Entrevista a Maurício Castro, cabeça de lista de NÓS-UP às europeias, no fim da campanha

"Em poucas semanas conseguimos umha socializaçom da proposta independentista superior à conseguida durante anos de trabalho anterior"

[Informaçom tirada do web eleitoral de NÓS-Unidade Popular]

11 de Junho de 2004

Coincidindo com o fim de campanha independentista, o cabeça de lista da candidatura de NÓS-Unidade Popular, Maurício Castro, oferece umha entrevista em que fai balanço do desenvolvimento do trabalho eleitoral por parte da esquerda independentista galega durante as últimas semanas.

Que avaliaçom fai NÓS-Unidade Popular da primeira campanha eleitoral em que participou?

Todo o mundo está a reconhecer o carácter imaginativo e nom convencional da campanha que fijo NÓS-UP. Partindo já da importante "pré-campanha" que desenvolvemos nas ruas da Galiza, ganhando umha a umha em pouco mais de umha semana as mais de 20.000 assinaturas que, contra o prognóstico de muitos, nos permitírom apresentar-nos a estas eleiçons. Para além da importáncia que esse só facto já tivo como indicativo da existência de umha base social favorável à verdadeira democracia, a Democracia Galega com maiúsculas que NÓS-UP defende, a campanha das 15.000 assinaturas deixou também em evidência o boicote do sector hegemónico do BNG, explicitamente contrário à conformaçom da nossa candidatura segundo nos transmitírom pessoalmente alguns dos seus máximos dirigentes.

A nossa iniciativa coincidiu com a coligaçom do próprio BNG com a catalá CiU e o basco PNB, o que consagrou de vez a sua incorporaçom ao campo autonomista no plano nacional e a sua renúncia a qualquer autodefiniçom como organizaçom inequivocamente de esquerdas. Daí a importáncia de termos conseguido conformar umha lista independentista e de esquerdas. Sabemos que os resultados serám modestos, pois estamos conscientes da inferioridade de condiçons que enfrentamos. Somos umha organizaçom pequena, com umha extrema fraqueza financeira e um financiamento proveniente em exclusiva dos contributos da filiaçom e de simpatizantes; ainda desconhecida para boa parte do nosso povo; e por cima estigmatizada polos media do sistema, que figérom a sua própria contra-campanha negando o mais mínimo espaço à única opçom 100% galega que se apresenta a estas eleiçons.

Tendo em conta todo o anterior, devo fazer um reconhecimento público às dúzias de companheiros e companheiras que levam semanas fazendo um trabalho importante para vencer todas essas dificuldades, permitindo-nos chegar a novos sectores e a lugares onde até agora nom chegara a mensagem da esquerda independentista galega.

Qual foi a recepçom da campanha por parte dos sectores a que se dirigia?

A imagem gráfica e a focagem da nossa campanha tenhem servido para desmarcar a candidatura independentista de todas as outras. Nós nom jogamos a promover rostos ou figuras de intelectuais, artistas e políticos profissionais em cartazes e vídeos de alto orçamento. Quigemos transmitir a ideia de umha proposta horizontal, colectiva, democrática, participativa e isenta de todo verticalismo ou paternalismo tam próprios dos políticos e partidos do sistema. Acho que muita gente, vaia ou nom vaia votar NÓS-UP, gostou dessa autenticidade pola nossa parte.

Mas a linha gráfica resultou controvertida, nom achas?

Foi chocante para muitas pessoas. Sabíamos que provocaria qualquer cousa menos indiferença, como de facto aconteceu. Porém, o passar dos dias confirmou que foi umha escolha acertada, frente a visons críticas que desde o mais puro ideologismo falárom de falta de compromisso na mensagem dos já tam comentados despidos. Houvo quem quigesse negá-lo, mas certamente a campanha tivo umha carga ideológica de profundidade contra a linha de flutuaçom do patriarcado. Só assim se explica a sanha com que fôrom arrancados, nalguns lugares de maneira sistemática, os cartazes em que se reflectia um esquema afectivo alternativo ao dominante. Cartas de protesto publicadas em meios de comunicaçom, criticas corrosivas e mesmo comentários profundamente reaccionários difundidos por pessoas alegadamente progressistas, mal conseguírom dissimular com acusaçons de "amoralidade" e "apoliticismo" o que fôrom claramente preconceitos contra umha mensagem que questiona a centralidade do modelo de relaçom heterossexista.

