Mais de 30.000 pessoas mortas nos maremotos do sueste asiático

28 de Dezembro de 2004

O número de mortes causadas polos maremotos no sueste asiático nom deixa de subir. Reproduzimos a seguir o artigo de opiniom publicado hoje mesmo polo diário basco Gara sobre a catástrofe acontecida nas costas dessa regiom do planeta.

Artifício natural

Iñaki Lekuona

Que o destino tem um sorriso macabro nom é notícia, mas quando a sua dentadura brilha com intensidade, assusta. Revendo ontem teletipos da sexta-feira passada, deparei com um remetido de Jacarta que intitulava assim: "A polícia indonésia di estar pronta para evitar ataques no Natal". Os temores que eram deixárom de ser e quase, apenas quase, semelham um absurdo após terem sido tragados por ondas devastadoras.

E a seguir, vinte e quatro horas mais tarde, o trágico passa de ser noticioso a ser conjuntural, e as vítimas cobram importáncia apenas polo lugar de origem delas, e a notícia acaba por ser a dos turistas que escolhêrom aquele paraíso e que por um sorriso macabro do destino fôrom cair no inferno.

No ofício da sacanagem todos tendemos para achegar a notícia para suscitar um maior interesse. E nom há nada de mau nisso, ao contrário. Mas, por vezes, forçamos tanto a aproximaçom que distorsionamos a perspectiva. Ontem um canal francês nom deixava de fazer a contagem dos turistas que vírom desaparecer sob as águas as suas posses, e um jornal solicitava testemunhos via SMS no seu web e umha rádio resumia a tragédia num simples balanço de cifras. Ponto. Ah, esquecia as condolências do chefe do Estado, que sempre fica meigo. O desastre é natural e a vida continua e terá de se preocupar de se o governo freta um aviom para repatriar os turistas e fazer-lhes mais entrevistas até o tema já ficar cansativo.

O consolo é que outros meios informativos se dedicárom a informar. Falárom de que esta tragédia é natural, sim, mas que podendo ter sido prevenida, nom foi porque nesse terceiro mundo que mantemos todos a tecnologia para o estudo de fenómenos sísmicos é como de brincar.

Assim de simples. Sem dinheiro nom há instrumental, sem instrumental nom há acompanhamento, sem acompanhamento nom há alerta, sem alerta nom há evacuaçom, sem evacuaçom, há o que há, umha tragédia. É possível que, de o terem tido, os governos da zona tivessem gastado o dinheiro noutra cousa qualquer que nom fosse prevençom sísmica. É possível, sim. Mas o sistema que sustenta o oceano de injustiça que afasta o nosso mundo de aquele é também responsável polo inferno de domingo. E polos infernos que ardem ano após ano noutros terceiros mundos sob o artifício de catástrofes naturais que o primeiro mundo sim pode dar-se a prevenir.

 

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