Assalto ao Parlamento: de quantos anos de condena estaríamos a falar se fossem independentistas?

26 de Novembro de 2005

Um total de 200 cargos públicos do Partido Popular assaltárom no dia 23 de Novembro do Parlamento autonómico, para protestarem pola paralisaçom de subsídios clientelares que o anterior Governo autónomo concedia às Cámaras municipais governadas por maiorias do PP. O novo conselheiro do Meio Rural, Alfredo Soares Canal, resolveu deter um financiamento arbitrário que garantia o poder local que a direita espanhola estende pola maior parte do rural galego graças a umha rede caciquista sustentada em dinheiro público e favores cobrados em forma de voto.

A lógica interrupçom do esbanjamento de dinheiro público utilizado até hoje para manter contentes as barrigas agradecidas da direita local pró-espanhola achou imediata resposta em forma de "revolta" na própria sede parlamentar da instituiçom autonómica. Em perfeita coordenaçom com os deputados da oposiçom do PP, líderes locais desse partido irrompêrom nas instalaçons sem que ninguém o impedisse, provocando um tumulto para exigirem que se lhes mantenham as contas "bem atendidas".

Estamos ante a primeira manifestaçom na Galiza da nova estratégia da "revoltada" direita espanhola, que em coligaçom com a Igreja católica e os meios de comunicaçom amigos está a mobilizar os sectores mais reaccionários com o objectivo de recuperar o controlo directo das instituiçons.

O curioso do caso que comentamos é que todo indica que o assalto do PP ao Parlamento autónomo vai ficar impune. Nom seremos nós quem defendamos o carácter "imaculado" do Parlamento perante reivindicaçons populares que podam ter esse espaço como referente para legítimas acçons de pressom às instituiçons. Na verdade, som os três partidos nele representados que costumam concordar na denúncia de qualquer acçom politicamente incorrecta que rompa com a "ordem" institucional nos espaços em que tam comodamente estám instalados. Mas neste caso nom foi nengumha reivindicaçom popular, senom o puro gangsterismo do PP ocupando umha instituiçom pública para reclamar que se mantenha o financiamento irregular dos seus governos municipais.

Pensemos só por um momento o que teria acontecido se 200 independentistas tivéssemos decidido ocupar a sede parlamentar do Hórreo para reivindicarmos o direito do povo galego a decidir, por cima das elites dos três grupos parlamentares, no debate da reforma estatutária, por exemplo. Para já, a Polícia espanhola teria actuado com a máxima contundência e com certeza contaríamos por dúzias as pessoas feridas. Só temos que lembrar a brutal carga às portas do Hórreo contra um grupo de manifestantes durante a crise do Prestige, por muito menos do que aconteceu há três dias.

Porém, se finalmente as duas centenas de independentistas tivéssemos conseguido entrar no Parlamento coreando palavras de ordem soberanistas, o famoso "peso da lei", a que Quintana aludiu há poucos dias em relaçom à detençom de dez independentistas em Compostela, teria caído sem nengumha dúvida sobre nós sem qualquer indecisom. Esses três a cinco anos de prisom previstos pola legislaçom actual seriam efectivos, se nom para todas as pessoas, sim para as talvez consideradas "líderes" da molibizaçom. E os meios de comunicaçom? que títulos, que capas, que artigos de opiniom nos seriam dedicados?

As mesmas perguntas servem para imaginarmos o que aconteceria se qualquer outro sector do movimento popular galego protagonizasse umha actuaçom como a dos caciques locais do PP no Parlamento autónomo.

Ficam as respostas para o juízo do leitor e da leitora. No entanto, tendo sido as "forças de choque" do poder rural do PP quem protagonizárom a ocupaçom da sede parlamentar, todo vai ficar numha birrinha entre a presidenta da Cámara os dirigentes da oposiçom, nas demagógicas declaraçons mediáticas de sempre e, em poucos dias, todo esquecido. No fim de contas, a casta dos políticos profissionais sabe proteger-se e compreende, com desportividade e "fair play", até as actuaçons "de mau gosto" e os momentos de "crispaçom" dos adversários políticos.


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Os caciques locais do PP nom tivérom problemas para ocuparem ilegalmente a sede do Parlamento autonómico