescimento da Internet, há múltiplas fontes de informaçom e que o monopólio dos mass media tem sido seriamente diluído, efectivamente 'democratizando' o 'sistema de comunicaçom'. Os ideólogos pluralistas mais astutos citam estudos empíricos, a demonstrarem que a maior parte das visons que os indivíduos tenhem som formadas polos suas famílias, amigos e vizinhos – relaçons face-a-face, muito mais que os 'impessoais' media. Em suma, os conservadores defendem que nom existe umha toda-poderosa elite dos mass media e que a extensom em que existe é contrabalançada polos media alternativos, opinions locais e polo sua própria toleráncia a opinions diversas e concorrentes.

O paradigma liberal dos mass media

O paradigma liberal descreve os MM como o instrumento chave da dominaçom pola classe dominante numa democracia liberal. Começando com o registo histórico da concentraçom da propriedade do mass media nas maos de um pequeno grupo de corporaçons interligadas com a área dos negócios e com o Estado, os MM som vistos como um componente essencial do 'sistema de controlo' que perpetua a classe dominante e a construçom de impérios polo seu controlo e doutrinaçom da opiniom pública. A maioria da populaçom é convertida numa massa maleável, induzida na conformidade com os interesses e políticas da classe dominante, assim prevenindo a mudança e perpetuando o domínio pola elite corporativa. Para os liberais o controlo de cima para baixo polos mass media explica o 'paradoxo' de um império altamente desigual e orientado para a acçom militar, no contexto de um sistema político livre e democrático. O principal papel dos académicos é convencer outros académicos a desmascarar os media, a expor as suas fabricaçons, mentiras e hipocrisias, enfatizando as 'contradiçons' entre os 'nossos' valores democráticos e as mentiras dos poderosos. A versom mais radical da visom 'liberal' dos mass media atribui o alto grau de consenso entre as elites e as massas nos Estados Unidos à omnipresença e omnisciência dos mass media.

Crítica marxista

A abordagem marxista aos mass media começa necessariamente com a crítica às perspectivas conservadora e liberal. Contra a crítica conservadores, aponta que 'poder' nom é um recurso imaterial desencarnado, mas umha relaçom em que os proprietários da riqueza e poder podem multiplicar e acumular bens políticos e económicos. A presunçom que 'toda a gente' ou todos os grupos podem ter alguma influência esquece-se do facto de que os proprietários dos meios de comunicaçom estám ligados a outros poderosos grupos económicos, que tenhem poder sobre bancos, investimentos, trust funds, e estes, por sua vez, influenciam líderes políticos e partidos, controlando legislaçom, selecçom de candidatos, gastos governamentais e agendas dos governos: tudo isto mina as fundaçons e validade do paradigma pluralista. Em todos os grandes eventos da nossa época, os mass media ecoaram fielmente as linhas políticas do Estado capitalista, justificando a invasom do Iraque, demonizando o Irão e ecoando a linha que o Estado assume em relaçom ao programa nuclear do Irão, aos bloqueios na Palestina, à invasom do Líbano e ao salvamento da Wall Street. Em todos os grandes eventos, os mass media unificaram-se, desempenhando um papel de liderança na propagaçom da mensagem da classe dominante entre as massas, com variáveis graus de sucesso.

O paradigma liberal do 'determinismo dos mass media' parece ser mais credível, umha vez que o seu diagnóstico da estrutura de poder e posse dos MM corresponde à realidade, assim como corresponde o seu papel de propagandista das mentiras do Estado acerca de guerras e economia. No entanto, quando abordamos a imagem liberal dos MM controlando a opiniom pública e as atitudes das massas, as asserçons dos todo-poderosos, todo-controladores mass media tendo grande sucesso em manipular o público, as assunçons já som questionáveis.

