Por detrás do político, o homem de negócios: a face oculta de Donald Rumsfeld

Christophe Grauwin

16 de Junho de 2004


É conhecido o secretário para a Defesa, aquele que hoje tem de prestar contas polas torturas no Iraque. Mas para compreender o personagem - e as actuais derivas do Pentágono -, é preciso mergulhar nos arquivos da Bolsa norte-americana. É aí que se descobre umha espantosa carreira de homem de negócios, feita de ligaçons perigosas entre o público e o privado.

Desta vez, Donald Rumsfeld perdeu o seu sorrisinho. Ouvido a 7 de Maio polo Senado norte-americano, o secretário para a Defesa da administraçom Bush tivo de reconhecer a sua "responsabilidade" nas humilhaçons e torturas infligidas aos detidos na prisom de Abou Ghraib. Mas o chefe dos falcons que reina no Pentágono nom se demitiu. Nom hesitando em desculpar-se com o seu estado-maior, o inflexível "Rummie" escudou-se nas suas convicçons. Nom é para admirar, já que este diplomado por Princeton, que ciranda por Washington há 40 anos, é um dos pilares do campo ultraconservador. Ele é a encarnaçom, até à caricatura, desta doutrina: moralismo belicoso em política e ultraliberalismo na economia. Com os seus derivativos: a começar pola confusom entre a gestom dos assuntos do Estado e o negócio privado.

Desde os seus começos na esteira do presidente Nixon, no fim dos anos de 1960, Rumsfeld prossegue umha dupla carreira: o homem político esconde um homem de negócios. É o segredo de "Don" que os meios de comunicaçom americanos, ocupados em incensar o cabo-de-guerra que tomou o comando após os atentados de 11 de Setembro, evocam apenas por meias palavras. Um estranho tabu, visto que um exame minucioso à declaraçom de património entregue polo secretário para a Defesa aquando da sua tomada de posse em 2000 (um calhamaço de 50 páginas!) permite constatar que este multimilionário é pura e simplesmente o chefe de fila de umha rede que navega, há 40 anos, entre os conselhos de administraçom da "corporate America" e os gabinetes governamentais. Os arquivos da SEC (o polícia da Bolsa americana) e o estudo dos documentos desclassificados da administraçom mostram, igualmente, que Rumsfeld e os seus som peritos no manejo das "revolving doors", essas portas giratórias que permitem efectuar frutuosas idas e voltas entre o privado e o público.

Ao obter modificaçons às leis ou influenciando nas decisons da administraçom em nome de métodos e comportamentos próprios do mundo dos negócios, Rumsfeld e os republicanos de extrema direita o que fam muitas vezes é satisfazer o seu apetite financeiro. Da limpeza das fardas à formaçom dos polícias iraquianos, da alimentaçom dos GI à recolha de informaçons, raras som as funçons militares, com excepçom da guerra propriamente dita, que nom fôrom entregues a empresas subcontratadas. E raras som também as empresas que nom contam no seu conselho de administraçom com algumas eminentes figuras ultraconservadoras. O último exemplo conhecido: segundo um inquérito interno conduzido polo exército norte-americano, o Pentágono chegou ao ponto de contratar umha empresa privada - Caci International - para os interrogatórios dos presos de Abou Ghraib. Entre os administradores da Caci encontra-se o general Larry Welch, antigo comandante da US Air Force e velho conhecido de Donald Rumsfeld. Em Março de 2003, tinha-o designado para fazer a avaliaçom de um plano de armamento futurista, dotado de um orçamento de 15 bilions de dólares e de que a Caci International é hoje um dos principais beneficiários. O facto de o general Welch, auditor "independente" de um programa governamental, ser também o administrador de umha companhia que lucra com este programa nom parece chocar o Sr. Rumsfeld. O que sabemos menos é que estas ligaçons perigosas pontuárom toda a sua carreira.

1962-1977: OS COMEÇOS DE UM "NIXON BOY"

Donald Rumsfeld, conhecido por "Rummie", nascido em Chicago em 1932 e diplomado pola prestigiosa universidade de Princeton, começa em 1960 como consultor do banco de investimentos AG Becker. Dotado e ambicioso, lança-se na política em 1962 quando se apresenta às eleiçons legislativas polo 13º distrito de Illinois, um bairro abastado dos arredores de Chicago. A sua equipa de campanha é umha espécie de Who's Who da economia local. Encontramos aí, nomeadamente, Edgar Jannotta, um dos associados do banco de negócios William Blair, que acompanhará "Rummie" em todas as suas incursons empresariais; Dan Searle, herdeiro da firma farmacêutica Searle ou, ainda, Jeb Stuart Magruder, antigo comerciante de pasta de papel e que será, mais tarde, um dos especialistas em relaçons públicas de Richard Nixon e um dos principais acusados no caso Watergate.

