Eleiçons em Portugal: 20 de Fevereiro, nova gerência

19 de Fevereiro de 2005

O militante comunista português e director da revista Política Operária, Francisco Martins, oferece-nos, no dia anterior à jornada eleitoral de 20 de Fevereiro em Portugal, umha análise da campanha e das posiçons dos partidos parlamentares, com destaque para as duas forças à esquerda do espectro institucional, Partido Comunista Português e Bloco de Esquerda.

 

20 de Fevereiro: Nova gerência

Francisco Martins Rodrigues

Os aparelhos partidários bem se esforçam, mas nom se pode dizer que a campanha eleitoral mobilize o país. Um milhar de activistas afixam, argumentam e discursam perante a apatia da populaçom. A causa - de que nom se fala - é a noçom geral de que estamos condenados a seguir um rumo que nos transcende. Em tempos de mundializaçom e de "europeizaçom", a margem de decisom de qualquer governo é mínima. Há boas razons para o cidadao comum encolher os ombros quando o incitam a "escolher o rumo melhor para o país".

No dia 20 de Fevereiro, o repúdio polas tropelias da dupla Santana-Portas, combinado com a indiferença abstencionista de boa parte do eleitorado, produzirá, ao que todo indica, mais um governo PS. Os analistas dirám paternalmente que o povo mostrou a sua sabedoria ao fazer funcionar a regra de ouro da alternáncia. Sócrates aplicará o programa geral traçado em Bruxelas. E o capital prosseguirá, por cima de todos nós, a sua cavalgada de rentabilizaçom a todo o preço.

Esquerda Ausente

O problema é à esquerda. No PCP, Jerónimo de Sousa repete, com o "vigor proletário" que faltava a Carvalhas, a mesma velha receita: umha CDU mais forte poderá obrigar o PS a inflectir a sua política de direita. Quem acredita nisso? Mesmo que a CDU saia mais forte destas eleiçons, nom será com ela certamente que o PS fará aliança. Sócrates poderá, em caso de necessidade, comprar o apoio do Bloco (ou mesmo do CDS, que já se anda a oferecer), mas nom irá dar a mao a um partido em processo de reciclagem. No que respeita ao PCP, a burguesia assentou há muito na atitude a seguir: completar a "transiçom democrática", com pressons, subornos, com elogios inclusive, mas sempre com mao firme.

Quanto ao Bloco, espicaçado pola direita com acusaçons de "extremismo", esforça-se por demonstrar o seu sentido de responsabilidade e torna claro que está pronto a viabilizar o governo PS. Oficialmente, o BE garante que "nom participará num governo PS nem com ele fará acordos pós-eleitorais, dado que o programa do PS e o do Bloco som contraditórios. Em consequência, o Bloco será oposiçom a tal governo". Mas, acrescenta, "o BE nunca se juntaria aos votos da direita para favorecer, através da rejeiçom imediata do programa [do PS], um novo governo da direita ou novas eleiçons de imediato". Os termos deliberadamente nebulosos contenhem umha clara oferta de acordo informal que já todos entendêrom. Se a isto somarmos a afirmaçom de disponibilidade para listas conjuntas às cámaras de Lisboa e do Porto, fica a ideia de que o Bloco se desloca para a área governativa, como aliás dá claramente a entender a entrevista de Francisco Louçã no Expresso.

Cretinismo

A generosidade dos programas de governo do PCP e do BE e a aparente dureza dos seus slogans de campanha ("Varrer a direita", "Mudar a sério") encobrem umha interrogaçom sem resposta: como se pode melhorar as condiçons de vida dos trabalhadores se isso passa pola reanimaçom da economia, se esta passa pola atracçom dos investimentos e se os investidores serám afugentados por medidas de aumento de salários, restabelecimento de direitos laborais, defesa dos serviços públicos, combate à corrupçom e à evasom fiscal? E como se pode aplicar umha política nom aprovada por Bruxelas?

Quer isto dizer que nom há campo de intervençom para a esquerda? De modo nengum. Isto quer dizer que PCP e BE, ao corresponder aos desafios do sistema para subordinarem toda a sua acçom à "vontade democrática dos cidadaos expressa nas urnas", caírom (gostosamente, diga-se) numha armadilha de onde já nom podem sair. Por muito que digam o contrário, passárom a condicionar a actividade de massas às conveniências institucionais, à atracçom do eleitor médio, à respeitabilidade, à aceitaçom pelos media. A presença no parlamento, que devia ser um auxiliar das luitas nas ruas, tomou-se-lhes um sucedáneo e umha barreira.

Julgar que o rumo político de um país pode mudar por simples efeito dos votos é umha doença há muito diagnosticada como cretinismo parlamentar. Os votos deslocam-se quando a correlaçom de forças entre as classes se modifica na prática da acçom diária. umha esquerda que queira merecer esse nome terá que concentrar todos os seus esforços na reanimaçom do movimento proletário, desmantelado por umha recomposiçom profunda e por décadas de derrotas.


 

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