Reptos da esquerda no Séc. XXI: intervençom de J. A. Brandariz nas X Jornadas Independentistas Galegas

6 de Abril de 2006

Continuamos com a publicaçom da transcriçom das intervençons das pessoas participantes na décima ediçom das Jornadas Independentistas Galegas. Hoje é a vez de José A. Brandariz, activista na Deriva e Centro Social Atréu! da Corunha.

Reptos da esquerda no Séc. XXI

J.A. Brandariz
e.a. da Deriva/CS Atreu! (Corunha)

Introduçom

Sirvam estas breves notas para fazer um modesto contributo para um tema tam formidável como o que se plasma no título da intervençom, e das Jornadas. Contodo, o contributo, na sua humildade, orienta-se para marcar algumhas pinceladas do panorama em que nos inserimos, a modo de pintura impressionista. Mesmo com esse objectivo, o contributo parte de duas premissas fundamentais, de jeito metodológico: a) a irredutível polissemia do conceito de comunismo; essa polissemia, prenhada de heterodoxia, é a via por que transitam estas reflexons; b) a formidável magnitude do tema de reflexom, a respeito do qual seguramente ninguém pode pressumir de possuir respostas certas, senom que todos e todas abordamos este debate como reflexom em contínua construçom, como experimentaçom de soluçons que ganham forma através dum incessante movimento.

Para centrar o objecto de reflexom que considero de interesse abordar, cumpre primeiro assinalar a paisagem, o cenario em que se tenhem de enquadrar esses reptos de esquerda do presente. Penso que umha das tonalidades fundamentais dessa paisagem é a da guerra global permanente, que hoje desponta com clareza como a morfologia do actual modo de mando do sistema global. Por conseqüência, e sem necessidade de se aproximar em maior medida dessa noçom, podemos seguramente consensualizar que vivemos umha etapa de profunda desvalorizaçom democrática, em que o estado de excepçom tende para se generalizar como paradigma hegemónico de governo.

Esta mençom serve para emoldurar algo mais o que vai ser o objecto de atençom inicial: a análise do devir do movimento global, altermundialista ou 'antiglobalizaçom'. E digo que pode valer para emoldurar essa análise porque, no quadro da guerra global, aparecem com força um lugar, o planeta Terra, e umha data, 15-II-2003. Nessa data, seguramente momento maior da evoluçom do movimento, como é bem conhecido, várias dúzias de milhons de pessoas saem às ruas do planeta para expressarem a oposiçom à guerra global, num facto que foi avaliado polo New York Times como a expressom da verdadeira segunda superpotência planetária: o movimento global.

Contodo, a referência a este facto só vai ser tomada em consideraçom aqui como medida de comparaçom com outra data de mobilizaçom, 145 meses antes, 15-I-1991. A comparaçom com esse outro momento, data de luita na vigília do começo dos ataques da que foi denominada 1ª Guerra do Golfo, esclarece algumhas das características que o movimento global tem expressado, e que podem servir para centrar a discussom sobre como pode/deve ser umha esquerda anti-sistémica à altura do presente.

Características do movimento global

a) O devir global. O ocaso do quadro estatal de referência. Se a comparaçom que se sugeria for realizada, a primeira nota do movimento global que desponta é precisamente o seu devir global. Nas mobilizaçons de 15-I-1991, ainda o quadro da luita era fundamentalmente estatal; de facto, podem interpretar-se sem dificuldade as características daquelas mobilizaçons a partir das diferentes coordenadas estatais dos lugares em que tivérom lugar. Mais ainda, as demandas daquelas luitas mostravam a presença dum jeito de pensar ainda internacional, nom global; nom em vao, daquela a apelaçom ao respeito pola legalidade internacional gozava dum sentido que em 2003 estava já ausente.

É possível que as mobilizaçons no contexto da guerra de 1991 podam interpretar-se como a última grande luita internacional, expressada num quadro de centralidade estatal, quase coincidente no tempo com o ocaso dos regimes de capitalismo de estado da europa central e oriental. Com posterioridade, pode seguramente ler-se a emergência dum processo de devir global do movimento. Trata-se, contodo, dum processo nom linear nem mecánico, dum processo contraditório, assimétrico, variável, fluido. Mas dum processo efectivo, como se plasma na contemplaçom dos momentos maiores de articulaçom do movimento global: o 1-I-1994, com a 1ª Declaraçom da Selva Lacandona, as jornadas de Seattle, a batalha de Génova ou o próprio 15-II. Esse devir global do movimento, no que neste momento interessa, da forma a algumha das suas características morfológicas mais salientáveis: a) a afirmaçom dumha estrutura irredutívelmente reticular, pouco dada tanto à sua hierarquizaçom quanto à sua 'reificaçom'; b) a centralidade dos processos comunicativos na conformaçom do movimento, que som precisamente os que lhe permitem garantir a sua fluidez e a sua horizontalidade. E, sobretodo, esse devir global vai afirmando a consciência da impossibilidade de sustentar umha verdadeira dinámica de contrapoder num quadro meramente estatal.

