A palavra de ordem dos Estados Unidos da Europa

V. I. Lenine

Escrito em 1915, publicado pola vez primeira em Sotsial-Demokrat, número 44, 23 de Agosto de 1915 (1).


No número 40 de Sotsial-Demokrat (2), informamos de que a conferência das secçons do nosso partido no estrangeiro resolveu adiar a questom da palavra de ordem dos "Estados Unidos da Europa", até ser discutido na imprensa o aspecto económico do problema (3).

Os debates em torno desta questom tomárom na nossa conferência um carácter político unilateral. Talvez isso se devesse, em parte, ao facto de no manifesto do Comité Central a tal palavra de ordem estar formulada directamente como palavra de ordem política ("a palavra de ordem política imediata...", di-se nele); além do mais, nom só se propunham os Estados Unidos republicanos da Europa, mas sublinhando-se especialmente que "se nom forem derrocadas pola via revolucionária as monarquias alemá, austríaca e russa", esta palavra de ordem torna-se absurda e falsa (4).

É absolutamente erróneo opor-se a semelhante forma de colocar o problema dentro dos limites da apreciaçom política da dita palavra de ordem, por exemplo, do ponto de vista de que eclipsa ou debilita, etc., a palavra de ordem da revoluçom socialista. As transformaçons políticas, nom podem nunca, em nengum caso, e sejam quais forem as circunstáncias, eclipsar nem debilitar a palavra de ordem da revoluçom socialista. Polo contrário, sempre contribuem para aproximar esta revoluçom, alargam a sua base e incorporam à luita socialista novas camadas da pequena burguesia e das massas semiproletárias. De outra parte, as revoluçons políticas som inevitáveis no processo da revoluçom socialista, que nom deve considerar-se como um acto único, mas como umha época de violentas comoçons políticas e económicas, de luita de classes mais acirradas, de guerra civil, de revoluçons e contra-revoluçons.

Mas se a palavra de ordem dos Estados Unidos republicanos da Europa, que se liga ao derrocamento revolucionário das três monarquias mais reaccionárias da Europa, encabeçadas pola russa, é absolutamente invulnerável como palavra de ordem política, fica ainda a importantíssima questom do conteúdo e a significaçom económicos desta palavra de ordem. Do ponto de vista das condiçons económicas do imperialismo, quer dizer, da exploraçom de capitais e do reparto do mundo polas potências coloniais "avançadas" e "civilizadas", os Estados Unidos da Europa sob o capitalismo som impossíveis ou som reaccionários.

O capital tem-se feito internacional e monopolista. O mundo está já repartido entre um punhado de grandes potências, quer dizer, de potências que prosperam no grande saque e opressom das naçons. Quatro grandes potências da Europa -Inglaterra, França, Rússia e Alemanha-, com umha populaçom de 250 a 300 milhons de habitantes e com um território de uns 7 milhons de quilómetros quadrados, tenhem colónias com umha populaçom de quase quinhentos milhons de habitantes (494,5 milhons) e com um território de 64,6 milhons de quilómetros quadrados, quer dizer, quase metade do globo (133 milhons de quilómetros quadrados sem contar a zona polar). A isso há que acrescentar três estados asiáticos -China, Turquia e Pérsia-, que na actualidade estám a ser despedaçados polos saqueadores que fam umha guerra de "libertaçom", a saber, por exemplo, polo Japom, a Rússia, Inglaterra e a França. Estes três Estados asiáticos, que podem denominar-se semicolónias (na realidade, agora som colónias nas suas nove décimas partes), contam com umha populaçom de 360 milhons de habitantes e umha superfície de 14,5 milhons de quilómetros quadrados (quer dizer, quase 50% mais do que a superfície total da Europa).

Além do mais, Inglaterra, a França e Alemanha investírom nom estrangeiro um capital de nom menos de 70 mil milhons de rublos. Para obter umha rendazinha "legítima" desta agradável quantidade -umha rendazinha de mais de três mil milhons de rublos anuais-, servem os comités nacionais de milionários, chamados governos, provistos de exércitos e de marinhas de guerra, que "colocam" nas colónias e semicolónias os filhinhos e irmaozinhos do "senhor Bilhom" em qualidade de virreis, de cônsules, de embaixadores, de funcionários de todo o género, de padres e demais sanguessugas.

Assim está organizado, na época do mais alto desenvolvimento do capitalismo, o saque de cerca de mil milhons de habitantes da Terra por um punhado de grandes potências. E sob o capitalismo, toda outra organizaçom é impossível. Renunciar às colónias, às "esferas de influência", à exportaçom de capitais? Pensar nisso significa reduzir-se ao nível dum padrezinho que prega aos domingos aos ricos a grandeza do cristianismo e lhes aconselha dar esmola aos pobres..., bom, se nom uns quantos milhares de milhons, uns quantos centos de rublos por ano. Os Estados Unidos da Europa, sob o capitalismo, equivalem a um acordo sobre o reparto das colónias. Mas sob o capitalismo nom pode haver outra base nem outro princípio de reparto que a força. O multimilionário nom poder repartir com alguém a "renda nacional" dum país capitalista senom em proporçom "ao capital" (acrescentando, aliás, que o capital mais considerável terá de receber mais do que lhe corresponde). O capitalismo é a propriedade privada dos meios de produçom e a anarquia da produçom. Predicar umha distribuiçom "justa" da renda sobre semelhante base é proudhonismo, necidade de pequeno burguês e filisteu. Nom pode haver mais reparto que em proporçom "à força". E a força muda no decurso do desenvolvimento económico. Depois de 1871, Alemanha fortaleceu-se três ou quatro vezes mais rapidamente do que Inglaterra e França. O Japom, umhas dez vezes mais rapidamente do que a Rússia. Nom há nem pode haver outro meio que a guerra para comprovar a verdadeira potência dum Estado capitalista. A guerra nom está em contradiçom com os fundamentos da propriedade privada, mas é o desenvolvimento directo e inevitável de tais fundamentos. Sob o capitalismo é impossível o crescimento económico parelho de cada empresa e de cada Estado. Sob o capitalismo, para restabelecer de quando em quando o equilíbrio roto, nom há outro meio possível mais que as crises na indústria e as guerras na política.

