Volta o nacional-catolicismo?

11 de Abril de 2005

Publicamos um artigo de opiniom assinado por Maurício Castro, em que se analisa a realidade virtual transmitida durante a última semana nos meios de comunicaçom à volta da morte de Karol Woitila, e como serviu nom apenas para promocionar a Igreja católica, mas também o nacionalismo chauvinista espanhol.

Volta o nacional-catolicismo?

Maurício Castro

Por se nom fossem suficientes os centos de milhons de euros com que o Estado espanhol a financia anualmente, a actual campanha institucional e mediática de gabança gratuita da Igreja católica mais reaccionária e ultramontana está a encorajar sectores da direita nacionalista espanhola, que reivindicam o papel do Papa e a sua Igreja como garantes da unidade do Estado e defensores do projecto nacional a ele associado.

Já o próprio Wojtyla, lembremos, exprimira no passado mês de Janeiro, ante o cardeal Rouco Varela, a mensagem literal, referente a Espanha, de que "a diversidade de povos, com as suas culturas e tradiçons, longe de ameaçar a unidade, deve enriquecê-la a partir da sua fé comum". Quer dizer, a superstiçom religiosa como argamassa do "espírito nacional". O sustento idelógico da Espanha eterna do franquismo.

Logo a seguir à morte do líder polaco, dentre os casos mais significativos e qualificados nos últimos dias, podem ser citados o do arcebispo compostelano e o do ex-presidente do Governo espanhol. Julián Barrio, numha missa decorrida na Corunha e ante algumhas das principais "forças vivas" civis e militares, reafirmou as citadas palavras de Wojtyla, definindo estramboticamente a "fé católica" como "a identidade do povo espanhol". Também o ex-presidente do Governo espanhol, José Maria Aznar, afirmou num acto de apresentaçom do seu último livro que "a primeira mensagem" que Joám Paulo II levou ao Estado espanhol nas suas viagens foi "a preocupaçom polos problemas da integraçom nacional" e "as conseqüências da acçom terrorista na unidade da naçom [espanhola, claro]".

O actual presidente de Honra do PP insistiu em que Wojtyla sempre julgou os nacionalismos [com excepçom do que o próprio Aznar professa, entenda-se] como sendo "umha ameaça para a naçom espanhola e um risco para a Europa". Lembrou ainda como o papa recém morto aconselhou "aos espanhóis nom esquecerem a história nem a fé cristá e católica, que constitui a identidade espanhola", em clara referência à histórica ligaçom estabelecida na ideologia dominante entre a Igreja católica, o poder político e a ideia de Espanha.

Aos discursos dos hierarcas católicos e dos dirigentes da direita, como Barrio, Aznar ou o próprio Miguel Ángel Acebes, conhecido membro da seita "legionários de Cristo", devemos acrescentar o bochornoso espectáculo dado na última semana polas instituiçons públicas, os principais meios de comunicaçom e as mais diversas organizaçons políticas, incluídas algumhas galegas como o BNG. Todos eles tenhem alimentado a alienaçom religiosa da populaçom, favorecendo que a Igreja católica poda vir a aproveitar-se de umha campanha de imagem que reforça a sua já importante influência social, económica e política. A artificial unanimidade construída nestes dias, inexistente no seio da sociedade galega, transportou, de certa forma, a hierarquia católica aos para ela dourados tempos franquistas, em que o nacional-catolicismo sintetizava a doutrina oficial: fascista, católica e espanhola.

(publicado em Vieiros a 13 de Abril)

 

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