Os populismos tocam-se

Maurício Castro

3 de Janeiro de 2005

Há umha sentença bastante recorrida na linguagem jornalística que, ao pretender desqualificar as propostas da esquerda social mais conseqüente, tenta confundi-las com os delírios reaccionários da extrema direita. Já conhecem o tópico: "os extremismos tocam-se".

Trata-se de um recurso retórico antigo, habitualmente usado de parámetros conservadores e ordeiros, para tentar neutralizar qualquer iniciativa progressista que vaia para além do politicamente correcto, identificando-a com o extremismo facha. Assim, defender avanços significativos e efectivos para os direitos lingüísticos dos galegos e as galegas, à custa, claro, dos privilégios do espanhol, fica para esses políticos ou jornalistas "neutrais" tam fora de lugar como a supressom directa do galego defendida polos espanholistas sem complexos. O equilíbrio estaria, segundo o paradigma de correcçom em vigor, em reconhecer direitos formais aos galegos sabendo que poderosos mecanismos socioeconómicos garantem que nom vam ser exercidos. A palavrada e mesmo a normativa legal com que enfeitam a realidade semelha por vezes até ocultar os resultados, fazendo ver como "extremista" quem defende mudanças sociais autênticas em favor de direitos reais, nom formais.

No falso "meio termo" é que encontra essa raça superior dos autodenominados "democratas" a posiçom mais cómoda e efectiva para a manutençom do sistema tal como está, utilizando o espantalho da reacçom frente às "veleidades radicais" das forças progressistas que nom renegárom. Pugem o exemplo dos direitos lingüísticos, mas poderia ter posto o da doutrina económica, a liberdade de culto ou a luita das mulheres, e em todos esses casos poderíamos detectar igualmente os três bandos que na verdade som dous, e as cartas marcadas com que o sistema quase sempre consegue fazer perder aos sectores sociais mais avançados cartadas que, de partida, deveriam ser ganhas em favor da maioria.

A estratégia usada por esse grande monstro político chamado "centro", que imbui a prática totalidade de "partidos de ordem" e meios jornalísticos que configuram a superestrutura sistémica tal e como ela é útil à classe dominante, funciona ao ponto de a maioria social assumir que devemos conformar-nos com as cousas tal e como elas estám. Chegamos a acreditar que vivemos, como Liebnetz afirmara já no século XVIII, e Felipe González algo mais recentemente, "no melhor dos mundos possíveis". A máxima de "os extremismos tocam-se" é um dos falsos princípios que sustentam essa ideologia dominante, massivamente socializados em forma de tópico jornalístico ou até conversacional.

Porém, o título desta reflexom em voz alta que partilho com quem me lê é ligeiramente diferente. É "os populismos tocam-se". Quer dizer, quando os agentes políticos comprometidos com a manutençom da ordem social imperante carecem de conteúdos próprios, de compromissos concretos com sectores ou classes, o que poderia levar a um verdadeiro confronto de interesses no palco social como acontece em momentos de crise social aguda, um dos recursos substitutórios mais efectivos que lhes restam é o do populismo. Assim, a "esquerda", a "direita" e os "nacionalistas" (todos eles com aspas, sim, porque na verdade conformam esse centro amorfo e indistinto) dirám que querem governar "para todos", ou lançarám propostas uns aos outros para o nom questionamento do que eufemisticamente chamam "regras do jogo". Nom se toca a coroa, nem se discute a política "antiterrorista", para já nom falarmos da economia de mercado ou o pacto constitucional; cada língua autonómica na sua casa, e o espanhol na de todos.

Com o exclusivo objectivo de tocar poder, venderám-nos figuras de fume e arrumarám diferenças ideológicas, secundárias frente aos alegados "interesses comuns".

Na Galiza, vivemos umha época de proliferaçom de propostas, medidas, contrapropostas e iniciativas conjuntas que podemos denominar sem lugar a dúvidas populistas, provenientes dos três principais partidos do sistema: PP, PSOE e BNG. A cada vez mais ténue divisória entre as políticas reais dos três fai com que reduzam as pugnas a demagógicas reivindicaçons como as que totemizam as infraestruturas, as dívidas históricas, a segurança, a quota de contaminaçom ou os compromissos por cima de particularismos e ideologias. Assim, Anxo Quintana propom a uniom no Senado espanhol dos senadores com certificado de nascimento galego para além de eles pertencerem ao PP, PSOE ou BNG. Depois da recente votaçom em bloco de BNG e PP contra os orçamentos do PSOE, o próprio Fraga responde afirmativamente à proposta de alargar a unidade entre PP e BNG para defender o Plano Galiza. Também a nível local, em Vigo, funciona a unidade de acçom BNG-PP polo "bem comum", na acidentada aprovaçom do PGOM. Todo, claro, em defesa da Galiza (de Galicia, no caso do PP), e ficando amiúde o PSOE em posiçom difícil a defender a gestom madrilena do partido ante o frentismo populista da "direita" e os "nacionalistas" galegos. Deverá Tourinho inventar algo rápido se nom quiger ficar de parte no frenético leilom de ideias peregrinas que mal conseguem assimilar e difundir os teletipos. Quem dá mais?

Porém, mantenhamos a calma. Todos eles estám em campanha eleitoral permanente e, neste democratismo de mercado, como se vê, os populismos tocam-se.

 

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