Homenagem aos irmaos Soares Picalho em Sada

15 de Outubro de 2008

A Cámara Municipal de Sada cumpriu a derradeira vontade do patriota Ramom Soares Picalho, trazendo os seus restos para a sua terra natal desde o exílio americano, onde passou boa parte da vida devido à ditadura fascista imposta na Galiza durante quatro décadas. Em Sada descansarám doravante os restos de Ramom e do seu irmao José Antom, assassinado polos militares franquistas em 36.

Diferentes sectores da sociedade sadense e galega participárom no recebimento dos restos, no dia 13 de Outubro. A esquerda independentista estivo também representada através de dirigentes e militantes de NÓS-Unidade Popular, que sempre reivindicou a figura de Soares Picalho como sintetizador das ideias da soberania nacional galega e a luita de classes, com umha perspectiva anticapitalista.

Pola nossa parte, e em homenagem ao grande patriota galego e fundador do Partido Comunista da Argentina, reproduzimos o artigo publicado no número 30 da publicaçom do nosso partido, Abrente, em 2003: umha síntese biográfica da autoria de Ernesto Vasques Souza.

Ramom Soares Picalho

Ernesto Vazquez Souza

Com a sua saca marinheira, seu fato gasto, os petos baleiros e alcoolizado, Ramom Soares Picalho, homossexual, generoso coraçom para o débil, tem passado à história apenas como protagonista de milhares de anedotas. Porém, é umha das figuras mais importantes da política e da oratória galega do século XX. Nas Cortes, sobre um cenário, num cruzeiro, acima de umha mesa de um bar… devem-se a Picalho os melhores discursos do galeguismo e os melhores actos políticos em campo aberto desde a apariçom da Solidariedade Galega.

Ramom, neno labrego e marinheiro, quase sem estudos, emigrara para a América em 1912 com apenas 18 anos para fugir do serviço militar e ganhar cartos. Três anos de vida desajeitada e muito trabalho enfermam-no em 1915. Aproveita a convalescença devorando na Biblioteca Nacional de Buenos Aires, e nos cursos de extensom universitária gratuitos. Abraça o ideal socialista, ingressa à universidade popular "Luz", aprende história e idiomas.

Estreia-se jornalista em Maio de 1916 em Adelante, vozeiro das Juventudes Socialistas. Preso em numerosas ocasions, com o seu nome em todas as "listas negras" por "agitador profissional" peregrina por mil ofícios. Colabora na fundaçom do Partido Comunista, de que se retirará pouco depois para reingressar no socialismo. Entre 1918 a 1920 é candidato socialista ao Concelho, ao Congresso e ao Senado, sem êxito.

Em 1921, embarca-se e desenvolve em cada porto labor sindical. Nos anos em que muitos estám a defender a apoliticidade do galeguismo é toda umha figura no massivo sindicalismo de esquerda argentino. Outravolta em terra, desde 1922, participa nas tertúlias galeguistas e aventura-se no teatro com o drama Marola.

Libertado dos sindicatos portuários da Federación Obrera Regional Argentina fai-se jornalista. Entra, em 1924, na redacçom do jornal La Argentina. Dali passa a La República. Nesse ano estoura umha greve de quatro meses que acaba em duríssima repressom. As purgas, fusilamentos e condenas que sucedem obrigam-no a ocultar-se. Publica umha brochura intitulada Cartas a un obreiro de que nom temos notícia.

Reaparece como activo organizador das Sociedades Galegas Agrárias e Culturais, de programa republicano federal e socialista a que agrega os postulados do nacionalismo galego. Actua nas conferências da "Semana gallega". Denuncia a situaçom do Estado espanhol, resenhando todos os acontecimentos daqueles anos. Colabora na fundaçom do jornal El Despertar Gallego, germe de Galicia. Funda com Rial Seixo, Branco Amor, Elísio Pulpeiro, Regueira, Zapata Garcia a revista Céltiga. Em 1925, com Branco Amor, destaca nas Conferências sobre Cultura Galega.

Em 1926, caminho a Genebra para participar na Confêrencia Internacional do Trabalho, pára na Galiza. Na sua estadia na Corunha e Sada entra em contacto com a Irmandade da Corunha e dá-se a conhecer como orador. Conferencia em galego sobre a "Galiza na América" no Circo de Artesaos, apresentado por Antom Vilar Ponte.

De volta na América, é redactor de La República, com a coluna "Notas del día", refere das revoltas anticoloniais na Índia até a exploraçom ianque na Nicaragua, ou a queda de Primo de Rivera. Aos poucos dias de se fundar na Corunha ORGA funda-se a sua filial em Buenos Aires. Secretário de redacçom de Correo de Galicia, mantém umha secçom de conteúdo galeguista.

Ao proclamar-se a II República, é o representante indiscutível junto com Antom Alonso Rios da Federaçom de Sociedades Galegas. Desembarca, em 4 de Junho, na Assembleia Nacional Galega do Estatuto que se celebrava no Teatro Principal da Corunha. Alô, após a sua intervençom, produz-se a a emotiva renúncia de Lugris Freire à candidatura como deputado a Cortes na sua pessoa. Eligido deputado pola ORGA, intervém no Parlamento das Cortes constituintes, ao tempo estuda por livre bacharel.

