Iraque. Balanço da resistência: Setembro

Cenário de guerra generalizada

Carlos Varea

O balanço deste mês de Setembro de actividade insurgente no Iraque tem de permitir reivindicar que o esforço libertador neste país mártir, além de seguir sendo legítimo, livra-se noutros campos de batalha bem distintos do dos seqüestros e o assassinato ante umha cámara de vídeo de trabalhadores estrangeiros, ou dos atentados sectários ou indiscriminados como os sofridos ontem dia 30 em Bagdad. É nesses outros campos de batalha eludidos mediaticamente que os ocupantes estám a se ser –fôrom já- derrotados. Os dados –nom das imagens geradas por redes opacas associadas ou complementares dos ocupantes e reproduzidas nos meios de comunicaçom- e as próprias análises dos ocupantes assim o confirmam. EEUU e o Reino Unidos, os seus aliados exteriores e colaboriacionistas internos estám a ser batidos num combate legítimo e heróico que tem de ser apoiado firmemente, sem titubeio nengum: resistir é um direito, resistir nom é terrorismo.

Setembro foi o quarto mês mais mortífero para as tropas estado-unidenses desde que a 1 de Maio de 2003 o presidente George Bush deu por concluída formalmente a guerra no Iraque a bordo do USS Lincoln. Neste mês morrêrom em combate 66 militares dos EUA segundo dados oficiais do Pentágono, sete só no dia 13 em três ataques; outros 10 morrêrom em incidentes denominados "nom hostis". Após Abril e Maio, Agosto fora o mês de 2004 com maior número de baixas em combate das tropas estado-unidenses no Iraque, até um total de 55. Setembro superou-no. Desde o 1 de Maio morrêrom em combate no Iraque 720 militares dos EUA. O cômputo total, incluindo mortos por causas diversas nom imputáveis a acçons da resistência, além dos caídos durante a invasom e até o 1 de Maio, superou tambem este mês de Setembro a simbólica cifra do milhar, nom alcançada no Vietname até depois de vários anos de implicaçom estado-unidense no conflito.

Mais de dous soldados mortos por dia

A média de baixas mortais em combate estado-unidense deste mês é de 2,2 militares. A sua distribuiçom geográfica é ampla: vários distritos da capital, Balad, ar-Rutbah, Tikrit, ar-Ramadi, Mosul, ash-Sharqat, Taji, Baqubah, Falluja, Doha, Qayyarah, Jaldija, Hawijah... se bem boa parte dos militares estado-unidenses morêrom em pontos indeterminados, em "operaçons de estabilizaçom", na grande província de al-Anbar, situada a Oeste da capital, que fai fronteira com a Síria e a Jordania, onde está despregada a Primeira Divisom do Corpo de Marines. Nom há, claro está, cifras sobre as baixas iraquianas, mas o número de militares estado-unidenses mortos, apesar da reduçom das suas missons e as medidas de autoprotecçom (o Pentágono afirma que 40% das bombas caseiras explosionadas à passagem de patrulhas e conjuntos de veículos som descobertas e desactivadas), permite imaginar a intensidade dos combates. "Estamos perdendo mais vidas porque singelamente a resistência está-nos disparando mais", afirma palmariamente um analista militar da instituiçom Brookings de Washington (1).

Também em Setembro o Pentágono reconhecia que o número de feridos entre as suas tropas está a aumentar (2). As cifras oficiais assinalam que dos 7400 militares dos EUA feridos em combate desde o início da guerra, 4000 fôrom feridos nos passados cinco meses, tam só em torno de 1100 em Agosto. Mais de metade destes feridos ficam impedidos para regressarem ao serviço.

Este mês morrêrom, além do mais, por acçons da resistência, dous militares británicos, o dia 28, numha emboscada a Sul-Oeste de Bassorá, e três polacos em Hilla (Babilónia), o dia 12. Pactado o fim da segunda revolta promovida polo clérigo as-Sader em Agosto, no centro-sul e sul do país parece estabilizar-se porém umha actividade guerrilheira regular, que começa a lembrar a estendida já ao resto do Iraque, com a excepçom do mais limítrofe Curdistám.

