Capitalismo para muito tempo?

30 de Julho de 2008

Apresentamos a traduçom galega da reflexom do jornalista cubano Eduardo Montes de Oca, cujo original foi publicado polo portal Insurgente, sobre as perspectivas que afronta o capitalismo em crise que vivemos, e as possibilidades da sua definitiva falência histórica.

Capitalismo para muito tempo?

Eduardo Montes de Oca

Quem se debruçar ao mundo sem orelheiras dogmáticas terá de coincidir em que, pola primeira vez na história moderna, três maiúsculas crises –financeira, energética e alimentar– estám a se combinar para, multiplicadas como umha bola de neve encosta abaixo, “agravar de modo exponencial a deterioraçom da economia real. O ano 2009 poderia provavelmente parecer-se com aquele “nefasto 1929”, alerta-nos Ignacio Ramonet, em clara alusom a um craque cuja mera existência quereriam esquecer os arautos do capitalismo como fim da história, como regime acomodado polos séculos dos séculos no cimo da humana civilizaçom.

Ao leitor desaviado lembremos que, para já, continua a agudizar-se a crise financeira, que começou nos Estados Unidos, em Agosto de 2007, com a morosidade das hipotecas de má qualidade (subprime), e que agora se estende polo orbe todo. “À desfeita de prestigiosos bancos estado-unidenses, como Bear Steams, Merrill Lynche e o gigante Citigroup, somou-se o desastre recente de Lehman Brothers, quarta banca de negócios que anunciou, no passado dia 9 de Junho, umha perda de mil 700 milhons de euros”.

Cada dia, som difundidas notícias sobre as novas falências nos bancos. Consoante a nossa fonte, “por enquanto, as entidades mais atingidas reconhecêrom perdas de quase 250 mil milhons de euros. E o Fundo Monetário Internacional estima que, para sair do desastre, o sistema necessitará uns 610 milhons de euros (quer dizer, o equivalente a duas vezes o orçamento de França!)”.

Mas a lista de sarilhos seria demasiado reduzida se ficasse por aquí. Da esfera financeira transladou-se ao conjunto da actividade económica. A economia dos países desenvolvidos arrefeceu e os EUA acham-se na beira da recessom, caso nom estejam já sumidos nela. Como parte do caos, incipiente?, o preço dos alimentos parece empenhado em tocar o céu, já tocado polo dos combustíveis, nomeadamente o do petróleo, que ameaça com atingir os 200 dólares por barril, e os 400, se estourar a anunciada guerra contra o Irám.

Ora, se atendermos aos lúcidos especialistas, entre eles o cubano Osvaldo Martínez, repararemos que factos tais como o encarecimento –até 300%– dos alimentos nom respondem em primeiro lugar ao colapso da produçom mundial, nem às mudanças climáticas. Nem sequer, inclusive, ao fabrico de biocombustíveis, que por enquanto explicaria apenas 10% da subida.

Acontece que, após o estourido da ‘bolha informática’, em 2001, e a crise do sector imobiliário, em 2007, os capitais andam ansiosos à procura de ‘valores refúgio’, de novas esferas onde especular. E umha destas é a alimentar. A venda, várias vezes, de colheitas que ainda nom existem, supom o principal incentivo para a alta dos preços. Portanto, o neoliberalismo é a razom principal da ‘sem-razom’ actual. Neoliberalismo que, além da sua presença gravosa no sector financeiro e no alimentar, assenhoreia-se ainda no do petróleo, cuja oferta nom está tam mermada como para determinar os actuais preços.

E isto é asseverado polos mais preclaros observadores, para os quais as conhecidas medidas anti-crise nom passam de armas estragadas. Porque a injecçom de dinheiro efectivo vem dar vida à inflaçom, a diminuiçom de impostos aos mais ricos dá asas à especulaçom e ao consumismo, a reduçom das taxas de juro supom umha maior queda do dólar…

Se na primeira metade do século XX foi possível resolver a crise, graças ao surgimento da concepçom económica nomeada keynesianismo e à reconstruçom das forças produtivas a seguir à Segunda Guerr Mundial, nom devenhem precisamente factíveis as ideias de Keynes, com a sua inerente regulaçom, quando o capital especulativo fai o que lhe peta. E decerto que o recurso de umha conflagraçom mundial nom representa umha possibilidade real, ao menos ‘racional’, em funçom da magnitude das armas de extermínio em massa.

Nom por acaso Martínez pintou a situaçom com tons “terrosos”, já que paliativos como a enorme capacidade de produçom instalada na Ásia, para consumir nos EUA e na Europa, fam temer umha (outra) crise de superproduçom. Crise à qual, assegura o especialista, se adiciona umha de subproduçom, de alimentos, água, terras férteis, ar limpo, e umha de subconsumo.

Claro, esta situaçom, deveriam saber todos os revolucionários deste cabrom mundo largo e alheio, nom levará à queda automática do sistema que converte o homem em lobo dos seus congéneres. Porque “o capitalismo sempre encontrará um modo de se adaptar, com um custo social terrível”. Um modo de sobreviver nas mais procelosas águas. E continuará a sobreviver, sobre as costas de umha humanidade doente, em contra-mao da crise global, se os iniciados no segredo da deblace o permitirem. Se nom nos concertarmos para o derrubarmos.

 

 

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