É evidente que som possíveis acordos temporários entre os capitalistas e entre as potências. Neste sentido, som também possíveis os Estados Unidos da Europa, como um acordo dos capitalistas europeus... sobre quê? Só sobre o modo de esmagar em comum o socialismo na Europa, de defender juntos as colónias roubadas contra o Japom e Norte-América, cujos intereses estám muito lesionados polo actual reparto das colónias, e que durante os últimos cinqüenta anos se fortalecêrom dum modo incomensuravelmente mais rápido do que a Europa atrasada, monárquica, que começou a apodrecer de velha. Em comparaçom com os Estados Unidos da América, a Europa, em conjunto, representa um estagnamento económico. Sobre a actual base económica, quer dizer, com o capitalismo, os Estados Unidos da Europa significariam a organizaçom da reacçom para deter o desenvolvimento mais rápido de Norte-América. Os tempos em que a causa da democracia e do socialismo estava ligada só a Europa, passárom para nom voltar.

Os Estados Unidos do mundo (e nom da Europa) constituem a forma estatal de unificaçom e liberdade das naçons, forma que nós relacionamos com o socialismo, enquanto a vitória completa do comunismo nom conduzir à desapariçom definitiva de todo Estado, incluído o Estado democrático. Porém, como palavra de ordem independente, a dos Estados Unidos do mundo duvidosamente seria justa; em primeiro lugar, porque se funde com o socialismo, e, em segundo lugar, porque poderia dar pé a interpretaçons erróneas sobre a impossibilidade da vitória do socialismo num só país e sobre as relaçons deste país com os outros.

A desigualdade do desenvolvimento económico e político é umha lei absoluta do capitalismo. De aqui deduz-se que é possível que o socialismo triunfe primeiramente nuns quantos países capitalistas, ou inclusive num só país em forma ailhada.

O proletariado triunfante deste país, depois de expropriar aos capitalista e de organizar dentro dele a produçom socialista, alçaria-se contra o resto do mundo capitalista, atraindo as classes oprimidas dos demais países, levantando neles a insurreiçom contra os capitalistas, empregando, em caso necessário, inclusive a força das armas contra as classes exploradoras e os seus estados. A forma política da sociedade em que triunfe o proletariado derrocando a burguesia, será a república democrática, que centralizará cada vez mais as forças do proletariado da dita naçom ou das ditas naçons na luita contra os Estados que ainda nom passassem ao socialismo. É impossível suprimir as classes sem umha ditadura da classe oprimida, do proletariado. A livre uniom das naçons no socialismo é impossível sem umha luita tenaz, mais ou menos prolongada, das repúblicas socialistas contra os Estados atrasados.

Estas som as consideraçons que, após repetidas discussons do problema na conferência das secçons do POSDR no estrangeiro de depois dela, levárom a Redacçom do Órgao Central à conclusom de que a palavra de ordem dos Estados Unidos da Europa é errónea.

NOTAS

1. No artigo "A palavra de orde dos Estados Unidos da Europa", explicava-se a teoria sobre a possibilidade da vitória do socialismo primeiramente nuns poucos países capitalistas e inclusive num só país, em forma isolada. Este artigo foi escrito em Agosto de 1915, e apareceu publicado a 23 do mesmo mês em qualidade de editorial do periódico Sotsial-Demokrat, número 44.

2. Sotsial-Demokrat: jornal clandestino, Órgao Central do POSDR, que se publicou de Fevereiro de 1908 a Janeiro de 1917, e do qual aparecêrom 58 números. O primeiro número foi impresso na Rússia, mais tarde a sua publicaçom trasladou-se ao estrangeiro, primeiramente a París e depois a Genebra. Conforme com a decisom do CC do POSDR, a redacçom foi composta por representantes bolcheviques, mencheviques e social-democratas polacos.

No Sotsial-Demokrat aparecêrom mais de 80 artigos e soltos de Lenine, assim como muitos artigos de J. V. Staline. No seio da redacçom, Lenine levou avante umha luita pola conseqüente linha do bolchevismo. Umha parte dos redactores (Kámenev e Zinovie) adoptou a atitude conciliadora a respeito dos liquidacionistas e tentou frustrar a aplicaçom da linha leninista. Mártov e Dan, membros mencheviques da Redacçom do Órgao Central, sabotavam o trabalho desta e, ao mesmo tempo, defendiam abertamente o liquidacionismo no periódico Golos Sotsial-Demokrata do seu grupo fraccional.

A implacável luita de Lenine contra os liquidacionistas motivou, em Junho de 1911, o retiro de Mártov e Dan, do Sotsial-Demokrat. Desde Dezembro de 1911, o Sotsial-Demokrat foi redigido por Lenine.

3. Veja-se V. I. Lenine "A Conferência das secçons do POSDR no estrangeiro", Obras Completas, t. XXI.

4. Veja-se V. I. Lenine "A guerra e a social-democracia da Rússia", Obras Completas, t. XXI.


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