Lenine, 1900: Tarefas urgentes do nosso movimento

9 de Agosto de 2008

Revisitamos um clássico: o artigo de Lenine 'Tarefas urgentes do nosso movimento', publicado em 1900 como editorial do recém fundado Iskra, órgao de expressom ilegal do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR). Nele, o autor analisa o papel que deverá jogar o partido como imprescindível estrutura aglutinadora dos sectores mais avançados da classe operária, na perspectiva da revoluçom socialista.

É evidente que a existência de reflexons clássicas e vigentes como a de Lenine neste artigo -escrito com 30 anos de idade- nom nos escusa de pensar e criar pensamento próprio. No entanto, é salientável a actualidade de 'Tarefas urgentes do nosso movimento' na hora de analisarmos, hoje, aspectos como os movimentos sociais e a necessidade de umha organizaçom política revolucionária.

Tarefas urgentes do nosso movimento

V. I. Lenine

A social-democracia russa já declarou, em diversas ocasions, que a tarefa política mais imediata do partido operário russo deve ser o derrubamento da autocracia, a conquista da liberdade política. Declarárom isto, há mais de 15 anos, os representantes da social-democracia russa, os membros do grupo Emancipaçom do Trabalho; declarárom-no também, há dous anos e meio, os representantes das organizaçons social-democratas russas que, na Primavera de 1898, constituírom o Partido Operário Social-Democrata Russo. Apesar dessas reiteradas declaraçons, o problema das tarefas políticas da social-democracia russa torna a surgir nos dias que correm. Numerosos representantes do nosso movimento manifestam as suas dúvidas quanto ao acerto da mencionada soluçom do problema. Dim que a luita económica tem umha importáncia predominante, relegam para o plano secundário as tarefas políticas do proletariado, menosprezam e restringem estas tarefas e afirmam, inclusive, que as longas exposiçons sobre a constituiçom de um partido operário independente na Rússia som simples decalques de palavras ditas por outros, e que os operários devem sustentar exclusivamente a luita económica, deixando a política para os intelectuais aliados com os liberais. Esta última declaraçom do novo símbolo da fé (o tristemente famoso Credo) significa simplesmente considerar-se o proletariado russo de menoridade e negar-se, por completo, o programa social-democrata. Na realidade, Rabotchaia Mysl (sobretodo no Suplemento) manifestou-se no mesmo sentido. A social-democracia russa atravessa um período de vacilaçons e de dúvidas que a fam mesmo negar-se a si própria. Por um lado, o movimento operário está desligado do socialismo: ajudam-se os operários a impulsionar a luita económica, mas de forma algumha se lhes explicam, ao mesmo tempo, ou explicam-se-lhes insuficientemente, os fins socialistas e as tarefas políticas de todo o movimento no seu conjunto. Por outro lado, o socialismo está desvinculado do movimento operário: os socialistas russos começam novamente a dizer, cada vez mais, que a luita contra o governo deve ser sustentada apenas polos intelectuais, pois os operários limitam-se à luita económica.

Na nossa opiniom, som três as circunstáncias que preparam o terreno para estes lamentáveis fenómenos. Em primeiro lugar, no início da sua actividade, os social-democratas russos limitárom-se ao simples trabalho de propaganda nos círculos. Ao passar-se à agitaçom entre as massas, nem sempre pudemos evitar cair no outro extremo. Em segundo lugar, na fase inicial da nossa actuaçom tivemos que defender constantemente o direito à existência, em luita contra os partidários de "A vontade do povo" , que concebiam a "política" como umha actividade divorciada do movimento operário e reduziam-na a umha simples conspiraçom. Ao repelir essa "política", os social-democratas caírom no outro extremo, relegando para segundo plano a política em geral. Em terceiro lugar, ao atuarem dispersos em pequenos círculos operários locais, os social-democratas nom dérom a devida atençom à necessidade de organizar um partido revolucionário que coordenasse toda a actividade dos grupos locais e permitisse estruturar com acerto o trabalho revolucionário. O predomínio de umha actividade dispersa caminha unido espontaneamente ao predomínio da luita económica.

