Quanto agüenta o menáge à trois do BNG

Carlos Morais

O nacionalismo galego atravessa umha situaçom de profunda crise provocada pola incapacidade de superar o ciclo de declínio eleitoral iniciado em Outubro de 2001, quando nem consegue deslocar o PP da Junta, nem consolida o sorpasso atingido em 1997 sobre o PSOE.

Até ao momento todas as respostas e soluçons com que o conjunto do BNG tenta superar a delicada situaçom tenhem sido infrutuosas e incorrectas porque conscientemente evitam incidir sobre a genuína raíz do problema, as verdadeiras causas da perda de apoio popular. O debacle nas eleiçons europeias de 13 de Junho, -ficando sem duas terceiras partes dos apoios atingidos cinco anos antes e o eurodeputado-, e os maus resultados do 14M constatam que a hemorragia eleitoral, a perda de referencialidade e vigor social, adoptárom carácter estrutural.

O BNG deixou de ser o projecto unitário da esquerda nacionalista alicerçado sobre a reivindicaçom do direito de autodeterminaçom e com um programa de esquerda, tal como se conformou em 1982, para converter-se numha força autonomista com umha acçom política de centro-esquerda, cada vez mais centrista e menos social-democrata.

A medida que a sua praxe abandonou a intervençom social para centrar a prática totalidade das preocupaçons e recursos no trabalho institucional-eleitoral, -semelhante ou idêntico em muitos casos ao PSOE tal como se constatou nas experiências eleitorais dos governos das grandes cidades-, parte dos sectores mais conscientes da classe operária e da juventude fôrom perdendo a ilusom e a confiança depositada na década de noventa. Se o primeiro aviso sério da paulatina queda de referencialidade tivo lugar nas autonómicas de 2001, e em plena ofensiva do fascismo espanhol a resposta foi pactuar com Fraga na famosa ceia do 5 de Dezembro um acordo institucional que significou a plena normalizaçom política da Galiza e a legitimaçom democrática do ex-ministro franquista, nom nos pode surpreender o actual estado que adopta a crise. Aquela mudança de fundo que ninguém no seu interior abertamente questionou e que foi legitimada na X e na XI Assembleia Nacional, volta novamente, agora de forma mais beligerante, a absorver o "debate" do autonomismo.

Até o momento a resposta para corrigir a crise eleitoral e social tem-se centrado na "renovaçom" de dirigentes, a substituiçom mais traumática que pactuada de Beiras por Quintana como cabeça visível, no que é umha habitual prática dos partidos burgueses que só aspiram à alternáncia política dentro das regras do regime vigorante: mudar líderes mantendo idênticas políticas. Mas o problema do autonomismo nom é Beiras, nem Quintana, nem Paco Rodríguez, por destacar os três referentes do menáge à trois sobre o que na actualidade se desenvolve o falso debate interno. Falso porque nom existem substanciais divergências políticas, nem ideológicas, tam só um confronto aberto entre a diversas correntes, grupos de pressom e individualidades, pola hegemonia e controlo da organizaçom. A UPG tutelou a evoluçom do BNG de postulados soberanistas ao dócil e inofensivo autonomismo defensor dessa falácia denominada estado plurinacional. Beiras foi quem pilotou esta viagem sem prever que polo caminho os armadores pudessem decidir mudar de capitám. O acomplexado galeguista Anxo Quintana exprime as desmedidas ambiçons e a absoluta carência de escrúpulos, como de valores transformadores, dos quadros intermédios do autonomismo, que apenas aspiram a governar a Junta de Galiza sem mais objectivos que o poder polo poder. É a peça provisória que a UPG necessita para ganhar tempo e poder apresentar a sua alternativa.

O BNG leva anos procurando desesperadamente a legitimidade do regime posfranquista. Para lograr a sua homologaçom como força respeitável que nem questiona, nem fai perigar os eixos medulares do quadro jurídico-político do capitalismo espanhol, tivo que abandonar o objectivo básico de qualquer organizaçom coerentemente nacionalista: a defesa da soberania da Galiza e a denúncia da opressom nacional que padece por Espanha.