Donald Rumsfeld ganha as eleiçons, torna-se deputado aos 29 anos e continua a sua ascensom política. Richard Nixon, vindo como ele da média burguesia ligada aos negócios, nomeiao-o em 1969 chefe do OEO (Office of Economic Opportunity), umha agência de luita contra a pobreza, legada polo anterior governo democrata. O seu papel aqui, a acreditar no testemunho de um antigo dirigente do OEO, teria sido o de expurgar a agência federal (encerrada por Nixon em 1973) dos "esquerdistas" ou vistos como tal. Seja como for, ele passa, nesse momento, a ser a armaçom de umha rede que nom deixará de se estender.

Os dous adjuntos de Rumsfeld no OEO tenhem como nome Dick Cheney, o actual vice-presidente dos Estados Unidos, e Frank Carlucci, hoje o patrom do grupo financeiro Carlyle, um dos principais beneficiários do aumento actual dos créditos militares. Em 1970, Donald Rumsfeld deixa a agência anti-pobreza para se tornar conselheiro especial do presidente Nixon e, em seguida, depois do Watergate, secretário para a Defesa do governo de Gerald Ford. A vitória de Jimmy Carter nas eleiçons presidenciais de 1976 leva-o de volta à vida dos negócios.

1977-1985: UMHA FORTUNA COM O FALSO AÇÚCAR

Em Junho de 1977, os padrinhos da sua primeira campanha eleitoral, Dan Searle e Edgar Jannotta, oferecem a Donald Rumsfeld a presidência do grupo Searle. O fabricante farmacêutico encontra-se, nessa altura, em maus lençóis. Há dez anos que a Food and Drug Administration (FDA), que regulamenta o mercado dos alimentos e dos medicamentos, recusa aprovar umha molécula, o aspartame (também se diz 'aspártamo'), que a Searle quer vender como substituto do açúcar. A FDA chega a pedir a abertura de um processo penal depois de ter descoberto numerosos erros nos testes de toxicidade apresentados pola Searle.

Mas a chegada de Rummie coincide com umha série de acasos felizes para a companhia. Primeiro, Samuel Skinner, o procurador encarregado de dar andamento ao inquérito penal, demite-se das suas funçons e entra, em Julho de 1977, para o gabinete de advogados da Searle. O inquérito é abandonado. Depois, em 1981, Ronald Reagan, recentemente eleito presidente dos Estados Unidos, pom à frente da FDA um quase desconhecido, Arthur Hull Hayes, antigo investigador junto do Pentágono. Donald Rumsfeld negou sempre ter interferido nesta nomeaçom. Um elemento relatado pola agência United Press International poderia levar a pensar o contrário. Segundo umha promotora comercial da Searle, Donald Rumsfeld teria declarado à direcçom de vendas, em Janeiro de 1981, que se valeria das suas relaçons e trataria de fazer aprovar o aspartame antes do fim do ano...

Que tenha sido ou nom formulada, a promessa, em todo o caso, foi cumprida. Em Julho de 1981, Arthur Hull Hayes autoriza a entrada no mercado do aspartame, passando por cima da comissom científica mandatada pola FDA, que considerara que o produto nom deveria ser comercializado, dados os casos de tumor cerebral aparecidos em ratos, no decurso dos testes levados a cabo pola Searle. Mas isso pouco importa e, em Julho de 1983, Arthur Hull Hayes alarga a autorizaçom às bebidas e às sodas... depois demite-se e consegue entrar para o gabinete de relaçons públicas da Searle!

As vendas do aspartame, gabado polas suas virtudes anticalóricas, disparam. Em 1985, a Monsanto compra a Searle por 2,7 mil milhons de dólares. O papel de intermediário pertenceu ao banco de negócios William Blair, que Edgar Jannotta dirige desde entom. Donald Rumsfeld, por seu lado, mete ao bolso umha mais-valia de cerca de 5 milhons de dólares e vai para o William Blair com o posto de conselheiro.