Para além do dito, nesta campanha conseguimos transmitir umha imagem jovem, dinámica e rupturista, acorde com um programa de mínimos que gira em torno do rechaço ao modelo de construçom europeia em curso e em defesa da Europa dos povos. Frente à lista interminável de falsas promessas que costumam ser recebidas passivamente como parte do ritual de enganos eleitorais, NÓS-Unidade Popular apresentou umha proposta aberta, sem duplas linguagens, que nos apresentou como o que verdadeiramente somos, e nom jogou a ganhar votos a qualquer preço. Umha proposta explicitamente dirigida aos trabalhadores, juventude e mulheres. A autenticidade da proposta nasce da própria composiçom da lista independentista, cujos membros pertencem a essa mesma extracçom social.

A resposta nas ruas, no contacto directo com as pessoas, fijo-nos verificar um certo reconhecimento a essa sinceridade e abertura com que tentamos ganhar apoios para umha causa que nom pode cingir-se a um objectivo meramente eleitoral. Preocupa-nos muito mais com aglutinar força social para a construçom nacional a partir de parámetros antipatriarcais e de esquerdas. Esta campanha foi apenas mais um cenário em que desenvolver esse trabalho político que a nossa organizaçom realiza quotidianamente na medida das suas possibilidades. Claro que devemos reconhecer que as carências apontadas nos impedírom chegar a muitos pontos e sectores do país, o que limita grandemente as nossas expectativas imediatas. Porém, nom há dúvida que em poucas semanas conseguimos umha socializaçom da proposta independentista superior à conseguida durante anos de trabalho anterior. Hoje, a seriedade e compromisso do projecto de NÓS-UP som reconhecidos por novos sectores sociais, o que nom significa que isso vaia ter reflexo imediato em termos quantitativos, claro.

E, no meio da campanha, surge a iniciativa em solidariedade com a candidatura basca de Herritarren Zerrenda, que chamou a atençom dos meios de comunicaçom sobre NÓS-UP...

A anulaçom da candidatura dos companheiros e companheiras bascas nom por anunciada foi menos sentida por amplos sectores da esquerda e os movimentos sociais alternativos. No meio dos comunicados de apoio, entre os quais significativamente faltou o do BNG, a própria esquerda abertzale afirmou achar em falta nom apenas palavras de apoio, como sobretodo acçons concretas e efectivas de solidariedade. Esse foi o significado da iniciativa internacionalista da nossa candidatura. Transformamos em factos concretos e palpáveis tantas palavras, nem sempre sinceras, de apoio a um povo tam castigado pola repressom como é o povo basco. Esse é o valor do gesto de NÓS-Unidade Popular ao dar cobertura legal para que HZ poda fazer a contagem dos votos que legitimamente lhe correspondem. Nom reconhecemos ao Estado espanhol potestade para negar o direito ao voto a dezenas de milhares de bascos e bascas.

Dito o anterior, gostava de esclarecer que, longe de qualquer subordinaçom a dinámicas de outros povos, mesmo que sejam tam dignas de reconhecimento como no caso basco, NÓS-UP mantivo a sua própria iniciativa eleitoral, desde o mesmo momento em que decidimos apresentar-nos e recolher as assinaturas necessárias no seio do nosso povo. Tínhamos o convencimento de que a necessidade objectiva de umha lista como a nossa acharia a resposta que merecia, e que conseguiríamos que mais de 15.000 galegos e galegas nos apoiassem. Igual que nós, muitos milhares de compatriotas achárom que era importante para a Galiza contar com umha lista como a nossa. Quanto à solidariedade com Euskal Herria, recebemos muitos parabéns da Galiza e do próprio País Basco, e apesar das acusaçons que o sistema e os seus media poda promover contra nós, as pessas que nos conhecem sabem que para nós a solidariedade só pode ser exercida entre iguais, a partir do mútuo reconhecimento. Essa é a natureza das relaçons entre a esquerda independentista galega e a esquerda abertzale basca.

Que dirias a quem pense no voto em opçons como a representada por ERC?