A sua explícita renúncia a reivindicar o direito de autodeterminaçom tem sido gradual. Neste errático tacticismo inicialmente defendeu que era inecessário modificar o Estatuto, apenas solicitar a plena transferência de todas as competências; depois passou a promover o difuso "patriotismo constitucional galego" que na sua leitura minimalista coincidia com a Administraçom Única de Fraga: reforma da Constituiçom para converter o Senado em cámara territorial, modificaçom do sistema de designaçom do Tribunal Constitucional, e presença das Comunidades Autónomas na Comisom Europeia; para agora propor umha reforma do Estatuto com o objectivo de nom perder a consideraçom de "nacionalidade histórica" e nom ficar por trás do País Basco e Catalunha à hora de incrementar o autogoverno, mas que na prática nom significa mais que a defesa de um novo pacto com o Estado.

A "solene proposta" de pactuar com o PP e o PSOE um novo Estatuto de Autonomia significa que o BNG descarta qualquer objectivo soberanista, conformando-se por atingir de Zapatetro mais competências que se bem pode beneficiar os interesses das elites políticas e económicas da Comunidade Autónoma Galega, apenas som umha nova burla que vai perpetuar a opressom da Galiza e reforçar a unidade do estado que desesperadamente necessita a oligarquia para manter a sua taxa de ganho e nom perder influência na nova UE dos 25 estados.

Os problemas sociais, económicos, culturais, que sofre o nosso país nom tenhem soluçom em nengum quadro de dependência nacional. Sem podermos exercer a autodeterminaçom, se a classe trabalhadora galega nom tem capacidade para poder decidir o seu destino, nom é possível implementar políticas de esquerda ao serviço da maioria social. A autodeterminaçom nacional é a ferramenta imprescindível para a mudança social na Galiza. A independência nacional, dotar a Galiza de um Estado próprio, é a única saída válida que permitirá construir a naçom galega de parámetros socialistas, evitando assim a destruiçom que de maneira planificada vem aplicando o capitalismo espanhol de há cinco séculos.

O resto -defesa de um estado plurinacional, modificaçom da Constituiçom-, som falsas soluçons, brindes ao sol, que apenas procuram negociar umha cómoda integraçom no projecto nacional espanhol evitando denunciar o que é umha evidência: a involuçom centralizadora que aplicou o PP e que agora o PSOE apenas congelou momentaneamente.

O processo que vimos de expor de maneira sintética tem significado a derrota estratégica da esquerda nacionalista e explica as causas que provocárom a sua actual crise.

Nom é factível a curto prazo que os sectores soberanistas e de esquerda, que de maneira supersticiosa ainda seguem acreditando numha regeneraçom interna do BNG e na mudança de linha, optem por umha cissom. Na actualidade o desconcerto de parte da filiaçom e dos sectores mais politizados da base social tem-se traduzido em protestos individuais e internos, em baixas de militáncia, em dissidências eleitorais, ficando na casa o Dia da Pátria. Salvo contadas excepçons ninguém denúncia publicamente a capitulaçom do autonomismo. Dependerá dos resultados eleitorais das vindouras autonómicas que Fraga pode adiantar para a primavera de 2005, mas também virá derivado da posiçom final que adopte o BNG perante o referendo da Constituiçom Europeia, na capacidade da esquerda independentista à hora de consolidar e aprofundar na via de unidade de acçom aberta este 25 de Julho, assim como no sucesso para aglutinar em espaços suprapartidários e plurais, blindados à quotidianidade política, a todas aquelas pessoas que independentemente da nossa militáncia consideramos imprescindível e urgente que a autodeterminaçom seja o eixo central da política de esquerdas deste país.

Hoje, como há vinte anos, só há umha alternativa. Nem Autonomia, nem Constituiçom: autodeterminaçom.

Galiza, 4 de Agosto de 2004

Carlos Morais é secretário geral de Primeira Linha e membro da Permanente Nacional de NÓS-Unidade Popular

Voltar à página principal