A Opus Dei, fortalecida, peça-chave na disputa no Vaticano

9 de Abril de 2005

O papado de Karol Woitila serviu, entre outras cousas, para fortalecer a posiçom do integrismo no seio da Igreja católica e noutras instituiçons e empresas dos principais estados capitalistas. O artigo que a seguir reproduzimos explica o papel que a seita Opus Dei ganhou graças a Woitila e como irá ser determinante na eleiçom do seu sucessor.

 

A ordem Opus Dei, fortalecida, peça-chave na disputa no Vaticano

Por Marco Aurélio Weissheimer e Verena Glass (da Agência Carta Maior)

O fortalecimento das correntes mais conservadoras da Igreja foi umha das principais marcas da gestom de Joám Paulo II, o que ficou evidenciado tanto na nomeaçom de cardeais quanto na escolha dos seus colaboradores mais próximos - como o alemám Joseph Ratzinger, prefeito da Congregaçom para a Doutrina da Fé e "guardiám" da moral e dos dogmas da igreja, o espanhol Julián Herranz, presidente do Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, e o também espanhol Joaquín Navarro-Valls, porta-voz do pontífice por muitos anos (os últimos, membros da Opus Dei).

Esta proximidade com Joám Paulo II, segundo o teólogo espanhol Juan José Tamayo, permitiu que tanto a Doutrina da Fé quanto a Opus Dei, representantes do mais profundo ultraconservadorismo da Igreja, manejassem a agenda do Papa no sentido de dirigir a política do Vaticano "a favor de um regresso dogmático ao passado, sem o menor interesse em modernizar a Igreja e adequá-la às demandas sociais dos últimos tempos".

Neste momento, porém, é a Opus Dei (que socorreu financeiramente com cerca de um bilhom de dólares um Vaticano praticamente quebrado após o escándalo financeiro do Banco Ambrosiano), e que tem umha grande capilaridade também nos sectores leigos - como a elite empresarial e política mundial (som vinculados ao Opus Dei nomes como o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e o megaempresário venezuelano das telecomunicaçons Pedro Carmona, um dos principais articuladores do golpe de Estado contra o presidente Hugo Chávez em 2002) -, que deve desempenhar o papel mais importante, entre os conservadores, no processo sucessório no Vaticano.

A maior influência da organizaçom, especulam analistas italianos, deve estar na figura do espanhol Eduardo Martinez Somalo, cardeal-carmelengo, chefe do Colégio Cardenalício e responsável por oficializar a morte do papa, preparar o funeral, o Conclave, e administrar os bens e propriedades da Santa Sé até a sucessom. Já entre os "papáveis" da Opus Dei estám os cardeais Juan Luis Cipriani, do Peru, e o espanhol Julián Herranz, cujas possibilidades, no entanto, nom tenhem grande cotaçom no banco de apostas. Além destes, o cardeal de Veneza, Angelo Scola, 63 anos, um dos indicados para a sucessom de Joám Paulo II, tem o apoio da organizaçom, que também é particularmente defendida polos cardeais Giacomo Biffi, arcebispo de Bolonga (conhecido por seus ataques xenófobos ao islamismo), e Diogeni Tettamanzi, arcebispo de Genova.

Resistências

Apesar de nom ter umha base de implantaçom social muito elevada, a Opus Dei nom é vista com bons olhos por parte da hierarquia católica, na medida em que funciona como se fosse umha espécie de Estado dentro da Igreja. Fundada em Espanha em 1928 por José María Escrivá, (acusado de ter ligaçons com a ditadura franquista), a Opus Dei é criticada pelos católicos progressistas em funçom de suas ligaçons políticas, o seu carácter reservado - às vezes quase secreto -, elitista e tolerante com actos de mortificaçom e autoflagelaçom, praticados polos seus membros.

Em 1982, Joám Paulo II concedeu à Opus Dei o status de prelazia pessoal (umha diocese sem limites geográficos, podendo ser implantada no mundo inteiro), o que garantiu ao grupo independência sobre os cardeais locais. Também canonizou José María Escrivá no dia 6 de outubro de 2002, apenas 27 anos depois de sua morte, durante umha cerimónia solene e com grande público realizada na praça de Sam Pedro.

Para o professor de teologia da PUC de Campinas, Padre Benedito Ferraro, no entanto, apesar da evidente força da organizaçom no Vaticano, umha dúvida para este Conclave é para onde penderám os cardeais alemáns e norte-americanos, que, junto com os italianos, tenhem grande influência no foro.

