Entrevista a Raul Reyes, comandante das FARC-EP: "o verdadeiro terrorismo é a fame provocada por uns poucos para se apropriarem das riquezas da maioria"

5 de Maio de 2004

Reproduzimos a entrevista realizada pola Agência de Notícias Nova Colômbia ao comandante guerrilheiro das FARC Raul Reyes, em que fala sobre o significado da Alca, a situaçom das luitas na América Latina e responde algumhas outras questons em relaçom com a guerrilha revolucionária na Colômbia e o que Reyes denomina "o verdadeiro terrorismo".

Agência de Notícias Nova Colômbia: Por que a guerrilha detivo Ingrid Betancourt, a candidata a presidenta?

Reyes: Veja, Ingrid foi detida por ser candidata presidencial do sistema governante colombiano. Nom se sabia que ela tinha nacionalidade francesa, soubo-se que tinha nacionalidade francesa agora, depois de ela estar detida. Mas antes ela nom era senom umha candidata presidencial do sistema, com alguns matizes, algumhas diferenças, sobretodo por fazer política, para poder competir com Uribe Vélez, naquela época (2002), com Horácio Serpa, com Lucho Garzón.

Ingrid nom era nengumha candidata da esquerda, nom era umha candidata que estivesse luitando por umha Colômbia distinta da que temos hoje. Nom, era umha candidata que estava também no seu direito, é preciso reconhecê-lo, de chegar à Presidência da República.

Mas nom era a candidata do povo, nom era a candidata da maioria, nom era a candidata contra o modelo neoliberal, nom era a candidata pola paz. Há gente que pensa que fosse a candidata pola paz, porém nom é certo.

O que ocorre é que, depois da sua captura, ocorrem mobilizaçons importantes para que o governo se sensibilize e pola necessidade de se chegar a um acordo, e essas mobilizaçons para se conseguir um intercámbio humanitário som saudáveis, parecem-nos muito boas, pois podem contribuir para que se chegue a um acordo que permita a libertaçom de todas as pessoas intercambiáveis e à libertaçom de todos os guerrilheiros e guerrilheiras que estám nos cárceres colombianos contra sua vontade.

ANNCol: Que relaçom tenhem as Farc com o governo venezuelano?

Reyes: As Farc tenhem simpatia polo governo do presidente Hugo Chávez, porque é um governo bolivariano, comprometido com os ideais de nosso libertador. A Venezuela é um país irmao da Colômbia, desejamos a todos os bolivarianos da Venezuela os melhores êxitos na construçom do seu governo, na construçom do seu modelo, e aspiramos a que podam avançar na sua obra.

Esperamos que podam apresentar resultados benéficos a todo o povo venezuelano, para que se construa na Venezuela um país em paz, com justiça social e onde se poda enfrentar a violenta arremetida da oligarquia venezuelana, apoiada pola oligarquia colombiana, empenhada em tirar da presidência da Venezuela a Hugo Chávez, um patriota venezuelano, um autêntico herdeiro da gesta bolivariana, que está comprometido com a defesa dos interesses do seu povo.

Entom, desejamos à Venezuela e a seu presidente, ao seu governo e a todos os bolivarianos êxitos nesta luita libertária, nesta luita emancipadora, de irmandade e continuidade da obra de nosso libertador, Simon Bolívar.

ANNCol: Qual sua opiniom sobre o Acordo de Livre Comércio das Américas, a Alca?

Reyes: Caso a Alca seja aprovada, as políticas da Alca tornam muito mais calamitosa a vida dos colombianos e de todos os países que se metam dentro dela. O que se busca com isso é recolonizar nossos países, converter a Colômbia numa colónia dos Estados Unidos e de suas políticas, ou seja, deixar a Colômbia anexada aos EUA, sem direito a nada, completamente dependente.

O governo antipátria de Uribe Véles está comprometido dos pés à cabeça nisto, em entregar a Colômbia nos braços dos gringos, nos braços dos centros económicos mundiais. As Farc oponhem-se com todas as forças a essa pretensom, que ainda por cima viola a nossa soberania e a nossa integridade territorial.

ANNCol: Ultimamente ocorrêrom grandes mobilizaçons populares na Bolívia, Equador e Argentina. O que pensam as Farc a respeito?

Reyes: As Farc tenhem umha política internacional de respeito a todos os povos do mundo. Respeito aos povos em primeiro lugar, respeito às autoridades que estes povos escolhem, respeito à sua livre autodeterminaçom, à sua cultura, os seus costumes e suas políticas.

O que vemos que estám fazendo os povos da Bolívia, do Equador, os povos de outras partes da regiom e do mundo é que estám luitando contra os efeitos devastadores, espoliadores, empobrecedores, gerados polo modelo neoliberal, engendrando a globalizaçom, a guerra do império contra os povos do mundo, feita através do Fundo Monetário Internacional, através do Banco Mundial, através do Banco Interamericano de Desenvolvimento.

Som milhares de seres humanos do chamado Terceiro Mundo que padecem de fame, que nom pudêrom almoçar hoje e tampouco poderám almoçar amanhá, cujas crianças estám morrendo de desnutriçom. Entom, o verdadeiro crime, o verdadeiro terrorismo dos grupos económicos mundiais expressa-se na morte permanente de homens, mulheres e crianças devido à fame. Este é o terrorismo mais perigoso que existe no mundo: as pessoas que morrem de fame para que uns poucos se apropriem das grandes riquezas da maioria.


Voltar à página principal