Todas estas circunstáncias dérom lugar à propensom para um só aspecto do movimento. A corrente economicista (na medida em que aqui se pode falar de "corrente") deu origem aos planos de se erigir esta estreita concepçom numha teoria particular, aos planos de utilizar para este fim o bernsteinianismo em voga, à "crítica do marxismo" na moda, que preconizava as velhas ideias burguesas sob umha nova roupagem. Estes propósitos originárom o perigo de se enfraquecerem os vínculos entre o movimento operário russo e a social-democracia russa, como combatente de vanguarda pola liberdade política. Daí a tarefa mais urgente do nosso movimento consistir em reforçar estes vínculos.

A social-democracia é a uniom do movimento operário com o socialismo. A sua missom nom se baseia em servir passivamente o movimento operário em cada umha das suas fases, mas em representar os interesses de todo o movimento no seu conjunto, indicar o objectivo final deste movimento, as suas tarefas políticas, e salvaguardar a sua independência política e ideológica. Desligado da social-democracia, o movimento operário restringe-se e transformar-se forçosamente num movimento burguês: ao promover exclusivamente a luita económica, a classe operária perde a independência política, converte-se num apêndice de outros partidos e atraiçoa o grande preceito: "A emancipaçom da classe operária deve ser a obra da própria classe operária" .

Em todos os países houvo um período em que o movimento operário e o socialismo existírom isoladamente, seguindo caminhos distintos, e em todos os países esta separaçom debilitou o socialismo e o movimento operário; em todos os países, só a uniom do socialismo com o movimento operário criou umha sólida base tanto para um como para o outro. Em cada país, porém, esta uniom do socialismo com o movimento operário foi obtida durante todo um processo histórico, seguindo um caminho particular, de acordo com as condiçons de lugar e tempo. Na Rússia, a necessidade da uniom do socialismo com o movimento operário foi afirmada, há muito, no terreno teórico, mas, na prática, esta uniom só nos nossos dias se vai tornando efetiva. Este processo é muito difícil, e nada há de estranho que seja acompanhado de diferentes vacilaçons e dúvidas.

Que ensinamentos tiramos do passado? A história de todo o socialismo russo indica que a tarefa mais urgente é a luita contra o governo autocrático, a conquista da liberdade política; o nosso movimento socialista concentrou-se, por assim dizer, na luita contra a autocracia. Por outro lado, a história mostra que na Rússia a separaçom entre o pensamento socialista e os representantes avançados das classes trabalhadoras é muito maior do que noutros países e que, se continuar esta separaçom, o movimento revolucionário russo está condenado à impotência. Daí se deduz logicamente o dever que a social-democracia russa é chamada a cumprir: levar as ideias socialistas e a consciência política à massa do proletariado e organizar um partido revolucionário ligado indissoluvelmente ao movimento operário espontáneo. Neste sentido, muito já foi feito pola social-democracia russa; mas o que ainda está por fazer é muito mais. À medida que o movimento cresce, amplia-se o campo da actividade da social-democracia, o trabalho é cada vez mais diverso e aumenta o número de militantes do movimento que concentram as energias na realizaçom de diferentes tarefas parciais determinadas polas necessidades diárias da propaganda e da agitaçom. Este fenómeno é perfeitamente natural e inevitável; exige, porém, umha extraordinária atençom para que as tarefas parciais e as diferentes formas de luita nom se convertam em algo que se baste a si mesmo e o trabalho preparatório nom adquira foros de trabalho principal e único.

A nossa primeira e fundamental missom consiste em promover o desenvolvimento político e a organizaçom política da classe operária. Quem relega esta incumbência para segundo plano e a ela nom subordina todas as tarefas parciais e as diferentes formas de luita, toma um caminho errado e inflige grave dano ao movimento. Desprezam esta missom, em primeiro lugar, aqueles que induzem os revolucionários a luitar contra o governo com as forças dos círculos de conspiradores, desligados do movimento operário. Desprezam esta missom, em segundo lugar, aqueles que restringem o conteúdo e o alcance da propaganda, agitaçom e organizaçom políticas; aqueles que consideram possível e oportuno convidar os operários a intervir na "política" só em momentos excepcionais da sua vida, apenas em casos graves; aqueles que sentem excessiva ánsia de substituir a luita política contra a autocracia pola simples reclamaçom a esta de certas concessons e se preocupam muito pouco em que a reivindicaçom de concessons se transforme na luita sistemática e ininterrupta do partido revolucionário contra a autocracia.