"Nom nego a força da Opus Dei, principalmente depois do contributo financeiro que tirou o Vaticano do vermelho, nem desconsidero o fato de que Joám Paulo II nomeou um grande número de cardeais conservadores nos últimos anos. Mas acredito que existe um apelo muito forte entre os católicos do mundo todo por umha maior abertura da igreja, para a escolha de um nome que tenha facilidade em falar de temas como homossexualismo, eutanásia, células-tronco etc. Assim, o novo Papa nom poderia ser obviamente um nome ligado à Opus Dei", avalia.

Na mesma linha, Dom Demétrio Valentini, bispo de Jales, acha que o próximo Papa "nom vai querer cair no ridículo de dar continuidade ou de imitar a figura de Joám Paulo II, que se manifestou sobre todos os assuntos cabíveis, actuou em todas as esferas competentes, fijo mais do que qualquer Papa que o antecedeu. Pessoalmente, tenho umha grande expectativa de que, só polo facto de haver umha mudança de Papa, haverá a retomada do debate iniciado no Concílio Vaticano II, que defendeu umha leitura mais aberta do evangelho e a inclusom da voz das comunidades no processo de construçom da fé".

Sobre a actuaçom da Opus Dei, Dom Demétrio afirma que a organizaçom deverá enfrentar dificuldades, porque "as suas articulaçons tenhem pouco de cristao. A Opus Dei fai umha aposta no poder com a utilizaçom de manobras, é forte nas artimanhas e articulaçons e no uso do poder, mas acredito que a Igreja ainda é maior que isso".

As influências da Opus Dei

Emilio J. Corbière, autor do livro "Opus Dei. El totalitarismo católico" (Editorial Sudamericana, 2002) definiu a organizaçom como sendo "a mais forte manifestaçom integralista de poder na Igreja". Segundo Corbière, a Opus Dei estivo intimamente ligada com o regime de Franco, em Espanha, ocupando altos cargos no governo, em bancos, em editoras, revistas e outras publicaçons. No Vaticano, a influência política do grupo teria crescido quando da quebra do Banco Ambrosiano e da conseqüência insolvência do Instituto de Obras Religiosas (IOR), instituiçom financeira da Santa Sé que mantinha negócios com o banco. O Opus Dei auxiliou financeiramente o Vaticano, evitando a quebra do IOR. Os negócios do Banco Ambrosiano sempre fôrom cercados de polémica. A instituiçom financiava, entre outras cousas, o regime do ditador nicaraguano Anastásio Somoza. O nome da instituiçom ficou conhecido mundialmente quando, em Abril de 1992, o banqueiro Roberto Calvi foi encontrado enforcado sob umha ponte, em Londres.

Em Itália, a Opus Dei também estivo envolvida num escándalo político quando o semanário L'Expresso publicou, em 1986, alguns dos 479 artigos de um suposto regulamento secreto da organizaçom, que teria estado em vigor até 1982, data em que ela foi elevada à categoria de prelazia polo papa Joám Paulo II.

Parlamentares italianos solicitárom a instauraçom de um inquérito, pois, confirmada a veracidade das regras, a Opus Dei cairia no estatuto de sociedade secreta, proibida pola legislaçom italiana. A investigaçom nom foi levada adiante. Ao longo da década de 1990, a Opus Dei foi-se transformando em base política do conservadorismo teológico, servindo como elo de contacto entre o Vaticano e governos direitistas europeus e americanos. Vários "opusdeístas" ocupárom (e ainda ocupam) cargos chaves no Vaticano, nomes como o do porta-voz do papa, Joaquín Navarro Valls, e o do substituto do controvertido bispo Paul Marcinkus (ex-director do IOR), Eduardo Martínez Somalo, como secretário de Estado romano.

A eleiçom do novo papa

A escolha do novo papa será feita polos integrantes do Colégio de Cardeais. Tenhem direito a voto todos os cardeais com menos de 80 anos. Som 117 actualmente, sendo quatro brasileiros. A distribuiçom regional do Colégio de Cardeais é a seguinte: 58 europeus (20 italianos), 21 latino-americanos, 14 norte-americanos, 11 africanos, 11 asiáticos e dous da Oceánia. Para ser eleito, o novo papa precisa de ter polo menos dous terços dos votos. Se nom houver um eleito após 12 ou 13 dias, os cardeais podem decidir, por voto maioritário (50% mais um dos votos), quem será o novo líder da Igreja Católica. Nom está definida a data de início do conclave, mas os cardeais já anunciárom umha mudança importante no processo sucessório: eles nom ficarám mais encerrados numha sala fechada, podendo circular entre as reunions. Nos próximos dias, a política vai circular como nunca nos corredores do Vaticano. Especialistas nos jogos de poder, os integrantes da Opus Dei estarám nesses corredores, tentando manter o seu espaço de influência.

 

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Navarro-Valls, dirigente da Opus Dei e porta-voz oficial de Woitila