"No go-zones"

A finais de Agosto, diversos meios de comunicaçom estado-unidenses (entre outros , The New York Times do día 28 de Agosto), davam conta de que as forças de ocupaçom estado-unidense perdêrom o controlo de amplas zonas do país, incluídas várias cidades, algumhas delas de até meio milhom de habitantes: Falluja, ar-Ramadi, Samarra, Baqubah, al-Qaim, Tall Afar (estas duas últimas na fronteira com a Síria, a segunda cenário de intensos combates em Setembro), além de distritos da própria capital. Som as denominaas "No go-zones".

Nos primeiros días do mês, o próprio secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, admitia que os insurgentes controlam "territórios significativos" a Oeste e Norte da capital (3), e que o processo eleitoral de Janeiro de 2005 pode ver-se comprometido nestas áreas e em zonas do Sul do país, adiantando a alternativa de celebraçom parcial dos comícios. A estas declaraçons seguírom-se as do Secretário de Estado, Colin Powell, em similares termos: "Certamente, a situaçom [no Iraque] está a piorar", recolhe The Washington Post já ao concluir o mês, na passada quarta-feira, 29.

Assimesmo, em Setembro, houvo 15 acçons de sabotagem contra a indústria petrolífera (contra oleodutos e gasodutos do Norte e Sul do país), e atentados contra responsáveis e pessoal de segurança do sector, segundo o Institute for the Analysis of Global Security. O mês inaugurava-se com um atentado contra o oleoduto Kirkuk-Ceyhan, o dia 2, que paralisava novamente e de maneira total as exportaçons polo Norte, segundo fontes oficiais iraquianas citadas pola agência AFP; o dia 23 morria assassinado em Mosul o vicepresidente da Companhia Petrolífera do Norte. Segundo o primeiro ministro interino Allawi, as perdas devidas às sabotagens no sector atingem os 2 mil milhons de dólares (4). Um diplomata ocidental destinado em Bagdad chegou a indicar que os empregados das instalaçons petrolíferas ou eléctricas poderiam facilitar ou perpetrar as sabotagens (5).

Pessimismo

O editorial do día 10 de Setembro de 2004 do diário Finantial Times levava por significativo título: "O momento de considerar a retirada do Iraque". Após umha demolidora revisom da situaçom no Iraque depois de 18 messes de ocupaçom, o editorial considera que "chegou o momento de considerar se umha retirada estruturada dos EUA e das restantes tropas aliadas, junto dum factível trespasso da segurança a forças iraquianas e um legítimo e completo processo político poda traçar umha rota para sair do actual caos".

Certamente, a actividade insurgente –a estritamente militar- nom diminui, aumenta: Após a formaçom do novo governo interino de Iyad Allawi e a dissoluçom da Autoridade Provisória da Coligaçom, o passado 28 de Junho, o número de ataques contra as tropas de ocupaçom no conjunto do Iraque, duplicou-se, passando-se de entre 40 e 50 para entre 70 e quase 90 (6). Segundo um relatório da empresa de segurança Kroll Security International elaborado para a USAID (a agência estado-unidense para o desenvolvimento) e dado a conhecer pola imprensa dos EUA a finais deste passado mês, os ataques contra as forças estado-unidense e iraquianas estendêrom-se a zonas do país que tinham estado relativamente tranqüilas, incluídas cidade de maioria xiita do Sul, em que os ataques estam a regularizar-se com umha freqüência quase diária (7). Um segundo relatório conhecido este mês, também elaborado por umha empresa de segurança, esta com sede em Londres, Control Risks Group, acrescenta ao pessimista panorama do anterior a asseveraçom de que amplas áreas das duas principais cidades do país, Bagdad e Bassorá, estám já fora do controlo das forças estado-unidenses e británicas, respectivamente (8).

O pessimismo é também o sentimento predominante na avaliaçom das agências nacionais de segurança de EEUU, cujos membros expressam verbalmente em privado ou por escrito em relatórios confidenciais (o último, a 1 de Julho, da Agência Nacional de Segurança) avaliaçons sobre a evoluçom da situaçom securitária no Iraque que contradim abertamente as mantidas publicamente polos responsáveis da Administraçom Bush: nada apoia a previsom dumha recuperaçom do controlo militar do Iraque em muitos meses (9).