"Organizai-vos!", repete aos operários nos mais diversos tons Rabotchaia Myls, e com ele todos os partidários da corrente "economicista". Como é natural, solidarizamo-nos inteiramente com este apelo, mas acrescentando: organizai-vos nom só em sociedades de ajuda mútua, em caixas de resistência e em círculos operários, mas também num partido político, para a luita decidida contra o governo autocrático e contra toda a sociedade capitalista. Sem esta organizaçom, o proletariado nom é capaz de se elevar ao nível de umha luita consciente de classe; sem esta organizaçom, o movimento operário está condenado à impotência; exclusivamente com as caixas de resistência, os círculos e as sociedades de ajuda mútua, a classe operária nom conseguirá cumprir jamais a grande missom histórica que lhe está reservada: emancipar-se a si mesma e emancipar todo o povo russo de sua escravatura política e económica. Nengumha classe conseguiu instaurar o seu domínio na história, sem criar os seus próprios chefes políticos, os seus representantes de vanguarda, capazes de organizar e dirigir o movimento. A classe operária russa já demonstrou, também que é capaz de criar tais homens: a luita dos operários russos, que alcançou grande desenvolvimento nos últimos cinco ou seis anos, mostra que a classe operária possui um grande potencial de forças revolucionárias e que as perseguiçons do governo, por ferozes que sejam, nom diminuem, mas, polo contrário, aumentam o número de operários que se inclinam para o socialismo, para a consciência política e para a luita política. O congresso dos nossos camaradas, em 1898, expujo acertadamente a tarefa, e nom repetiu palavras alheias nem expressou umha simples tendência de "intelectuais"… E devemos empreender com decisom o cumprimento destas tarefas, colocando na ordem do dia o problema do programa, da organizaçom e da táctica do Partido. Já dixemos como concebemos os pontos fundamentais do nosso programa, mas, naturalmente, este nom é o lugar para desenvolver em pormenor esses pontos. Temos o propósito de dedicar às questons de organizaçom umha série de artigos nos próximos números. Este é um dos nossos problemas mais urgentes. Neste sentido, ficamos muito atrás dos velhos militantes do movimento revolucionário russo; é preciso reconhecer abertamente esta falha e dedicar as nossas forças a umha organizaçom mais conspirativa do trabalho, a umha propaganda sistemática das suas normas e dos métodos para desorientar a polícia e nom cair nas suas malhas. É necessário preparar homens que nom dediquem à revoluçom as tardes livres, mas toda a sua vida; preparar umha organizaçom tam numerosa que poda aplicar umha rigorosa divisom do trabalho nos diferentes aspectos da nossa actividade.

Finalmente, no que toca às questons tácticas, vamos limitar-nos ao seguinte: a social-democracia nom ata as suas próprias maos, nom limita as actividades a um plano qualquer, previamente preparado, ou a um único método de luita política, mas, ao contrário, admite como bons todos os métodos de luita, contanto que correspondam às forças do Partido e permitam alcançar os melhores resultados possíveis em determinadas condiçons. Se existe umha forte organizaçom do Partido, cada greve pode converter-se numha demonstraçom política, numha vitória política sobre o governo. Se existe umha forte organizaçom do Partido, a insurreiçom numha localidade isolada pode transformar-se em revoluçom triunfante. Devemos ter presente que a luita reivindicativa contra o governo e a conquista de certas concessons nom som mais do que pequenas escaramuças com o adversário, ligeiras refregas nas frentes de luita, e que a batalha decisiva está por vir. Temos pola frente a fortaleza inimiga, bem armada, de onde se lança sobre nós umha chuva de metralha que abate os melhores luitadores. Devemos tomar essa fortaleza, e vamos tomá-la se unirmos, num só partido, todas as forças do proletariado que desperta às forças dos revolucionários russos, para o que se inclinam todos os elementos activos e honestos da Rússia. Só entom se verá cumprida a grande profecia do operário revolucionário Piotre Alexeiev: "Levantarám-se os braços vigorosos de milhons de operários, e o jugo do despotismo, protegido polas baionetas dos soldados, saltará em pedaços!"

 

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