Em vinte anos, a FDA registou muitos milhares de queixas que atribuem ao aspartame diversos problemas de saúde (enxaquecas, falhas de memória, perturbaçons da visom...). E, na Califórnia, três processos acabam de ser accionados por associaçons de consumidores contra vários gigantes agroalimentares. Por sua parte, a comunidade científica está dividida, com um campo a advogar a sua inocuidade e um outro a considerá-lo na categoria dos neurotóxicos.

O futuro dirá se as suspeitas relativamente ao aspartame som fundadas. De qualquer modo, isto nom impediu os seus promotores iniciais de continuar a desenvolver os seus negócios: Samuel Skinner, o procurador federal que, oportunamente, tinha entrado para o gabinete de advogados da Searle, tornou-se o director de gabinete de George Bush sénior. E é hoje, entre outras cousas, administrador da Express Scripts, umha sociedade de aconselhamento farmacêutico que obtivo recentemente do governo Bush (júnior) acesso a um lucrativo mercado de corretagem de medicamentos. Arthur Hull Hayes, esse, passou a figurar entre os 100 maiores milionários da biotecnologia. É administrador de várias sociedades farmacêuticas, destacando-se todas elas por umha política agressiva de privatizaçom do património humano: a Myriad Genetics fez escándalo ao registar a patente de dous genes humanos e a Napo Biotherapeutics (onde se encontra também Richard Perle, um conselheiro próximo de Donald Rumsfeld) obtivo da FDA o direito de vender umha molécula elaborada em laboratórios estatais.

1983: CAIXEIRO-VIAJANTE EM BAGDAD

Ainda como administrador da Searle, Donald Rumsfeld efectua umha "missom" diplomática por conta de George Shultz, secretário de Estado do governo de Ronald Reagan. Em Dezembro de 1983, ele é o enviado especial dos Estados Unidos a Bagdad, onde se encontra com Sadam Hussein. Interrogado pola CNN, em Setembro de 2002, sobre a razom desta visita, Rumsfeld respondeu que se tratava, entre outras cousas, de desaconselhar a utilizaçom de armas químicas na guerra contra o Irám. No entanto, o relatório oficial do seu encontro com o ditador nom fai nengumha mençom a tal advertência. Trata-se antes de um projecto de oleoduto que Donald Rumsfeld defende junto do ditador. Este oleoduto é, na época, um projecto da companhia Bechtel, o gigante americano das obras públicas, de que George Shultz, o secretário de Estado a quem Rumsfeld deve a sua viagem a Bagdad, era o administrador até à sua entrada para a administraçom Reagan. Tornar-se-á, aliás, em 1989, um dos seus principais dirigentes. Daí a pensar que Donald Rumsfeld tenha representado os interesses da Bechtel junto de Sadam Hussein nom vai senom um passo. Seja como for, na altura, ele nom via este cliente de farda como um terrorista. A sua cumplicidade com George Shultz, depois de se ter consolidado em diversos negócios, mantém-se ainda hoje. Depois de se ter tornado secretário para a defesa, em 2001, Donald Rumsfeld fijo-o entrar para a comissom de conselheiros do Pentágono (Defense Policy Board) embora as regras excluam a participaçom de pessoas que apresentam um possível conflito de interesses. Ora, aos 84 anos, George Shultz continua a ser administrador da Bechtel, um dos principais beneficiários das ajudas para a reconstruçom do Iraque. Sem passar polo processo habitual de lançamento a concurso, esta empresa obtivo 1,8 bilions de dólares de contratos, o equivalente a 15% do seu volume de negócios em 2002.

1990-1993: OS DÓLARES DA ERA DIGITAL

Em Janeiro de 1989, George Bush, pai, entra na Casa Branca. Mas abstivo-se de chamar Rumsfeld, que se posicionou sempre como seu rival. Nom importa... Donald vai continuar a sua vida de homem de negócios. Em Outubro de 1990, passa a ser administrador geral da General Instrument, fabricante de cabos de telecomunicaçons. Esta nomeaçom deve-a ele a Theodore J. Forstmann, um financeiro nova-iorquino, fiel patrocinador das campanhas eleitorais da família Bush, que acabara de comprar a empresa. A General Instrument (GI) atravessa entom momentos difíceis. A empresa investiu largamente nas tecnologias de televisom digital. Ora a FCC (Federal Communication Commission), a autoridade americana para a regulaçom das telecomunicaçons, nom considerou, num concurso que visava definir o padrom da televisom do futuro, senom candidatos que tivessem desenvolvido o formato analógico. O mesmo é dizer que a GI se encontrava em risco de ser excluída do mercado em benefício dos seus concorrentes, nomeadamente os grupos japoneses. Que vem fazer nesta embrulhada um Donald Rumsfeld sem nengumha experiência na alta tecnologia? O seguimento da história esclarece o seu papel.

