Miguel Urbano: "A crise é estrutural e nom apenas cíclica"

30 de Novembro de 2008

Como mais um contributo na compreensom da natureza e dimensom da actual crise sistémica do capitalismo mundial, reproduzimos a entrevista realizada pola publicaçom brasileira Brasil de Fato ao veterano marxista português Miguel Urbano Rodrigues, em que foca a questom com a perspectiva de um comunista europeu conhecedor das luitas anticapitalistas existentes no palco internacional.

Brasil de Fato – O mundo inteiro vive um drama com a crise financeira desencadeada a partir do centro do império. Tem-se dito que essa crise ainda está apenas começando e que ela tende a se agravar. Na sua avaliaçom, qual é a dimensom dessa crise? É apenas mais umha das tantas que o capitalismo já produziu? O neoliberalismo foi derrotado?

Miguel Urbano Rodrigues – Esta crise é estrutural, e nom cíclica como as anteriores. Do sistema financeiro, alastrou para a economia real, e dos Estados Unidos, passou à Europa e à Ásia Oriental. Tende a agravar-se muito. E o seu desfecho é por enquanto imprevisível. Umha certeza: o neoliberalismo, glorificado como a ideologia definitiva que assinalaria “o fim da História”, fracassou. Hayek [Friedrich August von Hayek] é enterrado e Keynes [John Maynard Keynes] ressuscita.

O senhor dixo que se trata de umha crise estrutural. As medidas anunciadas até agora alteram a actual estrutura desse processo?

Por ser umha crise estrutural, e nom apenas cíclica como as anteriores – confirmando previsons de autores marxistas como Istvan Meszaros e Georges Labica –, as medidas tomadas polos governos do G-8, transformados em bombeiros do capital, som apenas paliativos. A recuperaçom das bolsas e do dólar geram a ilusom de que todo vai voltar rapidamente à normalidade, entendida esta como um reflorescimento do capitalismo sob um novo figurino. Tal convicçom é enganadora. A economia real nos EUA, no Japom e na Uniom Europeia vai continuar a afundar-se em proporçons no momento imprevisíveis. Os despedimentos maciços em dezenas de gigantescas transnacionais, os apelos angustiados dos grandes da indústria automóvel e aeronáutica à ajuda estatal e o encerramento de milhares de empresas ligadas à construçom e ao comércio funcionam como espelho da gravidade e complexidade de umha crise de muito longa duraçom.

O senhor acredita que os Estados Unidos, como potência imperialista, saem derrotados dessa crise ou se fortalecem ainda mais?

Os Estados Unidos, pólo hegemónico do sistema do capital, saem enfraquecidos. Mas enquanto o actual sistema monetário subsistir, com o dólar como moeda de referência mundial, os custos da crise serám distribuídos. Os Estados Unidos som o país mais endividado do mundo (a dívida já iguala o PIB do país). Mas o privilégio de emitir a moeda em que é facturado o petróleo – o produto-chave no comércio internacional – tem adiado um desfecho de bancarrota.

Um sistema mediático perverso e desinformador, dominado no fundamental por grandes transnacionais estado-unidenses, ocultou, por exemplo, que grande parte do chamado “resgate” de 700 bilhons de dólares será pago por países da Ásia, nomeadamente a China e o Japom, principais compradores dos Títulos emitidos polo Tesouro dos Estados Unidos. Somente a China possui cerca de 1.300 biliom de dólares em reservas e bônus do Tesouro. Se os trocassem por outras moedas, os EUA iriam à falência. Mas a China também, porque a sua economia depende muito das exportaçons para os Estados Unidos.

Que avaliaçom fai das conseqüências desse cenário para a América Latina?

No momento, a maioria das previsons sobre as conseqüências da crise para a América Latina som no fundamental do domínio da especulaçom. Mas essas conseqüências serám certamente graves. Os Estados Unidos som o principal mercado para as exportaçons da América Latina, em alguns casos com mais de 50%. No plano político, a estratégia de Washington terá de ser revista. É previsível umha reduçom da agressividade contra a Venezuela bolivariana e contra o governo de Evo Morales (Bolívia). As manobras conspirativas persistirám, mas a nova administraçom utilizará outra linguagem.

Em todo o mundo, temos a impressom de que a classe trabalhadora está apenas assistindo a crise. Compartilha da ideia de que vivemos um perído de descenso do movimento de massa e essa crise véu num momento muito ruim para os trabalhadores?

É minha convicçom de que, polo contrário, as luitas sociais tendem a intensificar-se, sobretodo nos países da Uniom Europeia e nos Estados Unidos, porque os trabalhadores vam pagar a factura maior da crise. O movimento de massas ganha amplitude na Europa. Por exemplo, no dia 8 de Novembro, 120 mil professores (80% da categoria profissional) desfilárom em Lisboa, Portugal, protestando contra a política educacional do governo reaccionário de Sócrates.

Como em toda crise, há sempre saídas. As elites já estám a tentar encontrar as suas saídas. Quais os rumos que a esquerda deve buscar?

