Um olhar à história para percebermos o presente do conflito na Ossétia

11 de Agosto de 2008

Nos últimos dias, e coincidindo com a inauguraçom dos Jogos Olímpicos de Beijin, um conflito bélico rebentou no norte da regiom caucásica, envolvendo de maneira directa a Rússia e, indirectamente, os Estados Unidos. Quais som a génese e a natureza do conflito?

Umha pequena naçom, esquartejada e sem soberania

A Ossétia é umha pequena naçom do Norte do Cáucaso, que foi dominada e influída, ao longo da história, por diversos impérios, até passar, entre fins do século XVIII e inícios do século XIX, a depender do Império dos Czares. Para fazermos umha ideia, tenhamos em conta que o total da sua superfície nom atinge os 12.000 km2, quer dizer, 1/3 da superfície da Galiza, com umha populaçom de pouco mais de 700.000 habitantes. Falam umha língua indo-iraniana, o ossétio, embora contem também com outras duas línguas historicamente impostas, ligadas às respectivas forças dominantes a norte e a sul: o russo e o georgiano.

A parte norte foi a primeira a cair sob o domínio russo, enquanto a parte sul, anexada pola Geórgia, mantivo essa ligaçom inclusive quando esta também foi invadida pola Rússia czarista.

A Ossétia, a Geórgia e a Rússia no século XX

Com o triunfo proletário de 1917 na Rússia, a República Democrática da Geórgia, de maioria menchevique, mantém o controlo da Ossétia do Sul, cuja populaçom é maioritariamente pró-bolchevique, e reivindica a soberania para se reunificar com a parte norte, por sua vez integrada primeiro na República Soviética do Térek, que em 1919 passou a integrar-se na República Soviética do Cáucaso Norte. O idioma osseto é incorporado ao ensino, junto ao russo.

Entretanto, as revoltas independentistas e pró-bolcheviques do sul da Ossétia som sistematicamente esmagadas polo governo georgiano, enquanto o governo soviético enfrenta umha difícil situaçom polas agressons bélicas estrangeiras e dos exércitos brancos. Apesar do reconhecimento da independência georgiana por parte da Rússia bolchevique, os conflitos nom cessam e em 1921 acabam por dar lugar à invasom russa, apoiada pola populaçom ossétia mas contrária ao critério de Lenine, em resposta ao envolvimento do governo menchevique georgiano nas acçons bélicas do imperialismo británico contra a Rússia Soviética.

Lenine expressou na altura o seu receio pola possibilidade de que o povo georgiano pudesse identificar a ocupaçom polos revolucionários russos, que em 1918 possibilitaram a independência georgiana, com a política assimilista do imperialismo czarista. Infelizmente, a política dos bolcheviques georgianos, sob as ordens de Sergo Orzhonikidze e Josif Staline, artífice da invasom e da política gram-russa que se seguiu, daria logo a razom aos temores de um Lenine já gravemente doente.

Em 1922, a Ossétia do Sul foi incorporada polo novo secretário-geral do Partido Comunista, Josif Staline, à Geórgia, ficando esta, por sua vez, subordinada à própria Rússia. A dependência ossétia mantivo-se até o fim da URSS... e mais além, apesar da segunda independência georgiana em 1991.

Os EUA entram em cena: o conflito ossétio hoje

No conflito actual, contraponhem-se portanto um conflito histórico gestado pola partiçom da naçom histórica ossétia, hoje dividida entre os estados russo e georgiano, e os interesses geoestratégicos de duas potências mundiais: a Rússia e os Estados Unidos. Enquanto a primeira apoia o irredentismo ossétio, os Estados Unidos dam cobertura ao Estado georgiano, candidato a se incorporar à NATO e peça fundamental na influência ianque na regiom caucásica.

Junto a todo o anterior, nom devem esquecer-se dous 'pormenores':

1. A Ossétia é terra de passagem de importantes oleodutos. Enquanto a Geórgia mantiver o controlo da Ossétia do Sul, os Estados Unidos som amos de importantes recursos energéticos, nomeadamente através do controlo do transporte de crude polos seus oleodutos entre o Mar Cáspio e o Mar Negro.

2. Em 1992, a Ossétia do Sul realizou um referendo de autodeterminaçom com 91% de participaçom e 99% de apoio à separaçom da Geórgia e à reunificaçom com a Ossétia do Norte. A 'comunidade internacional' nom reconheceu o referendo e apoia a política assimilista georgiana.

É evidente que o imperialismo russo nom nos inspira nengumha simpatia. Sabemos dos seus crimes e genocídios, por exemplo, na vizinha Chechénia. No entanto, a 'causa georgiana' nom é nem mais justa, nem menos imperialista. Conta com o apoio dos EUA para continuar a usurpar a soberania ossétia e, sobretodo, permitir que o imperialismo norte-americano mantenha a sua influência na regiom.

É também evidente que o conflito vai muito além das dimensons da pequena naçom ossétia, que apesar de todas as circunstáncias que a envolvem no sangrento conflito bélico em curso, mantém intacto, com todo o vigor e a justiça, o seu direito à autodeterminaçom nacional.

 

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