Um mês depois da chegada de "Don" à direcçom da GI, as três companhias norte-americanas em competiçom perante a FCC convertem-se subitamente à tecnologia digital, o que permite à GI, mediante umha aliança com um dos candidatos, voltar a participar no jogo. Depois, a comissom de selecçom da FCC, para o seio da qual Donald Rumsfeld é nomeado, a despeito de um evidente conflito de interesses, elimina o consórcio japonês, com a alegaçom de que o analógico é menos eficiente que o digital. Esta mesma comissom recomendará seguidamente aos restantes candidatos que formem umha "grande aliança" com vista a desenvolver um padrom digital comum. A General Instrument encontra-se entom em posiçom de força. Em 1993, Ted Forstmann introduz a firma na Bolsa, encaixando cinco vezes mais a sua entrada inicial, e Donald Rumsfeld retira-se com umha mais-valia estimada em 7 milhons de dólares. Em Março de 2000, numha entrevista, um antigo alto dirigente da GI, Frank Drendel, lança umha luz crua sobre estas manobras: "A General Instrument era a única a propor o sistema digital, mas nós tínhamos connosco Don Rumsfeld que gozava de relaçons em Washington, na administraçom".

Dez anos mais tarde, este sistema é um fiasco. A revista Business Week classificou mesmo como "o mais grosseiro erro político da comunicaçom do século XX". Um erro que Donald Rumsfeld atribui à FCC... Em Junho de 2001, durante umha conferência de imprensa, onde ele alardeava a sua carreira de empresário, explicava: "Eu estava ma General Instrument quando a firma desenvolveu a primeira televisom digital de alta definiçom. A FCC chegou, apoderou-se do assunto e bloqueou-o". Trata-se aqui de umha deturpaçom muito característica do discurso ultraconservador: o que é, como todo leva a crer, um desvio de procedimento para fins privados passa a ser umha tirania burocrática que abafa a liberdade de iniciativa. Como pormenor curioso, assinalemos que a comissom da FCC a que a GI deve a sua salvaçom era presidida, no momento, por Richard E. Wiley, um advogado de negócios, guindado a político, como Rumsfeld, por Richard Nixon e que se encontra hoje à frente de um dos principais gabinetes de advogados especializados, entre outras coisas, no aconselhamento às empresas que respondam às ofertas do Pentágono. Um verdadeiro maná, com a política de compra e de subcontrataçom dirigida por Donald Rumsfeld.

1993-1999: A BORDO DO GULFSTREAM

Em Março de 1990, Ted Forstmann tinha comprado umha outra empresa em dificuldades, a Gulfstream, fabricante de avions a jacto comerciais. Cedo fijo subir a bordo da Gulfstream algumas proeminentes figuras do partido republicano: George Shultz em 1991, Donald Rumsfeld em 1993, Colin Powell em 1996 (adversário político dos ultraconservadores, este nom hesita na altura a juntar-se às suas caçadas financeiras) e, finalmente, em 1997, Henry Kissinger, pilar dos governos de Nixon e de Ford, entram no conselho de administraçom. pola sua participaçom em algumhas reunions por ano, recebem vários milhares de acçons. E, em Junho de 1999, quando Ted Forstmann revende a Gulfstream à General Dynamics, o fabricante de armas, eles encaixam umha mais-valia de cerca de 3 milhons de dólares cada um. O advogado de negócios encarregado dos interesses da General Dynamics, no momento da transacçom, William J. Haynes, é hoje um colaborador de Donald Rumsfeld. E nom dos menores: enquanto chefe do departamento jurídico do Pentágono, foi ele que organizou o vazio legislativo, propício a todas as derrapagens em que se encontram as prisons militares de Guantanamo (Cuba), de Bagram (Afeganistám) ou Abou Ghraib (Iraque). Frente a umha comissom do Senado, William J. Haynes, em Dezembro de 2001, reconhecia a sua inexperiência em matéria de direito penal. Mas em Outubro de 2002, perante um congresso de magistrados de ultradireita, ele assumia, em nome do seu chefe, a criaçom de zonas francas prisionais: "O meu patrom, Donald Rumsfeld, tem umha perspectiva semelhante e umha determinaçom igual em nom deixar que os dogmas de hoje se atravessem no caminho de importantes objectivos da segurança nacional". Também aqui, trata-se de umha deturpaçom típica dos discursos ultraconservadores: a Constituiçom americana e a Convençom de Genebra tornaram-se dogmas, fetichismos burocráticos, entraves mesquinhos à acçom do homem responsável e realmente livre.

