O capitalismo e o trabalho da mulher

V. I. Lenine
Escrito a 27 de Abril (10 de Maio) de 1913.
Publicado a 5 de Maio de 1913, no periódico Pravda, número 102.

A actual sociedade capitalista oculta nas suas entranhas umha multidom de exemplos de miséria e de opressom que nom dam logo nas vistas. As famílias abafadas da gente pequenoburguesa das cidades, de artesaos, de operários, de empregados, de pequenos funcionários, sofrem dificuldades indizíveis, e nos melhores tempos mal conseguem ganhar o sustento. Milhons de mulheres de tais famílias vivem (ou melhor dito padecem) umha existência de "escravas domésticas" que procuram alimentar e vestir a sua família com uns poucos centavos, ao preço de quotidianos esforços desesperados e "economizando" em todo, salvo no seu trabalho.

Entre essas mulheres, o capital emprega com gosto as suas operárias a domicílio, prontas a "realizar um trabalho complementar" por um salário miserável, para ganharem um pedaço de pam para elas e a sua família. Também entre essas mulheres os capitalistas de todos os países encontram (como os proprietários de servos da Idade Média) tantas concubinas como quigerem ao preço mais "acessível". E nengumha "indignaçom moral" (hipócrita em noventa e nove por cento dos casos) contra a prostituiçom poderá nada contra esse comércio do corpo feminino: enquanto existir a escravatura assalariada, a prostituiçom é inevitável. Todas as classes oprimidas e exploradas da história das sociedades humanas sempre se vírom na obrigaçom (e nisso consiste a sua exploraçom) de entregarem aos seus opressores, primeiro, o seu trabalho nom pago, e, a seguir, as suas mulheres, as quais os "senhores" convertiam em suas concubinas.

Nesse senso, a escratura, a serventia e o capitalismo som idênticos. Só se modifica a forma da exploraçom; mas a exploraçom continua.

Em Paris, "capital do mundo", centro da civilizaçom, vem de inaugurar-se umha exposiçom dos trabalhos das "operárias exploradas a domicílio".

Cada objecto exposto tem umha etiqueta que indica o que a operária a domicílio recebe pola sua fabricaçom e quanto pode ganhar de tal modo por dia e por hora.

E isto que mostra? Umha operária a domicílio nom pode ganhar mais de 1'25 francos (quer dizer, 50 kopeks), seja qual for o artigo. A imensa maioria dos trabalhos depara um redimento infinitamente mais baixo. Por exemplo, os quebra-luzes dos candieiros. O pagamento é de 4 kopeks por dúzia. Ou os sacos de papel: 15 kopeks o milhar, quer dizer, seis kopeks por hora. Ou brinquedos pequenos, com fitas, etc.: 2 kopeks e meio por hora. Ou as flores artificias, de dous a três kopeks por hora. Ou a roupa interior de homem e de mulher: de dous a seis kopeks por hora. Etcétera.

Seria útil que as nossas sociedades operárias e os nossos sindicatos organizassem umha "exposiçom" similar. Nom renderia os enormes lucros que obtenhem as exposiçons burguesas. Mas umha exposiçom que mostrasse os sofrimentos e a miséria das mulheres proletárias prestaria outros serviços: ajudaria os operários assalariados e as escravas a compreenderem a sua situaçom, a dar umha olhadela sobre a sua "vida", a reflectir sobre a forma de se libertarem do jugo eterno da necessidade, da miséria, da prostituiçom e de todos os outros vexames de que som alvo aqueles que nada possuem.

 

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