Historicamente, o monopólio oligárquico de controlo dos mass media tem sido mal sucedido quanto ao moldar de atitudes e de acçons das massas em grande número de importantes contextos políticos. Isto é verdade inclusivamente para os Estados Unidos. Por exemplo, apesar do apoio unánime dos MM à privatizaçom do Programa Federal de Segurança Social, ao gigantesco salvamento público da Wall Street, à continuaçom da ocupaçom militar do Iraque, à escalada militar no Afeganistám e ao actual sistema de saúde lucrativo privado, a grande maioria do público dos EUA opom-se fortemente à linha seguida polos MM. Apesar de os líderes e maiorias dos dous partidos políticos governantes nom reflectirem a opiniom pública, umha maioria dos americanos tem consistentemente apoiado um sistema de saúde nacional de ámbito universal, a retirada das tropas norte-americanas e tem-se veementemente oposto ao apoio do Congresso à Wall Street e à indústria da grande finança. umha análise revela que os MM som influentes a moldar a opiniom pública à classe dominante e políticas do Estado no que se refere a política externa, em particular as políticas de guerra, no início do conflito, com a agressom ou postura militarista a ocupar umha posiçom dominante antes dos custos económicos e humanos serem trazidos para o interior do país, para os cidadaos norte-americanos no seu dia-a-dia. Os MM som relativamente ineficazes no que se trata de medidas de política interna, que afectam adversamente a vida socioeconómica diária da massa do povo americano. Os MM operam com mais sucesso quando dominam o fluir e o acesso à informaçom, como no que se refere à política externa, onde podem fabricar, distorcer e carregar emocionalmente o que é visto e ouvido polo público. Em contraste a propaganda de classe dos MM é severamente enfraquecida polas evidências da experiência empírica, quando os norte-americanos sentem na pele os problemas da sua saúde, pensons, salários e emprego. Os marxistas defenderiam que condiçons económicas específicas criam consciência de classe, o que contrabalança o poder dos MM.

A fraqueza do ponto de vista liberal acerca do domínio dos mass media encontra-se na falha em levar em conta o impacto dos contextos de classe, as restriçons nas crises económicas, os custos de guerra, o impacto da mobilidade social descendente e a importáncia de umha segurança social básica na sua avaliaçom das operaçons dos MM. A maior parte da teoria liberal dos mass media baseia-se numa visom selectiva de contextos, temas e locais que apoiem essa teoria. Por exemplo, os mass media e a conformidade das massas 'encaixam' num período de economia em expansom, mobilidade social ascendente, paz relativa ou intervençons militares menos dispendiosas, em particular no que se refere a temas de política externa. O apoio de longo prazo dos MM ao capitalismo ou ao 'mercado livre' domina as opinions das massas até o colapso do capitalismo: Com as crises e o desmoronamento do sistema financeiro e especialmente com a perda de pensons por milhons de pessoas, até alguns propagandistas nos MM apercebêrom-se que a sua posiçom era indefensável. A visom liberal da omnipotência e domináncia dos MM sob a opiniom pública é profundamente imperfeita e esquece-se de levar em conta as mudanças politico-económicas que resultam do forte desvio que a opiniom pública tem tomado em relaçom à propaganda dos MM.

A perspectiva marxista dos mass media

A perspectiva marxista relativiza a influência dos MM fazendo com que o seu poder sobre as massas em funçom do grau em que os trabalhadores e seus aliados de classe dependam exclusivamente dos MM para obterem informaçom e para definirem os seus interesses políticos e acçom social. Os marxistas argumentam que os MM exercem máxima influência onde há pouca ou nengumha organizaçom de classes ou luita de classe (como nos EUA). Em contraste, onde há ou houvo organizaçom de classe, como na Venezuela ou na Bolívia, no Chile dos anos 70 ou na América Central dos anos 80, os mass media tenhem um impacto bastante mais fraco na opiniom pública. Os marxistas argumentam que onde há umha história e cultura da classe trabalhadora, camponesa, índia ou outros movimentos baseados em classe e solidariedade de classe, a propaganda da classe dominante ou do Estado, promovida polos MM, tem apenas um efeito muito fraco. Nessas situaçons, as massas tenhem umha estrutura preexistente, redes de comunicaçons e líderes de opiniom locais, os quais filtram mensagens/propaganda que violem a solidariedade social/de classe/étnica/nacional.

Por exemplo, no Chile, durante a presidência de Salvador Allende (1970-73), a vasta maioria da imprensa opunha-se violentamente ao Presidente Democrata Socialista – no entanto Allende venceu a eleiçom, a esquerda aumentou a sua votaçom nas subsequentes eleiçons municipais e parlamentares, baseando-se no apoio esmagador dos trabalhadores, camponeses pobres, índios e desempregados residentes em bairros de lata.

