A verdadeira personalidade de Lenine

7 de Dezembro de 2004
A poucos dias de concluir o ano em que se cumprem 80 da morte do grande revolucionário que dirigiu a tomada do poder polo proletariado russo em 1917, o nosso Partido apresenta a traduçom galega de mais um artigo dedicado a analisar a importáncia da figura de Lenine. Desta vez, trata-se de um texto escrito polo também revolucionário Víctor Serge em 1937. Nele, para além da reflexom política, som apresentados traços pessoais de Vladímir Illich por parte de quem o conheceu e partilhou a luita revolucionária na mesma altura da vitória obreira. O texto, que supom a primeira traduçom do original para a nossa língua, foi publicado em "La Batalla", órgao de expressom do Partido Operário de Unificaçom Marxista (POUM).

A verdadeira
personalidade de Lenine
Víctor
Serge
Artigo publicado
polo órgao central de expressom do POUM em 1937
Morreu esgotado
polo seu labor sobre-humano a 21 de Janeiro de 1924. Havia por volta de dous
anos que a doença o imobilizava no seu cadeirom e tinha umha terrível
expressom de angústia, de que algumhas fotografias da época
dam prova. Mas a sua inteligência continuava acordada e, de quando em
quando, manifestava-se em potentes labaredas. Nesses momentos exprimia a sua
grande ansiedade. Os males do regime que fundara, e que via com grande lucidez,
angustiavam-no. Nom há mada mais trágico que a história
das suas últimas luitas contra a doenças, com o pensamento fixo
em poder trabalhar novamente, em procurar soluçons e aliados, em conter
as ameaças. E, sem dúvida nengumha, se Lenine tivesse vivido
mais alguns anos, o rumo da revoluçom teria-se visto profundamente
modificado em sentido favorável.
É indubitável
que a sua grande autoridade e a sua vasta inteligência teriam agido
eficazmente no curso das cousas. Talvez tivesse podido orientar o Estado socialista
para a inteligência com os camponeses e moderar assim, ou até
ultrapassar, as tendências reaccionárias do interior. Talvez
tivesse sucumbido no longo prazo neste combate, como sucumbiu outra inteligência
igual à dele. A História percorre o caminho servindo-se, segundo
as circunstáncias, dos homens de génio e dos medíocres.
Depois de Napoleom, criou o homem de Sedám. O acaso e o inexorável
vam misturados. A sorte das pessoas depende do acaso, a resultante social
do inexorável, e este inexorável arrasta e quebra o acaso
tantas causas económicas e históricas tenhem contribuído
para o desgaste da Revoluçom que se Lenine tivesse vivido mais tempo,
provavelmente teria corrido umha sorte semelhante à dos seus companheiros
das grandes jornadas revolucionárias. Mas o regime seria melhor.
Esse ponto de
vista nom é, de maneira nengumha, pessimista. Para dominar a natureza,
cumpre que o homem a perceba e se adapte a ela. Para construir o para-raios,
cumpre saber que o raio vai cair e como vai cair. Nom há que contar
com a pregária para o impedir. Para transformar a sociedade e discernir
as suas vias, cumpre obedecer a necessidade mais forte, que é a necessidade
económica. Assim, na ciência marxista, Marx e Engels, investigadores
honestos, ao atingirem o mecanismo moderno da produçom, concluírom
na necessidade do socialismo, aspiraçom das massas a um maior bem-estar
e a umha vida mais justa, passando assim da utopia à ciência.
Com Lenine, o socialismo passou da ciência à acçom.
Pouco antes de
Outubro, as circunstáncias simplificavam os problemas. A guerra reduzia
todo a algumhas alternativas do género de ser ou nom ser. Mas necessitava-se
valor para o ver e, após tê-lo visto, agir audaciosamente. Mas
já nom se podia ser nem viver como no passado. Cumpria era romper com
ele. E isto costuma ser o mais difícil para os homens, que som, via
de regra, prisioneiros das suas rotinas e das suas ilusons. Os escritos de
Lenine revelam grandes riquezas. Mas nunca tivérom tanto valor como
nesses seis meses do ano 1917 em que ele foi o único que se orientou
com passo certo no meio de acontecimentos tam caóticos, compreendendo
que se vivia umha situaçom instável, entre duas ditaduras igualmente
possíveis, a da reacçom e a da classe operária e que,
portanto, nom cabia mais eleiçom que entre a acçom e o desastre.
O critério dele nom era fruto da paixom revolucionária, que
poderia ter sido cega, como outra paixom qualquer; mas da convicçom
do político e do economista, fundada na análise quotidiana de
umha dada situaçom.
Lenine levava
todo em conta: o estado da produçom, as mudanças, as intençons
e as possibilidades da burguesia, a mentalidade dos generais e dos advogados
que estavam ainda no poder, as aspiraçons das massas na cidade e no
campo. E, afinal, concluiu que chegara a hora. Estado refugiado numha cabana
da Finlándia, na beira do mar, a inícios de Outubro, escreveu
para o Comité Central do Partido:
"Caros
camaradas: os acontecimentos fixam-nos tam netamente o nosso dever que a espera
resulta um crime. O movimento camponês desenvolve-se com umha força
crescente. As tropas professam-nos umha simpatia cada vez mais acesa. Em Moscovo
podemos contar com 99% dos votos dos soldados: as tropas finlandesas e a frota
som contra o Governo. Unidos aos socialistas revolucionários de esquerda,
temos a maioria do País
nestas condiçons, esperar resulta
um crime
".
E ainda:
"A vitória
é certa. Há umha percentagem elevadíssima de possibilidades
de a obtermos sem efusom de sangue".
Vim-no, em várias
ocasions um bocado mais tarde, na fase mais ardente da vida dele. Ninguém
era mais singelo do que ele. Ninguém ficava mais longe de todo o que
fosse armar-se em homem de génio que verosimilmente era, o grande chefe,
o fundador do Estado soviético. Todas estas palavras ditas a respeito
dele teriam-no indignado. Quando se agravavam os desacordos no partido, a
sua maior ameaça era: "apresento a minha demissom ao Comité
Central, volto a ser um simples militante e a defender o meu ponto de vista
na base"
Levava ainda
os seus velhos fatos de emigrante na Suíça. Quando se quijo
festejar o seu 50 aniversário, quase se zangou: e só estivo
20 minutos na velada íntima que celebrárom alguns companheiros.
Quando Kámenev
lhe falou de editar as obras dele completas, contestou-lhe com certa contrariedade:
"Para quê? Tem-se escrito muita cousa em trinta anos! Nom vale
a pena!"
Nom se tinha
por infalível, e de facto nom era tal. Cometeu grandes erros. E, amiúde,
no curso da sua mais justa acçom, umha parte de erro nom diminuía
a sua extraordinária perspicácia. Em conjunto, a sua obra fica
como um novo ponto de partida na história, como um magnífico
exemplo de desinteresse e de devoçom à classe operária,
como umha aplicaçom vigorosa do pensamento marxista à luita
de classes. Para aí é que nós olhamos hoje como para
umha luz, e nom para os seus lúgubres restos, embalsamados sob um monstruoso
mausoleu