Milhares de pessoas mortas ao tentarem atravessar o Estreito de Gibraltar nos últimos anos

25 de Dezembro de 2004

Por mais que o Estado espanhol maquilhe as estatísticas, é contínua a sangria de pessoas mortas nas águas do Estreito de Gibraltar ou das Canárias ao tentarem aceder à Europa fugindo da fame e a repressom a partir dos mais diversos países africanos.

A apariçom de 13 cadáveres, anteontem, a bordo de umha patera à deriva em Fuerteventura elevou o número oficial de mortes anónimas a 82 no ano que agora conclui, às quais haverá seguramente que acrescentar as 54 pessoas desaparecidas e nom contabilizadas oficialmente como falecidas, e aquelas de que nem chegamos a ter notícia.

Periodicamente, temos conhecimento da morte de dúzias de pessoas a incrementar umhas dramáticas estatísticas que, no entanto, nom fam mudar o rumo da política imigratória do Estado espanhol, co-responsável por essas mortes junto aos restantes estados do centro capitalista e os respectivos governos fantoches dos países de procedência dos "sem-papéis".

No ano passado, as cifras oficiais falam de 104 pessoas mortas nas circunstáncias que comentamos, frente às 35 reconhecidas em 2002 (mais 20 desaparecidas). Em 2001, a Delegaçom espanhola para a Estrangeiria e a Imigraçom contabilizou 86 mortes e 26 desapariçons. Porém, organismos nom governamentais como a Associaçom de Trabalhadores Imigrantes Marroquinos em Espanha (ATIME) oferecem dados bem diferentes dos edulcorados polo Estado espanhol. Segundo a citada associaçom, 4.000 imigrantes morrêrom em águas do Estreito de Gibraltar só entre 1997 e 2002.

A manipulaçom estatística parte da exclusom na listagem oficial de aqueles cadáveres que vam dar às margens ou a águas africanas e nom às europeias, e da escassa motivaçom para averiguar o número real de pessoas que continuamente se aventuram às águas do Estreito em embarcaçons de grande precariedade.

Sendo provavelmente impossível estabelecer ao certo o número de vítimas, sim é possível e necessário assinalar @s responsáveis polo genocídio silencioso que estám a sofrer aqueles e aquelas que fogem da miséria vendo na Europa opulenta umha via de esperança tantas vezes frustrada ao baterem contra o muro da vergonha representado polo Estreito de Gibraltar. É inegável que cada ano centenas de pessoas morrem e milhares som detidas e expulsas, sofrendo todas elas umhas condiçons sub-humanas na sua desesperada procura de umha vida digna que raramente encontram.

Lembremos também que textos assinados polo Estado espanhol como a Declaraçom Universal de Direitos Humanos estabelecem, literalmente, que "toda pessoa tem direito a circular à vontade e a escolher a sua residência no território de um Estado".

A restriçom da liberdade de movimento promovida polo Estado espanhol e a UE no seu conjunto (garantida polo novo texto constitucional), impedindo as pessoas de fugirem de fame, guerras e perseguiçons políticas, está a causar milhares de vítimas no meio da mais escandalosa das impunidades, que contrasta com a contínua propaganda -no seu dia- de, por exemplo, as 70 mortes contabilizadas polos media ocidentais durante as quase três décadas de existência do Muro de Berlim, entre as pessoas que tentaram atravessá-lo.

Na morte de africanos e africanas que tencionam chegar à Europa, mais umha vez, as grandes palavras viram papel molhado, impondo-se a hipocrisia e a terrível injustiça que caracteriza, já à nascença, o capitalismo. Pola nossa parte, ligando esta terrível realidade com a proposta concreta de Constituiçom europeia que o capital quer impor, encontramos mais um motivo para defender um NOM consciente e combativo no referendo do próximo mês de Fevereiro.



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Cena habitual da chegada de pateras às costas andaluzas