PT brasileiro: continuidade neoliberal e democracia de "mentirinha"

27 de Agosto de 2005

As contradiçons da falsa alternativa de esquerda representada polo governo Lula no Brasil, sustentado pola burguesia e apoiado polo FMI, rebentárom em forma de corrupçom no financiamento do partido governante, o Partido dos Trabalhadores (PT), provocando um crescente descontentamento popular e o início de um novo reagrupamento das forças à sua esquerda.

O economista João Pedro Stedile, umha das principais lideranças do movimento dos sem-terra no Brasil, considera que a crise é muito mais grave do que aparenta. A crise nom seria apenas política, segundo ele, mas também económica e social. "É como se o Brasil estivesse numha encruzilhada histórica. A crise que estamos vivendo é muito grave, profunda e será prolongada", afirma o coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). "Estamos numha crise de projectos para o País, umha crise de destino do Brasil."

Em entrevista ao Correio Braziliense e ao Estado de Minas, Stedile explica porque, há duas semanas, durante umha manifestaçom em Curitiba, chegou a decretar o fim do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. "Aquele governo Lula que nós elegemos em 2002 acabou. Agora, temos um governo Lula-Severino-Sarney-Calheiros".

Desde que estourou a crise, Stedile dedica-se a correr o País para animar a militáncia e alertar que nom se pode apenas ficar embasbacado com a enxurrada de denúncias que varre o noticiário. É preciso, segundo ele, sair do imobilismo e deixar de lado a postura passiva. Stedile vê, assim, umha possibilidade de superaçom da crise: Estimular as luitas sociais e a mobilizaçom de massas, que é o único caminho capaz de alterar a correlaçom de forças atual. A seguir, os principais trechos da entrevista. A esquerda precisa rever seus métodos

O governo Lula acabou?

João Pedro Stedile: O povo brasileiro votou em Lula para realizar mudanças. Durante a campanha eleitoral, fôrom apresentadas promessas e, no entanto, nengum dos compromissos relacionados com as mudanças para o povo foi cumprido. Depois véu a crise de 2005. E aí o governo fai umha reforma ministerial que representou umha aliança ainda mais conservadora. Entom, quando dixem que o governo Lula acabou, foi no sentido de que aquele governo Lula que nós elegemos em 2002 acabou. Agora, temos um governo Lula-Severino-Sarney-Calheiros.

Como a crise está sendo vista polas lideranças do MST e pola base do movimento?

Stedile: A nossa base e a militáncia estám acompanhando a crise com muita atençom e perplexidade, como todos os brasileiros. E estám muito preocupados, primeiro polos descalabros dos métodos que fôrom utilizados. Mas sobretodo estamos preocupados pola paralisia política do governo que isso causou. E estamos ainda mais preocupados porque o governo fijo um compromisso com a sociedade brasileira e com a nossa base, comprometendo-se a acelerar a reforma agrária e assentar 400 mil famílias em quatro anos. Até agora, a reforma agrária andou a passos de tartaruga, e continuamos tendo mais de 130 mil famílias acampadas esperando o cumprimento dos compromissos.

O que a crise do governo e do PT representa para a esquerda brasileira?

Stedile: A crise que estamos vivendo é muito grave, profunda e será prolongada. A crise nom é só de ética ou de corrupçom. Estamos vivendo, em primeiro lugar, umha crise económica. A continuidade da política neoliberal nom tirou a economia da crise. Os resultados som medíocres. Os únicos que estám ganhando dinheiro e estám faceiros som os bancos, as multinacionais e quem se dedica à exportaçom. Há também umha crise política, porque o povo nom acredita mais nos políticos. Essa forma de democracia de mentirinha, em que o povo nom tem poder nengum de decidir sobre o seu futuro, nom funciona mais.

Precisamos de fazer umha reforma política de fundo, que recupere formas de participaçom da democracia directa, do direito do povo convocar plebiscitos, revogar mandatos etc. E temos ainda umha grave crise social, que beira a barbárie, com a falta de emprego, com aumento da violência, com a falta de serviços públicos de saúde, educaçom e transporte coletivo para os pobres. Estamos numha crise de projectos para o País, umha crise de destino do Brasil.

Quais liçons podem ser tiradas?

Stedile: Muitas. Primeiro, é preciso que os partidos de esquerda revejam os seus métodos de fazer política. O que o Campo Maioritário (grupo hegemônico dentro do PT) fijo no partido foi utilizar os mesmos métodos clássicos da direita: tentar ganhar eleiçons apenas com dinheiro, com marketing. Caírom na ilusom dos showmícios, dos Dudas da vida. E aí saíram à cata de dinheiro para financiar um método despolitizado, atrasado, que a direita sempre usou. Portanto, é preciso recuperar os métodos correctos da política, que é a disputa de ideias, que é elevaçom dos níveis de consciência da populaçom, que é estimular o debate e a participaçom militante dos cidadaos.

O PT assumiu a Presidência com a promessa de tratar com mais sensibilidade as demandas sociais, inclusive as colocadas polo MST. Qual será o impacto para o MST se a debacle do governo e do PT prosseguir?

Stedile: O nosso papel, no MST e nos movimentos sociais, nom é ficar apenas embasbacados com as denúncias. O nosso papel é, em primeiro lugar, fazer reunions na base, reunir a militáncia, debater, entender o momento que estamos vivendo. Tenho-me dedicado a isso 24 horas por dia desde que eclodiu a crise. E, a partir da compreensom correcta do que realmente está acontecendo, estimular as luitas sociais, a mobilizaçom de massas, que é o único caminho capaz de alterar a correlaçom de forças actual. A crise resolve-se com debate político, com as massas e com articulaçom de forças sociais que queiram mudanças verdadeiras.

Tirado de www.resistir.info. O original encontra-se no Correio Braziliense, de 08/Agosto/2005


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