"Congreso de la Lengua" na Argentina: organismos populares organizam "Congresso das Línguas" e denunciam imperialismo espanhol

20 de Novembro de 2004

Nestes dias decorre na cidade argentina de Rosário um chamado "Congreso de la Lengua Española", de carácter internacional e com presença dos dirigentes políticos de alguns dos principais Estados em que o espanhol é língua oficial. Entre eles, os reis espanhóis.

Como é do costume, o evento serve para reafirmar a imposiçom do espanhol sobre multitude de povos com língua própria nom reconhecida ou reconhecimento precário. É o caso do guarani no Paraguai, o aimara nos Andes ou a língua do povo mapuche, nesse território esquartejado entre o Chile e a Argentina, ou deste lado do Atlántico na Galiza, Euskal Herria e os Países Cataláns. Em todos eles, o espanhol é língua imposta frente à subsistência das línguas nacionais respectivas, guardando uns paralelismos chocantes apesar da distáncia e as diferenças entre os nossos povos.

É por isso que representantes e defensores de diversas comunidades lingüísticas oprimidas polo imperialismo espanhol denunciárom na mesma Rosário a farsa de umha comunidade internacional "naturalmente" vocacionada para a fala hispana. Assim, na mesma cidade em que a coroa espanhola fazia ostentaçom do poderio da língua espanhola, organizaçons populares inaugurárom o "Congresso das Línguas" ou "Congresso Rebelde", sob a legenda "512 anos de luita. Estamos fartos de que continuem a deitar-nos a língua fora".

O congresso alternativo está a servir para denunciar o genocídio cometido polo imperialismo espanhol no continente americano desde 1492, e que hoje se mantém em forma de saque das riquezas da América Latina em sectores como o energético ou o financeiro, além do cultural através da imposiçom do espanhol sobre um grande número de línguas que esmorecem sob o domínio estatal da língua de Espanha.

Entre os mais de 1.000 participantes no Congresso Rebelde, salientam presenças como a do Prémio Nobel da paz Adolfo Pérez Esquivel. Nele foi também celebrada a negativa de escritores como Gabriel Garcia Márquez a participar no Congresso oficial.

Os organismos promotores do congresso alternativo denunciam o luxo e despesas desbordadas no evento oficial, estimado em 500.000 euros por dia, para exaltar o espanhol e desprezar os povos originários americanos e as suas línguas, incluídas unicamente de maneira ritual e secundária através de especialistas da área hispánica.

Especial relevo está a pôr-se no Congresso Rebelde em denunicar a atitude colonizada dos media argentinos e americanos ante a presença dos reis espanhóis, cabeças máximas da comitiva imperialista que estes dias tomou a cidade argentina de Rosário para organizaro o que as organizaçons populares denominam "circo dos poderosos".

Enquanto se gastam milhons e milhons na organizaçom de um evento puramente propagandístico e colonial, os povos americanos, incluída a cidade de Rosário, continuam condenados à miséria, as escolas carecem dos meios mais básicos e as crianças passam fame ou vem-se obrigadas a trabalhar em regime de escravatura em lugar de estudar. Os salários do professorado nom atinge na cidade em que se organiza o Congresso oficial os 180 euros.

No Congresso alternativo, define-se o congresso oficial de antidemocrático, umha vez que nega a realidade, disfarça a história e exalta a "dominaçom lingüística, parte indispensável do genocídio dos povos originários, ao serviço de um dos maiores saques que conhece a história".

Mas as críticas nom ficam só no olhar à história, estendendo-se ao papel actual de Espanha no continente americano, ao aproveitar os alegados "laços culturais e lingüísticos" para participar num verdadeiro saque da América Latina, através de empresas como Repsol, Iberia, Telefónica e outras do género.

Todo o tipo de problemáticas sociais, económicas, políticas e culturais estám a ser debatidas no "Congresso Rebelde" ou "Congresso das Línguas", incluída a lembrança d@s desaparecid@s durante a ditadura argentina. Em palavras d@s organizadores, "para que ninguém esqueça".

Vaia da Galiza toda a solidariedade para o conjunto de povos latino-americanos historica e actualmente oprimidos polo imperialismo espanhol. A sua luita é também a nossa.

"Dim que tem sete línguas a boca do dragom. Eu nom sei. Mas consta-me que muitas mais línguas tem a boca do mundo, e o fogo de suas línguas nos abriga. Será sempre pouco quanto se faga para defendê-las do desprezo e do extermínio."

(Eduardo Galeano)

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