Luita contra a pobreza ou reparto neocolonial?

11 de Julho de 2005

Publicamos a traduçom galega do artigo aparecido ontem no jornal basco Gara, da autoria da historiadora Alizia Stürtze, de grande interesse para analisar em termos políticos os acontecimentos que nos últimos tempos sacodem o planeta, cuja última mostra é o ataque contra diversos meios de transporte no coraçom da capital británica.

Luita contra a pobreza ou reparto neocolonial?

Alizia Stürtze

Nom sabemos (nem havemos de saber) se os atentados de Londres fôrom decididos após a eleiçom como futura sede olímpica. Sabemos é que a teima tanto da OCI quanto de Tony Blair ao negarem tal hipótese, e o interesse do primeiro ministro británico em ocultar a relaçom entre esses ataques e a sua responsabilidade directa nos actos de agressom imperialista contra naçons soberanas que, no quadro da chamada "guerra global contra o terrorismo", "justificam" bombardeios indiscriminados sobre a populaçom civil do Iraque ou do Afeganistám, que figérom já dezenas de milhares de mortos inocentes.

Sabemos ainda que Tony Blair é um atlantista incondicional e, a seguir a Bush, o máximo representante actual da ideologia neoliberal e a sua correspondente política de privatizaçom e predaçom que, a partir dos anos 70, conduzírom para a pobreza, a fame, a exclusom, a guerra e a morte milhons de pessoas no planeta todo; todo, enquanto mantenhem como tema recorrente o da "reduçom da pobreza", considerado um dos temas centrais da recém findada cimeira do G-8.

De facto, o discurso sobre a pobreza e a necessidade de reduzir a sua magnitude ou erradicá-la até, está na moda, como estava na moda no século XIX, ante os devastadores efeitos sociais da industrializaçom. O problema é que, agora como entom, é muito hipócrita "interesse" apresentado em termos de caridade, da "paternalista" ideia de que a pobreza tem a ver com o crescimento exponencial da populaçom ou, com a corrupçom em certos países e a sua incapacidade para se governarem (e pode portanto ser aliviada com ajudas), quando na verdade a gravíssima pauperizaçom actual tem relaçom directa com o próprio processo de acumulaçom do capitalismo que, na sua fase actual, necessita impor ao terceiro mundo umha série de planos de ajustamento estrutural, e voltar às práticas predadoras do que Marx chamou de "acumulaçom primitiva", que D. Harvey chama de "acumulaçom por despossessom), e que outra cousa nom é senom apropriaçom, roubo cru e nu, de todos os recursos naturais (incluída a água) e humanos (força de trabalho a um custo baixíssimo), convertidos em direitos de propriedade exclusivos dos capitalismos centrais.

O saque que continua a ser efectuado por parte do Ocidente em África e todas a suas manobras (assassinatos, desestabilizaçom de governos e guerras incluídos) para manter um imperialismo encoberto, e impedir o desenvolvimento de um nacionalismo africano dono dos seus recursos, é um claro exemplo das verdadeiras intençons "caritativas" do G-8 quando decide a quem vai dar ajuda (e a quem nom), e em que condiçons. O assunto nom é luitar contra a pobreza, mas umha lavagem de cara que sirva para ocultar o novo reparto neocolonial, umha nova "batalha por África", que EUA quer hegemonizar dentro da sua nova estratégia imperialista, que Samir Amin define como "a extensom da doutrina Monroe a todo o planeta".

Os dados cantam. De umha parte, no continente africano existe relaçom directa entre conflito armado, dependência da exportaçom de minerais e baixo Índice de Desenvolvimento Humano: a maior riqueza exprortável, probabilidades vinte vezes maiores de padecer umha guerra e nível de vida substancialmente pior. De outra parte, som precisamente as grandes potências (frança, EUA, Gram Bretanha, Rússia, China) as principais formecedoras de armamento, com o escandaloso acréscimo de que, nos últimos quatro anos, EUA, França e Gram Bretanha (quer dizer, quem nestes dias nos vendêrom o seu desejo fervente de tirar a África da pobreza), ganhou bastante mais dinheiro exportando armamento a África do que o que lhe proporcionárom em ajuda. De facto, já o dizia em 2000 o embaixador da ONU em Serra Leoa, referindo-se à cruel guerra civil em que o país estava imerso: "o conflito nom tem nada a ver com problemas ideológicos, tribais ou regionais… a causa foi sempre os diamantes"… esses diamantes que, junto a todas as restantes riquezas (madeiras preciosas, petróleo, gás, ouro, coltan…) os países ricoes tantíssimo cobiçam… a bom preço, claro.

Enganam-se, portanto, essas ONGs ou esses movimentos alternativos que querem reduzir a probreza com o parche das ajudas. A pauperaçom (e todas as conseqüências que gera) é um gravíssimo problema de que nom se pode tratar sem perceber os mecanismos sociais e económicos que o geram, e sem relacionar esta com a fase actual de "acumulaçom por despossessom" do capitalismo e com o projecto de dominaçom do imperialismo ianque.

Isto já o tinha entendido muito bem Patrice Lumumba, o grande líder independentista congolano, torturado e executado em 1961 por ordem de Ocidente, precisamente pola sua negativa a se submeter ante os planos neocoloniais deste. O seu testamento político, escrito antes de que o Governo belga pedisse num telegrama a sua "eliminaçom definitiva", expressava com clareza que apenas a partir da luita contra o neocolonialismo e o imperialismo será possível a independência real de África e restantes povos submetidos do planeta e, por derivaçom, o seu desenvolvimento social e económico integral: "A história um dia há-o de demonstrar. Nom será a história que ensinem na ONU, em Washington, Paris ou Bruxelas, mas será a história dos povos que se libertárom do colonialismo e os seus fantoches. África escreverá a sua própria história, e tanto a Norte como a Sul do Saara, será umha história cheia de gloria e de dignidade.

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