b) A instauraçom dumha verdadeira 'política de movimento': Acho possível perceber que o movimento global tende cada vez mais para assumir que a política (antagonista) deve prescindir das lógicas de funcionamento do governo representativo; longe de aceitar o jogo do poder constituído, o movimento desprega-se, em toda a sua potência comunicativa, como verdadeiro ensaio de poder constituinte. Se calhar, a melhor expressom dessa dinámica é a superaçom dumha racionalidade especialmente difundida nos 'lustros obscuros' que antecedem a emergência do movimento global: a do entendimento da política movimentista na lógica do lobbismo, da ferramente de pressom na elaboraçom, reservada às instituçoms, das políticas públicas. A lógica do movimento global devém antitética da racionalidade das ONG's, dos Greenpeaces e das OXFAMs que proliferam durante os anos '80 e boa parte dos '90. Mas a nota que estou a tentar salientar vai além disto. Mesmo poderia dizer-se que com o movimento global pode ver-se o emergir dumha verdadeira 'política de movimento', que tende para superar marcos de funcionamento prévios: a 'política dos notáveis', difundida e praticada durante o s. XIX, e a 'política dos partidos', hegemónica durante boa parte do séc. XX. Esta segunda, imediato antecedente do presente, institucionaliza-se após a Segunda Guerra Mundial, no ámbito do que, nom por acaso, tem sido denominado o modelo do 'Estado de partidos'.

É possível que umha expressom maior desta dinámica seja a crise do parlamentarismo em que estamos a viver. Umha crise que tem múltiplas manifestaçoms, desde o esvaziamento de poder efectivo do poder legislativo, até a crescente deserçom dos processos eleitorais por parte dos sujeitos com dereito a voto. É umha crise de que ainda temos moito que aprender: para pôr um exemplo recente no noso país, os medíocres resultados do BNG nas eleiçons municipais da Primavera de 2003, despois da sua tentativa de encabeçar, quando nom de patrimonializar o movimento social que por convençom denominamos 'Nunca Mais', podem ler-se como umha evidência dessa crise, tanto como devem ser interpretados na lógica da impossibilidade de reduçom da potência do movimento às estreitas formas partidárias da participaçom eleitoral. O movimento, portanto, desenvolve umha dinámica de participaçom que excede absolutamente a forma partidária-eleitoral; o movimento supom a produçom interactiva de conflito sem mediaçom de intelhigentsia algumha, com tendência para a horizontalidade, e com umha espontaneidade quase nom planificada.

c) A centralidade da dimensom comunicativa na conformaçom do movimento. Os processos comunicativos sempre tenhem sido centrais na conformaçom dumha política antagonista. Para comprovar esta afirmaçom, nom é preciso chegar a Indymedia; basta com pensar, muitas décadas antes, num fenómeno como o dos pasquins ou, dito em termos mais gerais, na clássica propaganda política. Contodo, seguramente o movimento global reforça ainda mais esa centralidade, até a fazer componente nuclear do seu ADN político. O movimento global devém consciente de que a produçom dumha comunicaçom livre, isto é, nom mediada polo diversos aparelhos sistémicos, a produçom de símbolos, e mesmo a produçom de mitos (Luther Blisset, Wu Ming) é imprescindível para construir espaços de contrapoder social. Nom em vao, como se tem apontado, as dinámicas comunicativas reformatam as formas organizativas de que se dota o movimento, e mesmo veiculam os processos de subjectivaçom antagonista contemporáneos. E, ainda que isto merecesse umha explicaçom muito mais extensa, tal centralidade das dinámicas comunicativas nom aparece por acaso no momento presente; surge precisamente hoje, quando, no quadro do modelo de produçom 'just im time', os processos comunicativos (lingüísticos, relacionais, informacionais) se convertem na matéria prima fundamental da produçom no capitalismo contemporáneo.

