Juan Carlos Moreno Cabrera: "O castelhano nom devia ser ensinado nas escolas da Catalunha"

4 de Outubro de 2008

Oferecemos a traduçom galega da entrevista que o professor de sociolingüística madrileno Juan Carlos Moreno Cabrera concedeu a um meio digital catalám. Embora o conflito lingüístico na Catalunha protagonize a maior parte das perguntas e das respostas, nom poucos ensinamentos podem servir para analisarmos o caso galego.

"O castelhano nom devia ser ensinado nas escolas da Catalunha"

Carles Bellsolà (eldebat.cat)

É madrileno e defende a imersom lingüística em catalám. O catedrático da Universidade Autónoma de Madrid Juan Carlos Moreno Cabrera publicou um livro, O nacionalismo lingüístico (Península), com umha tese profundamente provocadora: que o único nacionalismo lingüístico que existe no Estado é o espanhol. E que é muito agressivo, como explica nesta entrevista com eldebat.cat

Em que consiste o nacionalismo lingüístico?

A ideia que se costuma ter em Espanha é que o nacionalismo, lingüístico e em geral, som as reivindicaçons de umha série de regions que teimam, de maneira obsessiva e exagerada, em que lhes sejam reconhecidas as suas línguas e as suas culturas. Porque muitos consideram que esta língua e esta cultura estám já reconhecidas na Constituiçom e que, portanto, toda esta insistência corresponde a um desejo de se diferenciarem, contrário à sociedade da globalizaçom.

Mas o senhor, em troca, acha que há um nacionalismo lingüístico da parte espanhola.

Ao dar esse título ao meu livro, decerto tem havido muitas pessoas que o lêrom para se reafirmarem nas próprias ideias. Para eles, a leitura do livro pode ser insuportável, porque se pom de manifesto umha cousa que está oculta, que é o nacionalismo de Estado. Que nom se reconhece como tal porque é parte da falácia que, umha vez estabelecido o Estado, neste caso o espanhol, se produz umha superaçom de todas as diferenças étnicas e identitárias. No livro, demonstro que isso é completamente falso. Nom só o Estado nom deu ultrapassado a questom nacional, como se baseia numha naçom, numha cultura e numha língua concreta, que continua a ser a língua castelhana.

Portanto, qual das duas partes dá mais mostras de nacionalismo?

Na verdade, segundo a minha definiçom de nacionalismo lingüístico, nom éxistem nem o nacionalismo lingüístico catalám, nem o basco nem o galego. Porquê? O principal traço definitório do nacionalismo lingüístico é considerar que a língua própria é superior às outras, cousa que nom fai sentido com razons estritamente lingüísticas. Esta ideia, que procede de Menéndez Pidal , existe no nacionalismo castelhanista. Mas eu nom a vejo nem no chamado nacionalismo catalám, nem no basco, nem no galego. Eu nom vejo ninguém que diga que o catalám é superior ao castelhano lingüísticamente.

Cousa que sim fai o nacionalismo espanhol, segundo o seu livro.

O segundo traço definitório é que, como a minha língua é superior, estou a fazer um favor aos outros se a imponho. Tampouco vejo isto no chamado nacionalismo catalám. Os cataláns nom pretendem que se fale catalám em Málaga ou em Castela-A Mancha. Eu nom conheço nengum catalanista que defenda tal. Em troca, os castelhanistas sim defendem que o castelhano seja dominado na Catalunha, que seja a língua principal. Mesmo que o disfarcem de “língua de comunicaçom” ou “língua de encontro”. Do meu livro deduz-se que, se aplicarmos estes critérios, nom existe o nacionalismo lingüístico catalám, basco nem galego. Muitas pessoas acusárom-me de nom criticar a “imposiçom do catalám”. Mas, que imposiçom? Se eu digo que em Castela se fala castelhano, é isso umha imposiçom? Portanto, se os cataláns dim que o catalám tem de ser a língua predominante na Catalunha, é isso umha imposiçom?

Mas os nacionalistas espanhóis nom costumam dizer abertamente que o castelhano tem de ser língua dominante. O que fam é argumentar os direitos individuais dos falantes.

Fala-se em direitos individuais, mas as línguas existem no interior de umha comunidade lingüística, nom se trata de individuos isolados. Se eu for para a Alemanha, podo ter todo o direito do mundo a falar castelhano, mas terei que falar alemám. Porque estou a integrar-me num colectivo com uns relacionamentos lingüísticos em que predomina o alemám. Falar de direitos individuais em questons lingüísticas nom fai sentido. E quando criticam que o catalám começa a adquirir predomínio em certos ámbitos, fam isso porque implica a perda do predomínio absoluto, nestes mesmos ámbitos, do castelhano. Quando criticam isso, mesmo sem o dizerem abertamente, estám a pôr de manifesto que o que temem os castelhanistas nom é que o castelhano desapareça da Catalunha, como eles dim. Ninguém com dous dedos de testa pensa que o castelhano poda vir a desaparecer na Catalunha, é umha parvada pensar isso. Na realidade, expressam é o seu temor a que o castelhano perda o predomínio absoluto na Catalunha.

Todavia, sim há estudiosos que afirmam que o catalám corre um certo perigo de extinçom

Depende de com que outras línguas o compararmos. Se comparamos o catalám com o aragonês, entom nom está em perigo de extinçom. Mas o catalám tem de ser comparado com outras línguas do seu nível demográfico. O catalám é umha língua europeia muito importanto do ponto de vista demográfico e nom está em perigo de estinçom. Ora bem, nos Países Cataláns o catalám nom é a língua dominante, isso é claro. E há muitos terrenos em que nom consegue este domínio. Por domínio nom devemos entender qualquer cousa de negativo, mas que seja a língua de uso habitual, a língua por defeito. Cousa que seria lógica. Quando se convive com umha língua poderosa do ponto de vista demográfico, económico e político como é o castelhano, os avanços som muito difíceis. Nom se pode dizer que o catalám esteja fora de perigo, precisamente porque convive com o castelhano.

