A resposta Russa à estratégia de dominaçom dos EUA no Cáucaso

Celebraçom ossétia da vitória independentista no referendo de 2006

22 de Agosto de 2008

Reproduzimos o artigo de opiniom do marxista português Miguel Urbano Rodrigues, em que analisa o conflito aberto no Cáucaso polo ataque militar georgiano ao povo ossétio. Miguel Urbano situa esse episódio bélico no contexto actual do capitalismo globalizado. O artigo foi publicado no site alternativo português O Diário.

A resposta Russa à estratégia de dominaçom dos EUA no Cáucaso

Miguel Urbano Rodrigues

Uma gigantesca campanha de desinformaçom foi desencadeada com o objectivo de impor à opiniom pública mundial umha versom falsa dos acontecimentos do Cáucaso.

O agressor, a Geórgia, é transformado em vítima e a Rússia criminalizada e ameaçada por ter intervindo em defesa da Ossétia do Sul.

Os factos que estám na origem da crise nom podem entretanto ser apagados pola deturpaçom da história.

No dia 7 de Agosto o exército da Geórgia invadiu a Ossétia do Sul e praticou ali, nomeadamente, no bombardeamento de Tskhinvali, a capital da pequena república autónoma, actos de barbárie que provocárom quase 2.000 mortos e o êxodo de dezenas de milhares de pessoas.

Soldados e oficiais Russos da força de estabilizaçom internacional estacionada no território com o aval da Organizaçom para a Segurança e Cooperaçom na Europa fôrom abatidos durante a agressom.

O governo de Moscovo respondeu ao pedido de ajuda do governo da Ossétia do Sul, enviando forças militares para expulsar os invasores. Essas tropas, no desenvolvimento da operaçom, penetrárom na Geórgia, aí permanecendo durante dias para acelerar as negociaçons tendentes a garantir umha paz duradoura na Regiom. Ambigüidades no texto do Acordo assinado permitírom atitudes desafiadoras do presidente Saakashvili da Geórgia que motivárom algum atraso na retirada do contingente russo.

A campanha anti-russa, de inversom da história, prosseguiu, agravada, entretanto, pola participaçom do presidente Bush, da secretaria de estado norte-americana Condoleeza Rice, da chanceler alemá Angela Merkel e de outros dirigentes da Uniom Europeia.

As viagens a Tbilisi de Condoleeza e Merkel, o seu apoio ostensivo ao governo de Saakashvili e a renovaçom das promessas de integraçom da Geórgia na NATO justificam o temor de que os EUA, com o apoio da Uniom Europeia utilizem a crise no Cáucaso, no ámbito da sua estratégia para o Médio Oriente, para umha confrontaçom com a Rússia. Nom é por acaso que os grandes media estado-unidenses voltárom a desfraldar as bandeiras da guerra-fria.

O presidente Bush deitou lenha na fogueira ao recorrer a umha linguagem agressiva e intimidatória ao relacionar a «exigência» da imediata retirada das tropas russas com a declaraçom de que Washington considera a Ossétia do Sul parcela inalienável do território geórgiano. Umha viragem de 180 graus no discurso de defesa da independência de o Kossovo.

É improvável que o ocupante da Casa Branca, cuja cultura histórica e geográfica é paupérrima, saiba que a língua mais falada polos ossetas do Sul é o russo e que a pequena República decidiu proclamar-se independente em 1992 – opçom confirmada polo referendo de 2006 - declarando nula a sua integraçom na Geórgia. Foi por umha simples decisom administrativa, na época de Staline, que o sul da Ossétia foi separado do Norte. As conseqüências da medida fôrom, entom mínimas politicamente, tal como a integraçom da Abkhazia na Geórgia, porque esses povos caucásicos faziam parte do grande corpo da Uniom Soviética.