Com o PRG convertido cada vez mais na minoria casarista, separa-se com umha memorável carta a Casares Quiroga, em Agosto de 33. A perda dos escanos galeguistas em 1933 fará-o mudar-se a Compostela. Nestes anos, viverá graças ao favor do hoteleiro Ramom Morandeira, velho republicano. Como estudante sem recursos, ingressa na Universidade de Compostela. Realiza os exames correspondentes ao ano 34 com umha permissom especial e liberdade condicional como preso revolucionário polos acontecimentos de Outubro.

Com o seu peso crescente na organizaçom da esquerda em Compostela facilitará a composiçom de um órgao de difusom para o espalhamento do ideário galeguista de esquerda, Ser, semanário que dirigirá. Será Nós, nom por acaso, a imprensa de seu amigo Angel Casal onde se imprima.

Sem a pegada deste homem, dificilmente entenderíamos o paso ao PG, do qual seria entre 1934-1936 o seu sócio no bufete laboralista da Corunha, Luís Seoane Lopes, militante até 1934 dos grupos de Esquerda federal e Esquerda Republicana. Sem a passagem de Picalho polas salas de aula de Compostela, a raiz da perda do seu escano nas eleiçons de 1933, apenas poderíamos compreender a organizaçom e o combativismo que vai ter o grupo compostelano do PG, o seu contacto mais que fluido com os movimentos sindicais e a presença de grupos de choque antifascistas. Sem a sua intervençom na Assembleia de Santiago de 1935, após a do outro grande orador -este académico e conservador- Ramom Outeiro Pedraio, dificilmente teriam triunfado os resultados das propostas da esquerda do PG (renovaçom da directiva, pactos com a Frente Popular, atençom aos grupos de esquerda obreira).
Com o PG inserido na Frente Popular a sua actividade é impressionante. Novamente deputado, actúa no Comité da Corunha que se fai com o controlo do Governo civil. A sua participaçom em apoio de Júlio Soares Ferrim, governador interino, foi fundamental para evitar desordens e libertar, sem derramamento de sangue, os/as presos/as reclamados/as pola populaçom.

Na campanha pró-estatutária percorre toda a Galiza. Presente a 16 de Julho na recepçom polo presidente das cortes do Estatuto, fica em Madrid à espera dos requerimentos do governo. Fiel à República, actuou como propagandista em València e Catalunya. Foi assessor jurídico do Comissariado de Guerra e fijo parte de várias comissons parlamentares. Na frente de Aragom defendeu 110 processos de filiad@s da CNT e POUM, presos/as por causas políticas, o que intensificou o seu antiestalinismo.

Assiste à derradeira sessom das Cortes no Castelo de Figueres e fai, em companha de Marcial Fernández, o caminho de Perpinyá até Cherburgo passando, após mil peripécias, aos Estados Unidos, onde chega em Março de 1939. Com Marcial Fernández percorreu a Uniom, angariando dinheiro para fretar o vapor Hipanema.

Em Julho de 1939 passa à República Dominicana. Numha situaçom penosa aceita o posto de preceptor dos filhos de Trujillo. Depois, director do diário La Nación, é expulso do país polo ditador. Em Setembro de 1940 desembarca no Chile, trabalha sucessivamente em La Opinión e La Hora de Santiago e El Sur de Concepción, onde mantém a coluna "La feria del mundo", logo escreve em El Mercurio com análises de política internacional.

Seria difícil entendermos sem Picalho a transcendência simbólica, hierárquica e legal com que se mantivo o galeguismo político na América exiliada e as tentativas de manter organizaçons que asegurassem a legitimidade política e representativa d@s galeguistas american@s frente ao Culturalismo da posguerra. Neste senso, destacam as suas actuaçons na Constituiçom do Conselho de Galiza e a manutençom após a morte de Castelao. E também a organizaçom do 1º Congresso da Emigraçom galega, importantíssimas actas testemunhais que se encarregaria com seu amigo Alonso Rios de editar em 1959.

Em 1954, estabelece-se em Buenos Aires. O 28 de Junho desse ano recebe umha merecida homenagem da Colectividade galega reunida no Teatro Argentino para comemorar a data do plebiscito. Enfermo do coraçom desde 1950, alcoolizado, malvive como jornalista e conferencista. Por mediaçom de Seoane é acolhido no Centro Lucense, designado vogal de cultura, e director de Lugo, vozeiro do Centro. Com mais de 66 anos "de mui navegada vida" escreve e maravilha com a sua conversa na tertúlia da biblioteca da instituiçom. Esta tertúlia converteria-se, na Cátedra de Cultura Galega, tribuna em que unificar no mesmo auditório os públicos favoritos de Picalho: universitários/as e obreiros/as.

Ingressado no Sanatório do Centro falece na capital argentina em 14 de Outubro de 1964. Foi sepultado com todas as honras no Panteom do Centro Galego, frente ao nicho de Castelao, no cemitério da Chacarita.

 

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