Sem dúvida, o número crescente e a expansom da actividade insurgente no Iraque contrastam chamativamente com as asseveraçons públicas dos membros da Administraçom Bush e do primeiro ministro iraquiano de que a violência está limitada a pequenas áreas do país, como se reiterou este mês durante a visita de Allawi a EEUU com motivo da celebraçom da assembleia anual de Naçons Unidas. A caracterizaçom que fai o primeiro ministro interino Allawi da insurgência no Iraque nom é distinta da da Administraçom Bush e, como a desta, interessada, ainda que insensata:

"Entre eles –refere-se ao insurgente- estám aqueles que nutrem fantasias sobre o retorno ao poder do anterior regime [de Sadam Husein]. Há fanáticos que procuram impor umha pervertida visom do Islám na qual o rosto de Alá nom pode ser reconhecido. E estám os terroristas, incluindo muitos [vindos] de fora do Iraque, que procuram fazer do nosso país o principal campo de batalha contra a liberdade, a democracia e a civilizaçom. Porque a luita hoje no Iraque nom é só polo futuro do Iraque. É a luita mundial entre aqueles que querem viver em paz e liberdade, e o terrorismo". (10)

Allawi chegou a afirmar nestes días em Washington que até 30% dos insurgentes som estrangeiros, umha falsidade que o Chefe do Comando Central de EEUU, o geral John P. Abizaid, desmentia o Sábado 26 de Setembro, no transcurso dumha entrevista televisada em Bagdad, ao estimar que menos dum milhar de estrangeiros combatem no Iraque as forças de ocupaçom (11). O geral Abizaid acrescentava que "(...) o principal problema com que deparamos é o dos elementos do anterior regime do ex partido Baaz que estám combatendo contra o governo [interino iraquiano] e tratando de fazer todo o possível para bloquear o processo eleitoral".

Certamente, a opiniom maioritária dos mandos militares estado-unidense sobre o terreno e dos analistas é que a resistência está integrada esencialmente por iraquianos –sejam ou nom maioritariamente baazistas- auxiliados por membros do dissolvido exército iraquiano, e que as suas fileiras aumentam de dia para dia devido ao crescente descontentamento popular. A última estimaçom de insurgentes "com dedicaçom exclusiva", dava-a um portavoz militar estado-unidense a começos de Setembro: 12000 combatentes, o duplo da cifra reconhecia até o de agora polo Pentágono e sem incluir os 3000 membros da denominada Brigada de Falluja (12), já formalmente dissolvida este mês polas autoridades iraquianas após ser comprovado o seu completo submetimento à resistência local.

Sem dúvida, à toma de consciência de que a deterioraçom evidente das condiçons de vida da populaçom está nutrindo e afiançando a insurgência armada no país, deve-se a decisom tomada em meados de Setembro polo Departamento de Estado dos EUA de destinar de maneira imediata 3’6 milhons de dólares dos 18 mil milhons aprovados para o Iraque polo Congresso estado-unidense em Novembro de 2003 para a reconstruçom do país, dos que apenas se pudérom gastar mil milhons devido à paralisaçom da actividade dos contratistas pola actividade insurgente (13). Se bem se afirmou num primeiro momento que a maioria desse dinheiro se destinaria a melhorias das prestaçons básicas da populaçom –essencialmente, os serviços de subministraçom de água e electricidade-, a Administraçom Bush pedia finalmente ao Congresso. O día 14, que toda a quantidade solicitada poda ser investida em segurança (14), principalmente em treinar e armar outros 80000 membros dos quatro corpos de segurança iraquianos do país (polícia, guarda fronteiriça, guarda nacional e exército), intregrados na actualidade por 50000 efectivos e que terám de chegar a ser 145000 em Janeiro de 2005 e um quarto de milhom ao finalizar esse ano, segundo as previsons de Allawi, indicadas ante o Congresso estado-unidense.

Seqüestros e resistência

O mês encerra-se com a boa nova da libertaçom das duas intregrantes da organizaçom italiana Un Ponte per Baghdad, Simona Pari e Simona Torretta, e dos seus dous colaboradores iraquianos após três semanas de seqüestro. Un Ponte per Baghdad é das contadas organizaçons internacionais que se opugérom activamente ao regime de sançons imposto ao Iraque desde 1990 polo Conselho de Segurança das Naçons Unidas e posteriormente à invasom e ocupaçom do país, incluída a implicaçom nesta de tropas italianas (15). Isto legitima –e explica- a presença no Iraque de Un Ponte per Bagdad, a diferença de tantas ONG que, como as empresas privadas, pretendêrom lucrar-se rapidamente no Iraque à sombra da denominada reconstruçom, para abandonar depois o país imediatamente quando isso se demonstrou mais complicado do que os militares garantírom que ia ser.