d) A complexa relaçom entre classe-identidade nos processos de subjectivaçom. Esta questom ganha inegável trascendência na hora de interpretarmos a evoluçom do movimento global. Trata-se, por sermos claros, de fugir das simplistas apelaçons ao fim das classes ou ao fim da classe obreira, e proceder a analisar as dinámicas que constroem hoje já nom os 'sujeitos políticos', mas os processos de subjectivaçom anti-sistémica. A risco de sermos extremamente sintéticos, no ámbito desta interrogante apontam, no mínimo, três teses fundamentais. Em primeiro lugar, um sector dos teóricos da postmodernidade, do qual seria expressom, p. ex., CASTELHS, que apontam que som os processos de subjectivaçom identitária, e já nom as classes sociais, que permitem a construçom dum projecto político antagonista. Face a isto, cabe apontar que resulta altamente duvidoso que esses processos de subjectivaçom podam ser desligados de matrizes de interesses materiais. Em segundo lugar, outro sector de teóricos de esquerda considera que os processos de subjectivaçom som expressom, tendencialmente mecánica, das contradiçons objectivas de realidade social. Neste ponto se inscreveria o pensamento de gentes como WALHERSTEIM ou ARRIGHI. Contodo, esta orientaçom de pensamento seguramente desvaloriza o relevo da dimensom comunicativa dos processos políticos. Em terceiro lugar, outro sector, que poderia identificar-se com o 'postoperaísmo' italiano e com um sector do 'postestruturalismo' francês, considera que os processos de produçom de identidades interagem, no quadro do processo político, com matrizes de interesses concretos. Deste jeito, as identidades devenhem contingentes, dependentes do desenvolvimento dos correspondentes conflitos e, por outra banda, mostram-se operativas só quando logram articular interesses concretos.

Partindo de todas estas notas, dumha brevidade digna de melhor causa, seguramente pode tentar-se umha sugestom de alguns reptos fundamentais que se colocam para umha política emancipatória do movimento.

Reptos dumha política emancipatória do movimento

a) Compreender os novos espaços e os novos tempos do conflito. Se durante décadas assumimos que a figura de exploraçom por excelência e, portanto, o 'sujeito político' com maiúsculas, era o obreiro-massa, que tinha na fábrica o lugar privilegiado, quer da explotaçom, quer da luita, e que assumia o conflito em tanto que trabalhador, cingido ao seu tempo de trabalho, está na hora de constatarmos que há lustros que estas certezas passárom à história. As mutaçons produtivas que ponhem fim ao contínuo welfare-keynesianismo-fordismo, com a sua desterritorializaçom do lugar de produçom/exploraçom, com a desligaçom do tempo de produçom/exploraçom do relógio e com a multiplicaçom proliferante das formas de inserçom na mecánica produtiva, dam vida a umha nova figura produtiva, que seguramente pode ser denominada o 'obreiro-social'. Captar toda a potencialidade desta formidável mutaçom é seguramente um repto maior para umha política antagonista do presente. Compreender, dito do jeito mais sintético posível, que o tempo de produçom/explotaçom tende cada vez mais para coincidir com o tempo de vida. Compreender que o lugar de exploraçom é todo o território social, que cada vez se estrutura mais como forma reticular endereçada à produçom de valor. Compreender, em definitivo, que a política é hoje, ante todo, biopolítica. E compreender, no plano mais instrumental, que as ferramentas de agregaçom capazes de construir contrapoder social além da exploraçom nom podem ser o partido de massas ou o sindicato obreiro, que eran, em troca, as ferramentas da etapa do obreiro-massa. Nisto, quer dizer, na experimentaçom dessas novas ferramentas, é bem vinda toda inovaçom. Um desses laboratórios que deve ser ainda atravessado, aqui e egora, é o da potência emancipatória do centro social.

b) Investigar a emergência do cognitariado como figura de classe por excelência. Se assumirmos, como já se apontou, que no capitalismo contemporáneo adquire crescente centralidade a produçom e difusom de fluxos de informaçom (o qual pode comprovar-se dando um olhar às formas produtivas de recente proliferaçom: as companhias dotcom, Inditex, os call centers), o cognitariado, isto é, o segmento da força de trabalho ocupado, no ámbito da produçom imaterial, da produçom, distribuiçom e recombinaçom desses fluxos comunicativos, pode estar a assentar a sua centralidade como figura de classe por excelência. Contodo, além de afirmar esta sugestom, cumpre, mesmo num exercício da maior das sínteses, indicar que esse cognitariado nom é, nem moito menos, umha figura unitária, senom umha verdadeira constelaçom de subjectividades.

c) Superar o conceito de massa. A crise do obreiro-massa coincide no tempo, e nom por acaso, com o declínio de todo o aparelho categorial da modernidade. Enquanto o obreiro-massa se despregava num território liso, no presente habitamos um território crescentemente estriado, o território em que se desprega umha proliferaçom irredutivelmente plural de subjectividades. É óbvio que o conceito de massa é inútil para nomear, interpretar e, em último caso, contribuír para activar essa efervescência de subjectividades. Nisto seguramente resulta de muita maior utilidade, a efeitos experimentais, o conceito de multitude, isto é, essa rede de singularidades que reforça o comum ao reforçar o plural. Com independência do seu relançamento presente, convém apontar que nom estamos perante um conceito em absoluto novo. Olhando alguns séculos atrás, podemos ver a génese deste debate na discussom entre SPINOZA, que impulsava a noçom de multitude, e HOBBES, que defendia, no seu modelo totalitário, a reductio ad unum que implica a massa e, ligada a esta, a sua noçom de povo. Contodo, à margem disto, cumpre assumir igualmente que em tanto que multitude, a proliferaçom de subjectividades presente é irredutível para umha lógica da representaçom.

