EGIN: Comemoraçom de umha tropelia

14 de Julho de 2008

Reproduzimos, traduzido para o nosso idioma, o artigo publicado polo jornal basco Gara, escrito polo dramaturgo Alfonso Sastre, com motivo do décimo aniversário da arbitrária fechaçom imposta polo poder político espanhol ao diário Egin.

Conmemoración de una tropelía

Alfonso Sastre Escritor

“Tropelia: [em espanhol], atropelamento ou acto violento cometido, geralmente, por quem abusa do seu poder” (DRAE). Entre as grandes tropelias que este povo tem sofrido durante as últimas décadas, nom é a menor delas o fechamento do diário ‘Egin’ e de ‘Egin Irratia’, fai agora dez anos; umha tropelia que abriu passagem, como acabou de me lembrar Sabier Salutregi, numha breve conversa que tivemos, estando já ele na rua, após quase oito meses de intolerável prisom; que abriu passagem, digo, a umha série prolongada de outras tropelias patrocinadas por esse juiz Garzón, cuja figura aparece desde há tempos grotescamente deformada pola insensata pretensom de aparecer nos foros internacionais quase como um apóstolo da justiça democrática e grande defensor dos direitos humanos.

Nesta hora, eu nom podo deixar de lembrar, no entanto, e ainda principalmente, o triste papel que o PNB desempenhou, ou polo menos alguns dos seus dirigentes, na preparaçom de aquele facto em que culminava um processo de asfixia que tivo já um gravíssimo episódio no assalto e devastaçom que sofreu ‘Egin’ cinco anos antes (Dezembro de 1993) por parte da Ertzaintza. Eu acabava de escrever um artito a acusar a terrível situaçom de assédio que o jornal sofria, por exemplo, o boicote da publicidade institucioanl e umha mensagem terrorífica do senhor Atutxa. No dia 3 de Dezembro apareceu este artigo –‘Eu acuso’– que já saiu encabeçado por mim da seguinte maneira: “Os acontecimentos precipitam-se nestes dias. Quase na altura de acabar este artigo, agentes da Ertzaintza, num grande despregamento, irrompêrom nos locais de ‘Egin’ em Hernani e Bilbau, que fôrom ilegalmente ocupados durante muitas horas –trabalhadores presentes tivérom a impressom de que os escritórios estavam a ser ‘saqueados’– em aplicaçom de um mandado da Audiência Nacional. Sendo esta instituiçom (…) nom podo evitar a fervente suspeita de esta invasom fazer parte (…) da ‘soluçom final’ de que este jornal está a ser alvo”. Com efeito, como dixemos, cinco anos depois iria proceder-se à grande violência do seu fechamento, que resultou, como nom podia ser de outra maneira, definitivo.

No que di respeito à mençom que figem do senhor Atutxa, naquele artigo denunciei que a suspensom da publicidade a que acabei de me referir se produziu a instáncias deste senhor, e que o mesmo senhor, como escrevim naquele mesmo artigo, com expressom alucinada e ameaçadora, comunicou-nos na televisom a sua ideia de que sem se fai anunciar no ‘Egin’ “financia assim as balas que se alojárom no corpo do sargento maior Goikoetxea” (um atentado recente da ETA). De resto, é certo que a medida foi tomada “com o placet ou a indiferença da maior parte dos escritores, artistas, jornalistas e intelectuais em geral, (que) assistírom a essa prolongada acçom ilegal realizada polo Poder Político”.

Agora acho que pode considerar-se que na altura se iniciou –e entom, maldito seja você, senhor Atutxa! – a fraguar a ideia de um “ambiente” da ETA (um “ambiente” culpado), que ia ir abrangendo com o passar dos anos umha boa parte da populaçom de Euskal Herria; em geral, todas as pessoas que participamos da ideia de que é justa a reclamaçom, por parte dos povos, do direito a decidir sobre o próprio destino deles. Desde aquela, um mero leitor de um jornal poderia ser considerado como pertencente a umha organizaçom armada e colaborador dela, porque com o seu contributo ajudaria financiar o seu armamento. (É irónico o último episódio desta ideologia delirante: a detençom de empresários, acusados de financiarem a ETA pola suposiçom de nom se terem recusado a pagar um chamado ‘imposto revolucionário’ reclamado por aquela organizaçom).

Se nom estivéssemos a vê-lo, nom acreditávamos, mas aquelas ideias tenhem frutificado. Garzón madureceu-nas até chegar a considerar a ETA como umha importantíssima e complexa organizaçom múltipla e interdisciplinar. É um modo de se recusar a admitir a existência de um problema político de dimensom popular. Assim, umha boa parte dos cidadaos pode ser acusada de pertencer à ETA.

Eu já tentei definir esta prática renovada da repressom como um ‘entornalismo’ [do espanhol ‘entorno’: ambiente], que seria umha noçom que trascenderia –iria além– da simples ‘síndrome de Antígona’, segundo a qual os irmaos e restantes parentes dos militantes se vem a eles próprios como compartícipes das puniçons que lhes som impostas. A ‘dispersom’ dos presos em prisons afastadas fai parte desta síndrome e, de maneira mais grave, o facto de que na Palestina o exército israelita bombardeie umha casa porque num dos seus apartamentos viveu ou vive um patriota árabe.

Nos últimos anos, enfim, todo tem ido para pior; e já está na hora de declarar definitivamente inaturável a situaçom em que vivemos; e de, efectivamente, nom a aturar, reclamando –já mesmo!– a liberdade de todas as pessoas presas sob o império desta sinistra filosofia penal que acabamos de definir a traço grosso e com algumha precisom maior noutras ocasions.

 

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