Mais recentemente na Venezuela, a vasta maioria dos MM tem-se oposto ao Presidente Chávez (1998-2008) em todas as eleiçons parlamentares e municipais, mas no entanto ele venceu massivamente eleiçons. Em ambos os casos, programas socioeconómicos (grandes aumentos em programas de saúde e educaçom, distribuiçom de terras, mobilidade ascendente, programas de salários progressivos, nacionalizaçom de recursos básicos), forte apoio baseado em classe e mobilizaçons em massa, criando consciência de classe, minaram a eficiência dos mass media.

Por toda a América Latina durante a primeira década do novo milénio, poderosos movimentos populares cresceram em número de membros e em organizaçom, apesar da intensa demonizaçom polos MM. No Brasil os Trabalhadores Rurais Sem Terra expandírom-se e apoiárom as ocupaçons de terras apesar da criminalizaçom da sua actividade polos MM. O mesmo é verdade para os movimentos de mineiros, trabalhadores, camponeses e índios na Bolívia – que levaram à queda dos presidentes neoliberais apoiados polos MM. Movimentos de massas similares derrubárom presidentes apoiados polos MM na Argentina (2001) e Equador (2000 e 2005).

Esses casos ilustram condiçons contingentes e circunstanciais que influenciam o domínio dos MM sobre a opiniom pública. Existem várias condiçons comuns em todos esses casos:

1. Elos históricos, culturais, comunitários ou familiares podem criar um 'bloco' ou um 'filtro' à propaganda dos MM, especialmente em temas socioeconómicos que afectem o emprego, a vizinhança ou o nível de vida.

2. A luita de classes cria laços de classe horizontais, especialmente em resposta à repressom polo Estado ou classe dominante, da qual resulta o declínio dos níveis de vida, concentraçom de riqueza, desalojamentos em massa e migraçons forçadas. A luita de classes cria respostas positivas a mensagens que reforçam a luita e rejeitam as mensagens dos media publicamente identificados como tomando o partido da classe dominante.

3. As organizaçons de classe fornecem umha base alternativa para entender os eventos e para definir os interesses de massas em termos de classe, que possam ressoar com a sua experiência quotidiana e fornecer informaçom e interpretaçom que contrariem aquelas dos MM. Quanto mais alto o grau de organizaçom de classe, maior a solidariedade e luita de classe e menor o impacto dos MM na opiniom pública. O contrário é também verdade. Nos Estados Unidos, onde os sindicatos som geridos por funcionários que ganham 300 mil dólares ou mais por ano, que enfatizam a colaboraçom com os patrons (ou que rejeitam publicamente políticas de luita de classe) e que nom conseguem organizar 93% da força de trabalho privada, os MM tenhem menos dificuldades em influenciar a opiniom pública.

4. Quanto mais fortes forem as redes alternativas de formaçom de opiniom, mais fraca a influência dos MM. Onde os movimentos sociais desenvolvam organizaçons locais, líderes de opiniom e activistas comunitários, mais dificilmente as massas extrairám as suas informaçons acerca de eventos dos formais e distantes MM. Em muitos casos, as massas acedem selectivamente aos MM para entretenimento (desporto, novelas, comédias), rejeitando as suas notícias e editoriais. Famílias multi-geracionais que vivam em proximidade, localizadas em vizinhanças homogéneas e ocupacionais, com forte história de construçom baseada na classe geram solidariedade de classe e mensagens sociais que entram em conflito com as mensagens da classe dominante que promovem 'iniciativa privada' e 'micro-capitalismo de sucesso' ou a criminalizaçom de acçons colectivas de classe. Tanto a visom liberal como a conservadora dos MM esquecem-se do contexto de classe na receptividade e poder dos media; os pluralistas subvalorizam propositadamente a sua capacidade de dominar em tempos de fraca organizaçom de classe; os liberais sobreavaliam o poder dos MM, ignorando o poder oposto de organizaçons de classe, luitas de classe, cultura, história, tradiçons familiares e solidariedade que ligam indivíduos à sua classe e minam a receptividade às mensagens da classe dominante presentes nos MM.

 

 

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