Mas desaparecida esta, ossetas do Sul e abkhazes, após a independência da Geórgia, manifestárom imediatamente a sua vontade de romper a relaçom de dependência que lhes foi imposta. A opçom de ambos pela independência surgiu como prólogo à futura integraçom na Rússia, desejada pela esmagadora maioria das populaçons de ambas.

Tbilisi reagiu com medidas repressivas permanentes que culminárom agora com a brutal agressom que atingiu a Ossétia do Sul.

Significativamente, em plena crise no Cáucaso, a Polónia tornou pública a sua decisom de aceitar a instalaçom de mísseis dos EUA no seu território (o chamado escudo «anti-míssil), gesto que motivou imediato e firme protesto do presidente Medvedev, que identificou nele umha grave ameaça à segurança da Rússia.

Até os grandes jornais norte-americanos sublinhárom estarmos perante umha estranha coincidência de datas.

É difícil avaliar por ora o nível de cumplicidade dos EUA na agressom da Georgia à Ossétia do Sul.

O Conselho Português para a Paz e Cooperaçom chamou a atençom num oportuno comunicado (v. odiario.info.16.08.2008) para os compromissos assumidos por Tbilisi nos acordos que precederam a construçom do oleoduto que liga Baku, no Azerbaijám ao porto mediterránico turco de Ceyhan. Essa obra – o BTV, como é conhecida - foi realizada por um grupo de transnacionais petrolíferas sob a direcçom da British Petroleum - BP, que detém a fatia do leom.

É útil recordar que o projecto foi concebido ainda na Administraçom Clinton, com a aprovaçom do ex-presidente.

Os gigantes petrolíferos assinárom entom acordos para eles vantajosos com as repúblicas petrolíferas da antiga Ásia Central Soviética, sobretudo com o Turquemenistám e o Kasaquistám, ambos com saída para o Cáspio. Como os oleodutos existentes passavam todos por territórios russos, Washington e Londres, decidírom construir o BTC, a partir de Baku.

Mas Clinton sentiu a necessidade de armar a Geórgia. Bush, reforçou a aliança com Tbilisi, identificando em Saaskatsvili - um presidente que no seu próprio pais fala em inglês em actos públicos - o mais fiel dos aliados na Regiom, e assinou acordos militares com o país atravessado polo BTC. É desconhecido o montante dos armamentos fornecidos. Mas especialistas na matéria admitem que o seu valor excede 500 milhons de dólares.

Fôrom essas armas que o exército de Saakashvili utilizou agora na agressom à minúscula Ossétia do Sul.

Nom há mentiras que podam inverter a realidade

A Geórgia, armada polos EUA, iniciou umha guerra criminosa contra um pequeno povo cioso da sua cultura, agindo como instrumento de grandes transnacionais petrolíferas.

A Rússia, já ameaçada pola instalaçom de mísseis dos EUA na área do Báltico, está consciente de que a ameaça se esboça também no Sul. E reagiu.

A estratégia imperialista, muito ambiciosa, transcende porém o controlo do petróleo. Envolve toda a Ásia Central, o Irám, o Iraque, a Palestina, Israel.

Em Washington volta, a despropósito a falar-se do «eixo do mal». Mas a argumentaçom é esfarrapada, ridícula.

A Rússia é hoje um país capitalista. Putin e Medvedev actuam em defesa dos seus interesses nacionais, incompatíveis com os dos EUA.

Nos choques em evoluçom no Cáucaso, o discurso agressivo e demagógico bushiano insere-se numa perigosa estratégia de desespero que configura ameaça à humanidade.

Envolvidos em duas guerras perdidas, os EUA, incapazes de encontrar soluçons para a crise estrutural do capital, comportam-se como um Estado parasita cujo povo consome muito mais do que produz (o défice comercial deve atingir este ano os 900 mil milhons de dólares). A opçom polo saque do Terceiro Mundo e por guerras criminosas encaminha a naçom para um desfecho trágico.

V. N. de Gaia, 19.08.2008

 

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