A situaçom é dilemática porque todas as saídas som, na aparência, más. A única alternativa para o capitalismo senil, que ameaça conduzir a humanidade ao abismo, é o socialismo. Mas o capitalismo nom vai acabar em data próxima, e o socialismo é, por enquanto, aspiraçom distante. As tentativas orientadas para a humanizaçom do capitalismo (como é o caso de governos como o Lula, no Brasil; os Kirchner, na Argentina; Tabaré, no Uruguai) som perversas, por enganarem o povo com a cumplicidade de forças e partidos progressistas. Vam fracassar. Grandes sofrimentos – essa é outra certeza – esperam a humanidade no futuro próximo. Sofrimentos que serám diferentes de continente para continente, de país para país, como diferentes serám as características da luita dos povos contra o sistema que continuará a impor-lhes a sua dominaçom.

Nesses períodos de crise, quem paga a conta som sempre os trabalhadores. Teremos novamente de pagar a conta? O senhor acredita ser possível unir os proletários do mundo e encontrar saídas ou as soluçons tendem a ser isoladas?

A crise coloca os povos por ela atingidos, nomeadamente na Europa Ocidental, perante umha situaçom dilemática. A relaçom de forças, da Suécia à Itália, de Portugal à Grécia, nom abre a possibilidade de que a crise actual desemboque em rupturas revolucionárias. Mas, simultaneamente, a transformaçom profunda das sociedades da Uniom Europeia, moldadas e oprimidas polo capitalismo, nom é possível pola via institucional, dita pacífica. A burguesia nuncaentrega o poder sem umha confrontaçom final com as forças do progresso. Sejamos realistas.

No caso português, fora do contexto de umha crise de proporçons continentais, os partidos que representam o capital continuarám a vencer todas as eleiçons. A alternáncia no governo do PS e do PSD ilustra bem o controlo que a classe dominante exerce sobre os mecanismos eleitorais da impropriamente chamada democracia representativa, que na prática funciona como ditadura da burguesia com máscara democrática. A crise do sistema financeiro mundial adquiriu as proporçons de umha crise de civilizaçom que atinge toda a humanidade. O seu desfecho é por enquanto imprevisível. A única certeza é a de que milhares de milhons de pessoas vam pagar a factura da falência do capitalismo neoliberal e da ideologia a ele subjacente, enquanto os responsáveis pola crise pouco ou em nada serám afectados, no imediato, polo naufrágio da monstruosa engrenagem por eles montada.

Em momentos como estes, o que fazer?

Luitar, luitar com energia redobrada. Nom som apenas a falência do sistema financeiro mundial, a recessom que alastra nos países do G-7, o encerramento de milhares de empresas em dezenas de países, que iluminam a gravidade e a fragilidade da crise estrutural do capitalismo. O sistema do capital dispom de umha força enorme. Mas nom pode mais funcionar de acordo com a sua lógica. Os EUA, pólo e motor do sistema, estám envolvidos em duas guerras perdidas no Oriente Médio e na Ásia Central. Na América Latina, desenvolvem-se processos de ruptura com a dominaçom imperial. Na Europa, anunciam-se num horizonte próximo grandes luitas inseparáveis das conseqüências da crise, que vai lançar milhons de trabalhadores no desemprego. No movimento da História, a maré da contestaçom ao sistema tende a subir. Da luita dos povos, da fusom do particular e do geral, do nacional e do universal, depende que essas luitas adquiram um carácter torrencial, assumindo com o tempo dimensom planetária numha atmosfera de internacionalismo dinamizado polas organizaçons e partidos revolucionários.

Como jornalista, como o senhor tem acompanhado a cobertura dos media sobre a crise?

O sistema mediático apresenta umha frente única na difusom da mentira, nas explicaçons falsas da crise e nos remédios propostos para a resolver, todos orientados para a preservaçom do capitalismo. No discurso de sociólogos, economistas, historiadores, ministros e parlamentares chamados à televisom para esclarecer a “massa ignorante” da populaçom, o povo nom aparece como personagem. Está ausente. Os porta-vozes e epígonos caseiros do grande capital, cúmplices do caos financeiro e social que alastra polo mundo, desprezam os trabalhadores. O panorama social da crise nom é iluminado polos media, porque isso seria perigoso para os senhores da finança.

Nos Estados Unidos, Obama acaba de ganhar as eleiçons presidenciais. Como o senhor analisa essa vitória e o que pode mudar com o novo presidente?

É positivo que o povo estado-unidense tenha optado por Obama, um presidente negro, com um discurso muito diferente do de seu adversário republicano. Mas nom participo da euforia gerada em nível mundial pola vitória de Barack Obama. É um grande orador e um político hábil e inteligente. Mas aparece-me também como o produto de umha gigantesca e milionária campanha de marketing eleitoral. Nom esqueçamos que Obama foi o candidato da Finança, dos grandes grupos transnacionais.

As suas primeiras iniciativas nom justificam o entusiasmo que por aí vai. Para chefe de gabinete na Casa Branca, designou já um falcom, sionista, ex-voluntário na guerra do Golfo, um belicista inflamado. Obama afirma pretender “ganhar” a guerra do Afeganistám, defende umha política agressiva contra o Irám, afirma que manterá o bloqueio a Cuba. O vice Joe Binden antecipou umha evidência ao afirmar que as primeiras medidas do futuro presidente serám “muito impopulares”. Alguns dos assessores som republicanos de direita e clintonianos conservadores. A designaçom de Madeleine Albright como sua representante na Conferência dos 20 (G-20) é inquietante. Temo que Obama seja umha grande decepçom para a humanidade progressista.

 

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