A Galiza irredenta também reclama o seu património histórico a Espanha

7 de Janeiro de 2004

Quando se debate a volta do arquivo roubado polos franquistas nos arquivos cataláns e depositado desde a Guerra Civil em Salamanca, surge também no Berzo umha polémica sobre a recuperaçom do património histórico que remete para a reivindicaçom identitária dessa comarca galega administrativamente incorporada a Castela e Leom. Publicamos um interessante artigo de opiniom do nosso camarada Igor Lugris em relaçom com a polémica suscitada.

A hipocrisia do PP e a questom da espoliaçom e devoluçom do património. A Galiza Irredenta também reclama o seu património histórico a Espanha

Igor Lugris (membro da Assembleia Comarcal de NÓS-Unidade Popular da Comarca do Berzo e da Direcçom Nacional)

Segundo informam nestes dias os meios de comunicaçom, o concelheiro da Cultura de Ponferrada, Manuel Rodrigues (do Partido Popular), reclamou ao Museu Provincial de Leom a devoluçom do Edito de Augusto, documento em bronze escrito no século XIV anterior à nossa era, e que é considerado polos especialistas como o mais importante dos achados romanos no norte da península. O documento em questom foi encontrado perto da localidade berziana de Bembibre no ano 1999, ficando depositado desde entom no Museu Provincial de Leom (província em que se enquadra oficialmente a comarca galega do Berzo).

Segundo Manuel Rodrigues, a sua reclamaçom é motivada porque "os demais também exigem o seu património", em referência à reclamaçom por parte da Catalunha dos arquivos cataláns referidos à guerra de 1936-39 custodiados, depois de serem espoliados polo fascismo, em Valhadolid. Segundo o concelheiro ponferradino do Partido Popular (a mesma organizaçom que se nega a que tais documentos sejam devoltos à Catalunha), o documento romano deve ser devolto à comarca berziana. "No seu dia, tivemos oportunidade de retê-lo e nom pudemos fazê-lo, e agora, com esta voragem de reclamaçons, nós nom imos ser menos", explica. E ainda acrescenta: "no seu dia, pedimos umha réplica e ainda nom a temos, mas agora somos mais ambiciosos e imos pedir o que cremos que é de lei, o documento original para que poda estar depositado num museu berziano". O responsável polo departamento da Cultura explicou aos meios de comunicaçom que o património histórico berziano deve ser devolto a esta comarca, e em concreto este documento tem de voltar imediatamente à comarca e à cidade de Ponferrada, para poder fazer parte dos fundos do Museu do Berzo.

Cumpre lembrar que o Partido do Berzo (PB) já solicitava neste começo de ano, simbolicamente, numha carta aos "Reis Magos", que todas as autoridades competentes reclamassem "o legado patrimonial" que se acha fora da comarca, referindo-se em concreto a este edito de Augusto e também ao Idolo de Noceda e ao Calis de Penalva.

Para além da hipócrita postura que o Partido Popular demonstra ter com esta iniciativa no tema do Património Histórico, Manuel Rodrigues e o conjunto da corporaçom municipal do PP de Ponferrada (pois é impossível pensar que tal iniciativa nom conta com o apoio do alcaide, Lopes Riesco), venhem assim demonstrar, sem o pretenderem, que o Berzo nom é Leom. Pois é evidente que, se reclamam a devoluçom do património a um museu provincial leonês, é porque consideram que a nossa comarca arraiana nom fai parte dessa "província" espanhola, e que o nosso património deve estar dentro do nosso território.

O tema da territorialidade no Berzo nom está tam fechado como pretende a Junta de Castela e Leom e o PP dessa comunidade autónoma. Neste senso, devemos lembrar que já no último congresso do PP de Castela e Leom, realizado há uns meses, um sector do PP berziano apresentava umha emenda aos textos oficiais, que nom prosperou, em que solicitava que o partido da direita espanhola asumisse a identidade berziana e permitisse ao PP berziano funcionar como se fosse umha organizaçom provincial, dependendo directamente do comité de direcçom autonómico, e nom do comité provincial de Leom. A proposta foi rejeitada no congresso de Castela e Leom, onde os responsáveis do PP nom queriam nem ouvir falar do tema, mas ganhou muitíssimos apoios entre o PP berziano e muitos alcaides, concelheiros e filiad@s dessa organizaçom. E é que muitos membros do PP, e também do PSOE, continuam se entender o que fam dependendo, política e organicamente, dumha província que nunca os tivo em conta mais que para somar votos os dias das eleiçons.

O PSOE também move ficha neste debate sobre a reformulaçom político-administrativa do Berzo, e nom doutra forma há que entender a reclamaçom que nestes dias de começo de 2005 fazia o Presidente do Conselho Comarcal do Berzo, Ricardo González Saavedra, no sentido de que o organismo comarcal assumisse as competências das doze comunidades de municípios que actualmente coexistem nesta comarca, formada por 37 concelhos. Assegurava González Saavedra que, de recaírem sobre a administraçom comarcal as competências que agora dependem destes doze entes supra-municipais, o serviço se veria logicamente melhorado em vários aspectos, tanto no económico como no de atendimento às pessoas principalmente.

Um movimento "provincialista" no Berzo, que reclame a constituiçom dumha província berziana em Castela e Leom, e portanto dumha comarca autónoma frente a Leom, posta a negociar em pé de igualdade com Valhadolid (capital da comunidade autónoma castelhano-leonesa), é um passo importante que pode propiciar um cenário mais favorável para a reivindicaçom da reintegraçom da comarca berziana na Galiza. Os diversos movimentos, colectivos e correntes que podemos estar em prol dessa reivindicaçom devemos estar atentos e dispostos a trabalhar para aproveitar um futuro cenário nesse sentido. As futuras reformas do Estatuto de Comarcalizaçom do Berzo e do Estatuto de Autonomia de Castela e Leom som importantes citas que, do ponto de vista cultural e político, temos de ter já na nossa agenda.

A defensa da galeguidade das terras berzianas, do ponto de vista cultural e lingüístico, mas também do ponto de vista político, devem ser o norte da nossa actuaçom. Da esquerda independentista, sempre teremos a mao tendida para avançar neste sentido junto com quem, honestamente, quiger realizar o caminho que conduza para um Berzo ceive numha Galiza unida e livre.

 

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