É compreensível a reacçom de rechaço que as alianças do BNG tem provocado em sectores da esquerda nacionalista. Porém, a soluçom nunca virá de fora, e menos de umha força semelhante ao próprio BNG, apesar dos seus gestos e discurso aparentemente mais "comprometidos". Além do mais, a coligaçom que encabeça Esquerra Republicana de Catalunya, que aglutina partidos mornamente nacionalistas e mesmo regionalistas, carece de qualquer ligaçom com a realidade galega, mesmo que seja simbólica. Tenhamos em conta dous dados indicativos a este respeito: ERC está nestes dias a reclamar ao Governo espanhol que defenda o reconhecimento preferencial do idioma catalám por parte da UE, baseando-se em que na sua opiniom conta com mais falantes que o galego e o basco. Um outro dado, bem gráfico, é que a propaganda eleitoral de ERC, que inclui bandeiras de naçons sem Estado europeias, exclui eloqüentemente a bandeira galega. Se o voto na aliança entre BNG e CiU-PNB é difícil de assumir polo eleitorado nacionalista e progressista galego, a alternativa de ERC é ainda mais injustificável para quem defender a construçom de forças próprias, centradas no País e com umha prática inequivocamente de esquerdas.

Há quem diga que o BNG é o vosso principal inimigo...

Isso é absurdo, um infúndio interessado difundido por alguns sectores dessa mesma organizaçom para tentarem desacreditar umha alternativa nacional que lhes fica à esquerda. Devemos lembrar a extrema agressividade que o BNG dedica à esquerda independentista nos diversos ámbitos de trabalho social em que temos coincidido. Podemos citar o veto expresso à nossa participaçom na Plataforma Nunca Mais, o contínuo bloqueio a qualquer colaboraçom no seio da CIG ou as iniciativas repressivas e censoras por parte de governos municipais com participaçom do próprio BNG em diversos concelhos.

Pola nossa parte, distinguimos perfeitamente quem som os inimigos declarados do povo trabalhador galego, politicamente representados polo PP e PSOE. Mas isso nom impede que denunciemos também o papel colaboracionista que o BNG está a jogar de maneira crescente. Nom esquecemos, por exemplo, que o actual Governo espanhol conta com os votos do nosso nacionalismo institucionalizado como aval inequívoco; nem que o BNG co-governa com o PSOE em diversas instituiçons, nomeadamente concelhos e deputaçons. Em definitivo, o BNG acomodou-se a um contexto de submetimento nacional como o que padece o nosso povo. Essa é a realidade, por mais que queiram vesti-la com as roupas da "responsabilidade". As suas aspiraçons nom passam de procurar um acomodo da Galiza em Espanha, quando o que necessitamos é trabalhar pola nossa construçom nacional sem qualquer tutela exterior, nomeadamente a de aqueles interessados na nossa desapariçom como povo. No plano social, a aliança do BNG com as direitas regionalistas basca e catalá poupam-me maiores comentários.

Para nós, o BNG é um adversário empenhado em colaborar com os inimigos do povo trabalhador galego. Na medida em que continue a aprofundar nessa estratégia colaboracionista, terá em frente a aposta soberanista de NÓS-Unidade Popular e do conjunto da esquerda independentista galega. De facto, parte da sua base social tradicional está a ver já a necessidade de apoiar umha alternativa como a que NÓS-UP quer encarnar. Esperamos ir ganhando a confiança desses sectores no caminho de construçom do novo independentismo.

E a partir do dia 14 de Junho, quê?

Os objectivos estám cumpridos. Esperamos, claro, que no dia 13 se concretize todo o trabalho feito num apoio superior ao recebido anteriormente por outras candidaturas anti-sistema no nosso país, mas devemos reconhecer que já se cumpriu o objectivo de irrompermos neste campo de trabalho, quebrando relativamente a indiferença que os partidos e meios do sistema fomentárom. NÓS-UP continuará a trabalhar no seio dos movimentos sociais, tentando atingir umha maior introduçom, convertendo a esquerda independentista numha força a ter em conta, com peso e influência crescentes no seio da sociedade galega, na luita sindical, cultural, em defesa da língua, no feminismo, contra o capital e o espanholismo...

Com a renúncia do BNG ao papel transformador e soberanista que algum dia cumpriu, é vital para a Galiza consolidarmos umha força que avance com o nosso povo em direcçom à autodeterminaçom e o socialismo. Ou atingimos essa meta, ou desapareceremos assimilados pola maré uniformizadora do capitalismo, que no nosso caso se escreve com as letras da palavra Espanha.

Esses som os nossos objectivos estratégicos e nom os ocultamos. É em nome desses princípios que pedimos o voto para NÓS-Unidade Popular o próximo domingo.


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