Carlos Taibo, sobre a vitória de Obama: À espera de Janeiro

9 de Novembro de 2008

Reproduzimos, traduzido para o nosso idioma, o artigo publicado polo jornal espanhol Público, em que o professor de Ciência Política e especialista em Política internacional Carlos Taibo reflecte sobre as expectativas abertas pola vitória eleitoral de Barack Obama nos Estados Unidos, a partir das próprias limitaçons do seu programa eleitoral, além das pressons dos 'poderes fácticos' ianques.

À espera de Janeiro

Carlos Taibo

Nom é difícil perceber porque é que som tantas as reflexons que celebram com alegria o triunfo eleitoral de Barack Obama: a simples certificaçom de que pom fim a uns anos singularmente aziagos, os protagonizados por George Bush filho, é mais do que suficiente explicaçom para tal.

Impom-se agora é, no entanto, umha tarefa delicada: avaliar por onde é que sairá Obama quando, a 20 de Janeiro, se converta em presidente dos Estados Unidos.

A questom, se assim quigermos, tem duas faces: enquanto a primeira nos obriga a interrogar-nos sobre o programa que o recém eleito quer despregar, a segunda pergunta-se, talvez a antecipar o pior pola margem de toleráncia que irám exibir, caso seja preciso, o que dantes chamávamos poderes fácticos.

Deixo a critério do leitor a consideraçom disto último e, para me movimentar em segurança, limito-me a glosar, com as cautelas que forem procedentes, a proposta programática de Obama.

Há um ano, quando o objectivo era marcar distáncias com Hillary Clinton, o agora eleito presidente assumiu um tom radical que fijo com que, pola primeira vez em muitíssimo tempo, se gerasse a esperança de que qualquer cousa mudava, a sério, nos Estados Unidos.

Depois, e umha vez o caminho começou a trilhar-se, a oferta de Obama começou a exibir centrismo por todo o lado, o que foi dali a pouco referendado pola conservadora eleiçom de Joe Biden como vice-presidente.

Pense-se, se nom, num prescindível programa económico que preconiza reduçons fiscais para os cidadaos norte-americanos que ganham menos de 250.000 dólares anuais…; difícil interpretar esse programa como umha esperança séria para os indigentes de sempre. Lembre-se o inequívoco apoio de Obama à operaçom de resgate que tivo por beneficiário um punhado de instituiçons financeiras e que poderá permitir que estas últimas, mais cedo do que tarde, voltem às velhas práticas.

Sublinhe-se o firme apoio que o entom candidato deu à segurança de Israel, em aberta despreocupaçom com a dos vizinhos deste. Leia-se como corresponde o seu namorico com um eventual atraso da retirada do Iraque, acompanhada, por se nom fosse avondo, de um compensador redespregamento de soldados no Afeganistám.

Certifique-se que Obama deseja reduzir a dependência energética que o seu país arrasta, mas de modo nengum está disposto a rever os privilégios da indústria do automóvel nem a reclamar reduçons no consumo.

E tome-se nota, enfim, de como no debate sobre política exterior decorrido em Setembro polos candidatos democrata e republicano a pobreza e a fame no mundo nom aparecêrom nem por acaso.

Embora o fim da era de Bush seja, em si mesma, umha boa notícia, sobram as razons para fugir da esperança desbocada, nomeadamente quando Barack Obama é hoje –bem reparárom nisso muitos votantes– umha opçom que nom inquieta nadinha o capitalismo norte-americano.

Há uns meses foi publicado nos Estados Unidos um livro intitulado, chamativamente: The Age o Reagan: A History, 1974-2008. O autor, Sean Wilentz, nom tem, seica, qualquer problema em situar sob o manto protector de Reagan as presidências dos democratas Carter e Clinton.

Será bom que quando, depois de outros três decénios, os historiadores se dem ao trabalho de nos contar o que hoje aparentemente começa, Barack Obama tenha inaugurado, sem margem de dúvida, uma época nova. Nom o demos, porém, por feito.

 

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