Opiniom: É um crime contra a paz (si vis pacem, para pacem!)

24 de Setembro de 2008

Nestes dias em que o bombardeamento mediático antibasco é especialmente intenso, com umha criminalizaçom generalizada da esquerda independentista desse país irmao, achamos importante difundir a mensagem dos represaliados e das represaliadas. Fazemo-lo, mais umha vez, através de umha das vozes mais autorizadas, por longos anos de compromisso intelectual e militante com os direitos dos povos: o escritor Alfonso Sastre, que analisa os últimos acontecimentos em relaçom ao conflito basco-espanhol.

É um crime contra a paz (si vis pacem, para pacem!)

Alfonso Sastre (Gara, 23 de Setembro de 2008)

Crimen: 1) Delito grave. 2) Acción indebida o reprensible (DRAE).

Todo o mais terrível que pudesse acontecer hoje em Euskal Herria, para quem somos ferventes partidários da paz neste povo, está a acontecer neste país durante os últimos anos. A que estou a referir-me? Aos efeitos da aplicaçom na nossa vida da chamada Lei de Partidos, que é, digamo-lo com singeleza e precisom, um verdadeiro crime contra a paz, como testemunha a cascata de ilegalizaçons e encarceramentos sob a teoria de que “todo é ETA”, sem mais rigor do que a consideraçom de que qualquer outra vizinhança ideológica (neste caso o independentismo) nos situa no seu meio envolvente, e que essas vizinhanças nos colocam em cheio, sem formalidades, no campo da delinqüência e provavelmente no cárcere como presos “comuns”, pois, como se sabe, “em Espanha”, como diziam no seu tempo os franquistas no poder, “nom há presos politicos”.

Este apresamentos e ilegalizaçons que vem provocando o Governo espanhol, com a colaboraçom do conjunto dos seus aliados, venhem sendo legalizados, que nom legitimados, é claro, por umha corte judicial ao seu serviço, em que verdadeiramente nos estranha nom encontrar algumhas opinions de umha justiça rigorosa e independente; de maneira que essa legalizaçom do injusto e ilegalizaçom do justo produz já um rubor quotidiano entre nós, que vamos sofrendo duras pancadas no só à razom ou ao “direito natural”, mas tamnbém à própria legislaçom vigorante em Espanha; e assim se tem implantado umha grave situaçom em que o que acontece nom é só injusto, mas também claramente ilegal do ponto de vista meramente democrático, embora isso nom seja reconhecido e seja ignorado olimpicamente.

O último troço desta catadupa vem sendo particularmente inquietante, embora uns tais factos fossem esperáveis –e temíveis– no panorama actual, gerado pola promulgaçom da antes referida Lei de Partidos; assim, as inaprensentáveis ilegalizaçons som porém apresentadas, e isso sem qualquer vergonha, por notáveis juristas e jurisconsultos: assim, a da Acçom Nacionalista Basca, o Partido Comunista das Terras Bascas, as Gestoras Pró Amnistia e Askatasuna, organizaçons perante as quais eu tiro hoje respeitosamente a gorra.

O desenvolvimento destea situaçom é verdadeiramente terrível, na medida em que está a tentar impossibilitar, com toda a força do poder, a passagem à abertura de um processo de paz que pudesse conduzir para a mesma em Euskal Herria.

Quanto a mim, que nom sou ninguém, dirijo-me neste momento aos políticos espanhóis –tanto os que dim ser (e talvez sejam noutros campos) de esquerda, como aos que se reconhecem e assim o proclamam, embora às vezes envergonhadamente, de direita, e som (nom podem ocultá-lo) herdeiros claros do franquismo; refiro-me, é claro, aos militantes do PP, em que há algum brilhante sobrevivente de aqueles tempos, como Manuel Fraga Iribarne, ministro que foi do ditador, e que pode ser lembrado com a sua saariana branca e a sua camisinha azul (mas sobretodo polos seus factos, como durante as greves mineiras de 1963 e outros, tristemente notórios); aos que tenhem continuado umha corte de mais ou menos jovens herdeiros fiéis ao seu legado, todos eles superespanholistas, para quem Espanha é umha ideia descida do Céu e, portanto, alheia ao curso da História. “Eterna metafísica de Espanha” chamava Primo de Rivera (filho) a este monstro da epistemologia.

Assim é que hoje me dirijo a vocês, que provavelmente nom lerám este artigo, que aparece –pois é!– no “meio envolvente do bando terrorista”, para os informar, embora seja ironicamente (porque é impossível que o ignorem), de que a chamada “esquerda abertzale” é aquí a expressom política do “ánimus”, de independência que “anima” (valha a redundáncia), como claro está nos acontecimentos de cada dia, umha muito boa parte, talvez a maioria, da populaçom que habita nestes territórios… bascos. Som já muitos os encarcerados sem outro delito a seu cargo que o amor à sua pátria e ter tentado expressar esse amor através dos campos da política e da cultura.

Numha situaçom como esta, nom podem vocês agir como figérom os dirgentes da Alemanha e Itália, cujuos estados pudérom dar cabo de movimentos armados como a RAF e as Brigatte Rosse, respectivamente; porque aquí o olhar menos agudo advirte a existência de um sério problema político e de um nom menos sério apoio social, e vê a necessidade da acçom públcia de organizaçons políticas da esquerda patriótica, capazes de promover eficazmente a abertura de umha mesa de negociaçons (única via para a paz), em que a ETA sentasse para iniciar e levar a cabo essas negociaçons. Para tal eventualidade, essas organizaçons políticas nom pode fazer parte do coro das condenas formais, cuja inanidade, por outra parte, está suficientemente mostrada e demonstrada. Pôr essa condiçom para a legalidade de tais organizaçons patrióticas mostra que nom se tem um verdadeiro desejo de paz, mas umha clara vontade de que a violência continue. Eu, que, como dixem, desejo, desde a minha insignificáncia, ferventemente a paz (e que já me tenho oferecido várias vezes como senhora da limpeza da mesa em que as conversaçons se realizassem) estou, nesta altura, certo deq ue quem aposta numha via policia “pura e dura”, como eles mesmos dim, nom desejam a paz, pois sabem –e como vam ignorar umha realidade tam evidente? – que os seus pontos de vista nos afastam criminosamente dela.

Si vis pacem para bellum, diziam os antigos; mas nós, que queremos a paz, temos que a preparar, e situar-nos nesse caminho, a começar por distinguirmo-la de umha impossível e aliás indesejável pacificaçom que comportasse que os inimigos se ponham de joelhos e aceitem ser submetidos às maiores humilhaçons, e a abandonar os seus presos nas masmorras. Sabido é que nom há que confundir a paz com a ordem pública, e temos que clamar, se quigermos continuar com a latinice, Si vis pacem, para pacem. Se quigermos paz, preparemo-nos para a paz! Naturalmente, o que está em questo é a mesma noçom de paz. Nós pensamos que essa noçom, teoricamente, é um problema ressolvido polo menos desde a publciaçom da obra de Emmanuel Kant, “A paz perpétua”. Nom há paz à margem da justiça e da liberdade. A paz é, justamente, o contrário da tranquilidade dos sepulcros.

E será que pode ser chamada paz umha situaçom em que cento e cinqüenta mil cidadaos ou mais nom poderám exprimir, doravante, as suas opinions nas urnas?

 

Voltar à página principal