Francisco Vasques e o sonho da limpeza etnolingüística corunhesa

Maurício Castro [Publicado em Vieiros a 28 de Outubro de 2004]

Nos últimos dias, voltou à actualidade a dura pugna que de longa data vem mantendo o presidente da Cámara da Corunha, Francisco Vasques, para conseguir, como ele di, levar à letra da lei o que vem sendo umha realidade social, tornando novamente oficial o espanholizado nome do Concelho da Corunha. Como com Franco.

E tem razom, sim. Certamente, há um desfase entre o que as leis dim e aquilo que a realidade social mostra quanto a usos lingüísticos na Galiza. As leis falam de bilingüismo equilibrado, e a realidade da correlaçom de forças no palco social da língua di que o espanhol está cada vez mais próximo de atingir a exclusividade na nossa Terra. As leis ditam 50% para cada língua oficial no ensino, enquanto a minha filha, de seis anos e única galegofalante da sua turma, tem de esclarecer dúvidas à professora de 1º ano, incapaz de fiar um discurso em galego nas aulas de Língua num colégio público de Ferrol… neste contexto, por que nom havia de procurar respaldo legal o ultra que preside o Governo municipal da Corunha, no seu plano de espanholizar de vez a cidade de Murguia, os irmaos Vilar Ponte e Luísa Villalta, a cidade da primeira Irmandade da Fala?

Vasques nom é só um personagem sinistro, retrato do perfeito colonizado, incapaz de banir por completo o seu inocultável sotaque galego, mas capaz sim de adiantar-nos a caricatura a que podemos ficar reduzidos os galegos e as galegas se finalmente aderirmos à sua proposta de suicídio colectivo. É, também e sobretodo, o sintoma, a mostra e a prova de umha tendência social, historicamente palpável e explicável, de como a nossa classe dirigente se vendeu, e continua vendida, ao capital espanhol, que por sua vez joga o ser ou nom ser do seu projecto expansionário no submetimento final de povos como o galego. Eis o transe que vivemos e Francisco Vasques nos mostra.

Contra o que pudéssemos julgar, Vasques nom é umha simples excrescência da descomposiçom identitária galega. De facto, dos povos dependentes e periféricos sempre surgírom personagens a exagerar o seu afastamento da identidade de que partiam, na procura de achar no exagero o reconhecimento e um lugar ao sol nas fileiras do agente depredador dessa identidade. Casos paradigmáticos som o francês Napoleom, nascido na dependente Córsega, o russo Staline, da periférica Geórgia, e o espanhol Franco, do extremo ocidental galego. Num patamar inferior da transcendência histórica, o nosso contemporáneo e espanholíssimo Mayor Oreja é oriundo do País Basco, e Francisco Vasques, coitado, é ainda delatado polo seu mal dissimulado sotaque galaico. Ambos adiantam o negro futuro que a espanholizaçom reserva aos nossos povos na nova Europa constitucional.

Se a "via Vasques" continuar a abrir caminho, o nosso final como povo será certo. Se conseguirmos enterrar o que ele significa num dos seus jardins, coberto de eles, demonstraremos que, apesar dos seus sonhos de limpeza etnolingüística, ainda existimos. Somos e seremos.

 

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