A lógica –nom já a organizaçom- que se oculta atrás deste seqüestro resulta difícil de desvendar, a nom ser que se ligue com os interesses dos próprios ocupantes ou com a simples extorsom. Recentemente, a imprensa iraquiana dava conta de dissensons graves entre formaçons nacionalistas e sectores islamistas da resistência pola proliferaçom de atentados indiscriminados e a prática da toma de reféns (16) –que, de resto, costumam ser resolvidos na maioria dos casos com a posta em liberdade dos retidos, graças à mediaçom essencialmente da Associaçom de Ulemas Mussulmanos, máxima instáncia sunnitairaquiana, oposta à ocupaçom e que, quiçá por todo isso, perdia dous dos seus membros em senlhos atentados o día 20 deste mês. Parece claro que nas fileiras da resistência está a tomar-se consciência da nula ideoneidade de certas práticas que permitem aos ocupantes e às instáncias iraquianas colaboracionistas –se nom forem por eles mesmos perpetradas- categorizar a insurgência como terrorismo ou simples delinqüência comum, a fim de justificar com isso a sua permanência no País.

Enquanto se distrai a opiniom pública internacional com figuras como a de al-Zarqawi, o Pentágono prepara para os próximos meses umha ofensiva militar que lhe permita recuperar, antes da data prevista de realizaçom das eleiçons gerais a finais de Janeiro de 2005, os territórios já sob controlo insurgente, inicialmente, três capitais de província, além de Falluja, sita a pouco mais de 50 quilómetros de Bagdad (17). Enquanto chega o momento, Falluja, fora dos focos mediáticos, sofre cada día bombardeamentos indiscriminados que, segundo fontes médicas e municipais recolhidas por al-Jazeera, estám causando dezenas de vítimas civis (15 só no día 25), reediçom da campanha área sobre Bagdad de Março-Abril de 2003, denominada Comoçom e Espanto, e quiçá como aquela destinada a render polo terror e a dor os seus habitantes antes do assalto final.


Carlos Varea é membro da Campanha Estatal contra a Ocupaçom e pola Soberanía do Iraque, iraq@nodo50.org, director da revista Nación Árabe e membro do Comité de Solidariedade com a Causa Árabe, http://www.nodo50.org/csca/.


Notas

1. Recolhido por Patrick MacDonnell in "Sovereign Iraq Just as Deadly to US Forces", Los Angeles Times, 31 de Agosto de 2004.

2. The Washington Post

3. Associated Press

4. Associated Press

5. Associated Press

6. Knickerbocker, B. "Classic guerrilla war forming in Iraq", The Christian Science Monitor, 20 de Setembro de 2004 (ediçom electrónica).

7. Recolhido in Chandrasekaran, R. "Violence in Iraq Belies Claims of Calm, Data Show", The Washington Post, 26 de Setembro de 2004

8. Reuters

9. Priest, D. Y Ricks T.E., "Growing Pessimisn on Iraq", The Washington Post, 29 de Setembro de 2004.

10. Discurso ante o Congresso estado-unidense, 23 de Setembro de 2004, transcriçom de FDCH E-Media, The Washington Post, 23 de Setembro de 2004.

11. Los Angeles Times

12. Associated Press

13. BBC News Online

14. Landay JS y Strodel WP, "Resistance Stronger in Iraq, Analysts Say", Knight Ridder Newspapers, 15 de Setembro de 2004.

15. Quem logo se demitira do seu cargo, Hans von Sponcek, coordenador do programa humanitário das Naçons Unidas no Iraque, sempre elogiou o sério labor de denúncia do impacto das sançons sobre a educaçom primária iraquiana realizada ante ele mesmo por Un Ponte, campo de actuaçom da organizaçom até hoje.

16. Al Fanar Revista de Imrensa Árabe

17. The Washington Post, 26 de Setembro de 2004, 16 de Setembro de 2004, citando o diario iraquí Rifadayn., 14 de Setembro de 2004, 8 de Setembro de 2004, 28 de Setembro de 2004, 26 de Setembro de 2004, 10 de Julho de 2004, 14 de Setembro de 2004, 8 de Setembro de 2004, 5 de Setembro de 2004, e Associated Press, 15 de Setembro de 2004.

 

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