Civilizaçom ou barbárie?
1 de Março de 2006
Publicamos um interessante artigo assinado polo sociólogo marxista brasileiro Emir Sader, dedicado a reflectir sobre os conceitos de civilizaçom e barbárie, questionando a suposta superioridade da civilizaçom ocidental face a outras como a árabe, africana ou asiática, com base na trajectória histórica de umhas e outras.
Civilizaçom ou Barbárie?
Por Emir Sader
A hegemonia ocidental
trouxo consigo umha história reescrita. Quem ganha nom somente leva
o botim, mas também o direito de reinterpretar o mundo a partir da
sua vitória. O poder é o poder das armas e do dinheiro, mas
também o poder da palavra. Conforme Walter Benjamin, nessas condiçons,
nem o passado está seguro, ele é abalado permanentemente pola
óptica dos novos vencedores.
A ascensom europeia
como pólo dominador no mundo impujo a dicotomia civilizaçom
ou barbárie para tratar de justificar o seu poder e a colonizaçom
da periferia do sistema. Apropriando-se do termo civilizaçom e desqualificando
as civilizaçons mais antigas do mundo, tachando-as de bárbaras,
as potências coloniais procurárom legitimar sua dominaçom
e justificar os maiores massacres da história da humanidade cometidos
em nome dessa categoria apropriada polos colonizadores.
Foi em nome desse
projecto civilizador que fôrom dizimadas as populaçons indígenas
das Américas. Foi sob esse nome que se deu o tráfico de escravos.
Juntos, esses massacres representam a pior matança da história
da humanidade. E fôrom elas que marcárom a chegada do capitalismo
ao nosso continente.
Mas se tomamos
episódios mais recentes, que marcárom o século passado,
as duas guerras mundiais, conflitos interimperialistas, produzírom
a maior quantidade de mortos que o século conheceu, resultado das disputas
entre as potências imperialistas para redividir o mundo entre elas,
incluídos os regimes fascista, nazista, franquista e salazarista.
Em nome de que
civilizaçom pode falar o ocidente capitalista? Com que direito tratam
de desqualificar as outras civilizaçons como bárbaras?
De qualquer forma,
em sua versom eurocêntrica e, agora, do american way of life, tornárom
hegemónico esse discurso da civilizaçom contra a barbárie.
Edward Said já desmistificou essa focagem, ao denunciar o orientalismo
como simplesmente o outro, o universo que nom é o ocidental dominante.
Resta agora destacar
o carácter racista dessa visom de mundo. Um filósofo mediático
na era dos media, - estes projectam falsos filósofos -, Alain Finkelkraut
já pregou que o anti-racismo será o anticomunismo do século
XXI. Isto é, o inimigo da civilizaçom ocidental é o anti-racismo.
É umha afirmaçom audaz, mas honesta. Porque a hegemonia cultural
da civilizaçom ocidental se construiu na base da superioridade racial
dos brancos.
Nengum instrumento
foi tam importante para essa hegemonia do que Hollywood. E os arquétipos
de Hollywood tenhem um profundo carácter racista. Os filmes de cow-boys
ou de far-west apresentavam os indígenas, massacrados polos colonizadores,
como bandidos, enquanto John Wayne e seus colegas, como mocinhos. Por sua
vez, os filmes de guerra dos Estados Unidos som sempre contra outras raças
asiáticas (japoneses, coreanos), africanos, árabes. Poupárom
sempre o país que promoveu a maior limpeza étnica da história
da humanidade, os alemáns, contra os judeus, os ciganos, os socialistas
e comunistas. O único filme de peso que atacou frontalmente o nazismo,
"O grande ditador", feito por Chaplin, causou tanto mal-estar, que
o seu director tivo que abandonar os Estados Unidos antes mesmo da estreia
do filme.
Sabe-se como
o cinema reescreve a história e deixa profundas marcas no imaginário
das pessoas. Hollywood inaugurou umha série de filmes que tentavam
reescrever a história da guerra do Viet Nam, com os soldados dos Estados
Unidos torturados polos vietnamitas. Mais recentemente, um filme de guerra
estado-unidense fijo as tropas desse país protagonizarem umha batalha
que na verdade foi protagonizada polos británicos.
Muito pior é
a consolidaçom dos africanos, asiáticos, árabes como
bárbaros. Eu diria mais do que isso é um crime, quase umha incitaçom
à discriminaçom e à violência, quando nom ao extermínio.
Umha civilizaçom que discrimina dessa forma - que tem na sua conta
o extermínio dos povos indígenas nas Américas, o crime
tam brutal de trazer à força milhons de negros, arrancados do
seu mundo, para trabalhar como escravos a fim de produzirem riquezas para
os colonizadores brancos, e o holocausto, que previa friamente a extinçom
de umha raça, com aproveitamento industrial de todos os que se pudesse
aproveitar economicamente de seus cadáveres - pode ser chamada de civilizada?
Pode considerar aos outros como bárbaros?