d) A renúncia à toma do poder do Estado. Por um articulamento autónomo dos nodos contrapoder. Outro dos reptos maiores dumha política anti-sistémica contemporánea deve ser transitar em profundidade a hipótese da inutilidade da toma do poder do Estado. O Estado (moderno, 'nacional') está em crise, sacudido por dinámicas centrífugas para baixo e para cima. Nom está menos em crise a lógica representativa. E isto em vários sentidos. Em primeiro lugar, a simples experiência histórica fala-nos do inajeitado das operaçons vanguardistas e -ulteriormente- burocráticas, das Grandes Revoluçons. Em segundo lugar, o poder, devemos assumi-lo, nom reside só nas instituiçons, nos lugares aparentemente privilegiados do seu exercício; hoje, se nom sempre, vivemos umha etapa de profunda desterritorializaçom dos espaços de poder. É tempo de experimentar esa geometria do poder. É tempo de experimentar umha ordenaçom diversa, nom adiada, nom suspendida até o momento da 'toma' formal do poder. Umha ordenaçom diversa que deve aspirar, acima de todo, a umha libertaçom autónoma do desejo e a umha satisfaçom autónoma das necessidades (vivenda, renda, cultura, lazer, etc.). Nisto nom existen, afortunadamente, fórmulas mágicas, mas sim laboratórios privilegiados, lugares em que esta hipótese já se tem transitado, com interessantes resultados, lugares que tenhem nomes como Veneto ou Kreuzberg-Prençlauerberg. E temos, por ciba disso, a experiência contemporánea das pessoas migrantes, que, marginadas do quadro formal de gozo dos direitos e das possibilidades de participaçom, reinventam de jeito quotidiano formas autónomas de satisfaçom das necessidades e de libertaçom do desejo. O objectivo é, em suma, a consolidaçom e o tecido de nodos capilares de contrapoder social.

e) Por umha utilizaçom inteligente do interfaz representativo. Apesar de todo o dito, apesar das mutaçons em curso, a política representativa existe. Apesar da crise do modo de governo representativo (expressada na crescente abstençom, na volatilidade do voto, ou em experiências concretas como as que já se tenhem citado), continua a existir umha esquerda eleitoral que logra a custo mais que atingir umha posiçom de subalternidade em instituiçons cada vez mais carentes de poder real (quando menos, de transformaçom). Seria ingénuo desconsiderarmos esta realidade. Longe diso, um dos reptos da política do movimento deve ser indagar o emprego produtivo do(-s) interfaz(-ces) representativo(-s), mantendo-os sempre em funçom subalterna. Trata-se de lograr que esse interfaz seja expressom da potência do movimento, e nom de investigar como inserir-se no exercício do poder representativo.

f) Pola procura doutro regime político. A democracia tem mostrado demasiado amiúde a sua versalitidade para dar corpo a dinámicas de dissociaçom autoritária, de dominaçom disciplinária mediante a lógica da representaçom, que hoje é antes a racionalidade da excepçom. Em conseqüência, o horizonte último, Mas também constante, em cada prática política, deve ser a consecuçom doutro regime político, mais ajeitado para a emancipaçom. E é óbvio que este regime nom pode ser a autocracia. Entom, cumpre intuir que só a acracia garante as condiçons de deliberaçom, participaçom e decisom ajeitadas para garantir a emancipaçom das subjectividades humanas. E nom se trata só dum mero desejo: muitas práticas do cognitariado expressam condiçons para ir adiantando essa consecuçom. Assim, a modo de conclusom, citaria neste sentido umha frase com que conclui num trabalho recente quem eu tenho por umha das mentes mais lúcidas da esquerda deste país, Raimundo VIEJO: 'a acracia sempre foi, é, e seguirá a ser, o regime político do comunismo'. Ou, por dizê-lo doutro jeito: 'enquanto existir o Estado, nom haverá liberdade. Só quando o Estado desaparecer, conseguiremos a liberdade'; neste caso, trata-se dumha cita de O Estado e a Revoluçom, de Vladimir Illich ULIANOV, LENINE.

Mais nada. Obrigado.

 

:: Especial X Jornadas Independentistas Galegas

 

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