Por este mesmo motivo, som apropriadas as medidas de fomento da língua como, por exemplo, a imersom lingüística?

A única imersom lingüística que conheço é a do castelhano. Na Catalunha nom há imersom lingüística. Se na Catalunha é utilizado o catalám na escola, acho isso normal. Diríamos que ensinar em castelhano em Madrid é imersom lingüística? Eu nom diria tal. Falamos de imersom quando umha língua oficial nom é a língua da populaçom e se obriga a usar essa língua na escola, cousa que acontece em muitos lugares do mundo. Na Nigéria, a língua da escola é o inglês, e quem quiger ser escolarizado terá de aprender inglês, que nom fala nem ele nem a família. Porque o inglês, e esta é a questom, nom é a língua da Nigéria, é umha língua imposta polas potências coloniais. Mas o catalám nom é umha língua imposta polas potências coloniais, é a língua própria da Catalunha.

O senhor, no seu livro, diferencia entre bilingüismo aditivo e substitutivo. Qual é o caso da Catalunha?

O bilingüismo que se promove a partir do centro é teoricamente aditivo. Quer dizer, que eu acrescento a minha língua à autóctone e ambas convivem. Mas em 90% dos casos, na realidade, é um bilingüismo substitutivo, em que se pretende que a língua nova acabe por substituir a autóctone. Se umha criança catalá é educada em castelhano, que tem muitos mais livros, mais programas de TV, mais oportunidades, o que se propícia é que a criança diga: “Ah, eu falo em catalám com a minha família, mas a mim interessa-me é o castelhano, porque me dá mais possibilidades. Precisamente por isso, o castelhano nom deveria ser ensinado nas escolas da Catalunha. Já sei que é duro dizer isto, que muitas pessoas me criticarám por isto, mas é assim. Nestes momentos, há umha situaçom de desequilíbrio muito forte em favor do castelhano. Como a corrigiremos, entom? Apoiando na mesma medida as duas línguas? Assim vai manter-se o desequilíbrio. A única soluçom é apoiar a língua autóctone, a língua própria, muito mais do que a outra. É umha evidência.

Mas boa parte da opiniom pública espanhola tem a percepçom contrária, que o castelhano é umha língua de segunda na Catalunha e que está perseguido.

É que deveria ser de segunda, com certeza. Polas razons que já dei. Exactamente igual que o catalám é umha língua de segunda em Castela. Em Madrid, se existir, o catalám é umha língua de segunda ou de terceira. E isto parece-nos muito bem a todos. Que o castelhano seja umha língua de segunda na Catalunha, a mim nom me pareceria mal. Mas o caso é que nom é tal, que continua a ser dominante em muitos ámbitos. A ideia de que o castelhano se persegue na Catalunha é umha manipulaçom ideológica. Quem já foi à Catalunha sabe que isso nom é verdade, mas quem nom foi acaba por acreditar.

Os mesmos argumentos sobre esta ‘perseguiçom’ do castelhano aplicam-se, por exemplo, no caso de Porto Rico.

Que acontece quando se joga com um nacionalismo lingüístico mais poderoso que o próprio, como é o caso do inglês? Que, entom, o ideólogo do nacionalismo lingüístico da língua menos poderosa passa a utilizar os mesmos argumentos de autoconsciência lingüística que os que defendem as línguas periféricas. Mas, neste caso, já nom lhes parecem argumentos nacionalistas. Quando eu defendo o castelhano em Porto Rico, ameaçado polo inglês, nom sou nacionalista; quando fam isso mesmo os cataláns, entom é que se considera nacionalista.

Também costumam ser invocadas razons de mercado ou ‘darwinistas’, como o senhor di, para justificar o predomínio de umha determinada língua.

O novo discurso do nacionalismo baseia-se em critérios economicistas. Di-se que há línguas que tenhem um grande mercado e outras que o tenhem pequeno. Isto significa empregar critérios da globalizaçom capitalista, ver todo como mercados, produtos e clientes. É assim que funciona a economia, mas nom se pode é utilizar estes critérios economicistas na cultural. É como se, no Museu do Prado, um quadro tivesse sido visitado por 5.000 pessoas e um outro apenas por 50, e dixéssemos: “Destruamos ou levemo-lo para a cave, porque é visitado por muito poucasa pessoas”. A cultura nom é economia, é umha outra cousa.

Porque os escritores em catalám vendem tam poucos livros no resto do Estado?

Espanha nom assumiu o seu carácter plurinacional. Se se tivesse feito umha política plurlingüística a sério, teria-se ensinado às crianças a ler e perceber, no mínimo, as diversas línguas do Esetado. Assim, um adulto escolarizado seria capaz de ler Josep Pla sem traduzir. E um autor catalám poderia vender a sua língua a todo o Estado. Assim, os autores cataláns nom teriam de pensar em escrever em castelhano. Agora, se um autor catalám, com toda a lógica, quiger ser lido o mais possível, acaba por escrever em castelhano. Assim, a presença do catalám vai desaparecendo, e só se lê na Catalunha. E, mesmo assim, poucas pessoas.

Como foi recebido o seu livro no resto do Estado?

Praticamente todas as resenhas e entrevistas que já tivem fôrom na Catalunha, na Galiza, ou no País Basco. No resto do Estado, o livro quase nom tem tido incidência. As pessoas gostam de ler opinions que reforçam as delas próprias, nom opinions totalmente contrárias.

15-IX-08, Carles Bellsolà, eldebat

 

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