O autismo como estratégia normalizadora. Reflexons sobre a última iniciativa isolacionista da Mesa

Maurício Castro

11 de Fevereiro de 2004

A Mesa pola Normalización Lingüística "conseguiu" da Microsoft o compromisso de traduzir para o galego isolacionista o Windows XP e o Office. A entidade normalizadora justificou a reclamaçom afirmando que o nosso idioma carecia de traduçom própria, ficando por trás de comunidades como a catalá, a basca e a galesa, que já contavam com as citadas ferramentas informáticas.

A Mesa, que ameaçou com umha campanha de boicote à Microsoft, "esqueceu" na sua reclamaçom fazer qualquer comentário ou valorizaçom da existência desses e outros muitos programas informáticos no nosso idioma, nas variantes portuguesa e brasileira, apesar de teoricamente a citada entidade reconhecer o galego como mais um ramo do mesmo tronco lingüístico.

Numha altura em que o sector utente dos chamados "mínimos" já abandonou aquela norma, aderindo ao oficialismo isolacionista, a iniciativa da Mesa pom em evidência o nulo papel que a nova maioria resultante do acordo de Julho de 2003 reserva ao reintegracionismo na sua "nova" estratégia, que chamam "de consenso". Quando alguns dos seus teóricos se autodefinem como "reintegracionistas com ortografia oficial" e dim manter as ideias apesar da assunçom da ortografia e morfologia espanholizantes, convém aplicarmos o critério marxista de julgar as pessoas e os grupos sociais nom polo que dim sobre si próprios, mas por como os define a sua actuaçom concreta e real.

Nom aproveitar a existência de todo um caudal de materiais informáticos no nosso idioma, quando tal nos situaria à altura de espaços culturais tam potentes como o espanhol ou o inglês, semelha mais umha aposta suicida do que umha iniciativa verdadeiramente normalizadora, nomeadamente na dramática situaçom que vive a nossa comunidade lingüística. Mas, no caso que comentamos, a Mesa nem fai qualquer tipo de reflexom sobre a necessidade de ser distribuído na Galiza o software já existente nas outras variantes do nosso idioma como alternativa ao hegemónico espanhol. Nem sequer enquanto a citada entidade nom consegue convencer a Microsoft para que traduza as restantes centenas de aplicaçons ainda nom "galeguizadas". Em lugar disso, a Mesa mantém os tiques históricos do isolacionismo, situando-nos no mesmo plano que outras comunidades desnormalizadas e carentes de co-referentes normalizados como de facto a nossa tem.

Poderá-se discutir o papel que para nós devam jogar os produtos culturais, literários, informáticos, musicais, bibliográficos, audiovisuais,... de aqueles países em que a nossa língua é oficial e de uso plenamente normalizado, mas concordaremos em que algum deverám ter. Para a Mesa, porém, é suficiente umha pobre adaptaçom do software espanhol de Windows e Office, ficando assim o espanhol, mais umha vez, como verdadeiro teito que limita a expansom do nosso idioma nos mais diversos ámbitos de uso social, neste caso o informático. O autismo como estratégia normalizadora.

Mesmo na lógica possibilista de adaptar para esse galego dito "oficial" todo aquilo que se puder, compreensível na estratégia também possibilista de se conformar com umha visom restrita e provinciana da nossa língua, nom caberia umha iniciativa similar que reclamasse a distribuiçom do software português e brasileiro no nosso país?.

Ante a autolimitaçom e a falta de perspectivas do esgotado modelo normalizador isolacionista, seria de agredecer polo menos que alguns abandonassem já a retórica vácua sobre as "origens comuns", "parentescos genéticos" e outros tópicos do género. Mas é ainda mais necessário que o reintegracionismo compreenda e exerça o papel que lhe corresponde. Para já, refortalecer-se e socializar a sua proposta frente ao beco sem saída oficialista. Umha proposta, a reintegracionista, que contém boa parte das cartas de futuro que ainda pode jogar a comunidade lingüística galega. Algumhas esperançosas iniciativas nessa direcçom parecem enxergar-se da obrigatória distáncia geográfica. Oxalá, por bem da Galiza e da nossa língua, finalmente batam certo.

 

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