1998-2001: AS CONSEQÜÊNCIAS DA LUITA ANTITERRORISTA

Em Janeiro de 1997, Donald Rumsfeld torna-se o administrador geral da Gilead, umha sociedade criada dez anos antes na perspectiva de produzir medicamentos contra doenças infecciosas. O nome de Gilead nom é talvez inocente. Num livro de sucesso, publicado em 1985, os Estados Unidos viam-se apelidados com o nome de Gilead, depois de umha ditadura militar, apoiada por umha populaçom disposta a trocar os seus direitos pola segurança, ter tomado o poder. Mas voltemos à empresa. Rumsfeld conhece-a bem. Desde Julho de 1988, ele está instalado no seu conselho de administraçom, onde figuram vários dos seus habituais associados (George Shultz entrou em 1996). Nesta época, a Gilead procura saída para o cidofovir, umha molécula antiviral cujos primeiros testes nom foram propriamente encorajadores: cancros e graves lesons renais apareceram nos ratos após a ingestom de algumas doses. O certo é que, em Junho de 1996, a FDA, mesmo assim, deu a sua aprovaçom ao cidofovir, mas limitou a autorizaçom a um tipo bem preciso da infecçom da retina e acrescentou-lhe um aviso sobre a toxicidade do produto. Nom era cousa para sustentar umha cotaçom na Bolsa, tanto mais que, em Agosto de 1998, a firma tivo de avançar com umha carta aos médicos americanos, explicando-lhes que, dados os numerosos casos de insuficiência renal, alguns dos quais mortais, sobrevindos nos pacientes tratados com cidofovir, era recomendável aplicar estritamente a posologia.

A boa notícia virá de um investigador do Pentágono, John Huggins, proveniente do mesmo estabelecimento que Arthur Hull Hayes, o homem que legalizou o aspartame. Ele declara que o cidofovir é muito eficaz contra o vírus da varíola. A partir de entom, o Pentágono integra a molécula da Gilead nas suas pesquisas sobre o bioterrorismo. Em Março de 2002, quando Donald Rumsfeld passou a secretário para a Defesa, John Huggins e Karl Hostetler, um universitário, anunciam que aperfeiçoárom umha nova versom do cidofovir, mais prática, que poderia ser ministrada à populaçom em caso de ataque terrorista com o vírus da varíola. Karl Hostetler é, aliás, o administrador geral de umha empresa farmacêutica que a Gilead compra em Dezembro de 2002 por 460 milhons de dólares. Ei-lo rico. E eis, também, assegurado o futuro comercial do cidofovir, pois que, doravante, está incluído no plano Bioshield Project, dotado com 6 mil milhons de dólares por Bush em Fevereiro de 2003 e destinado a desenvolver medicamentos e vacinas contra eventuais ataques bioquímicos.

Contodo, um membro da equipa Bush, Donald Henderson, antigo director da Organizaçom Mundial da Saúde (responsável, nos anos de 1970, polo programa de vacinaçom contra a varíola), tinha levantado em Março de 2002, na revista científica Nature , umha questom interessante: porquê este interesse em desenvolver o cidofovir, quando é visivelmente tóxico e nós dispomos, por outro lado, de um método comprovado, que é a vacinaçom? O doutor Henderson deixará bruscamente as suas funçons, dous meses após a publicaçom das suas iconoclastas interrogaçons. Donald Rumsfeld é, entom, o todo-poderoso secretário para a Defesa. No seu gabinete do Pentágono, prepara-se a argumentaçom sobre as pretensas armas de destruiçom maciça na posse de Sadam Hussein, que desembocará na guerra do Iraque. Rumsfeld já tem a sua palavra de ordem. Será shock and awe . Vinte anos antes, era sweet and low para lançar o aspartame.

Falso açúcar, que faz dores de cabeça, um oleoduto para o ditador, umha televisom que nom funciona, um antivariólico que destrói os rins... É a história de toda umha carreira que, a coberto da ideologia, está marcada pola negociata.

 

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