Intervençom de Carlos Morais nas X Jornadas Independentistas Galegas

25 de Março de 2006

Hoje reproduzimos por escrito e na íntegra a intervençom do camarada e secretário geral do nosso partido, Carlos Morais, nas X Jornadas independentistas Galegas, "Desafios e necessidades da esquerda do século XXI.

Intervençom nas X Jornadas Independentistas Galegas
Desafios e necessidades da esquerda do século XXI

Carlos Morais
Compostela, 18 de Março de 2006

O título escolhido nesta ocasiom para as Jornadas Independentistas Galegas poderia semelhar um mais daqueles estéreis debates que a finais do século XX, após a queda do muro de Berlim e posterior implosom da Uniom Soviética, estivérom tam em voga entre diversos sectores da esquerda confundida e assustada, a que, sem suficiente reflexom e perspectiva, identificou erroneamente o final do modelo do socialismo soviético com o fracasso do marxismo e do comunismo, assumindo os postulados de Fukuyama e os falazes prognósticos do fim da história. E, portanto, optou precipitadamente pola via mais cómoda: a do abandono das bandeiras que o movimento obreiro foi levantando em mais de 150 anos de luita de classes, e a simultánea capitulaçom e integraçom na lógica de exploraçom, dominaçom e opressom imposta pola ditadura burguesa, normalizando a sua participaçom no modelo da economia de mercado e a democracia parlamentar.

Porém, nesta ocasiom, três lustros depois daqueles acontecimentos que contribuírom para abalar o mundo, desta vez em sentido inverso aos factos narrados setenta anos antes por John Reed, procuramos realizar umha paragem no caminho, "estamos em guerra, mas há que reflectir", para analisarmos e reafirmarmos quais som os desafios e as necessidades da esquerda do século XXI que defendemos @s comunistas galeg@s.

Antes de introduzir-nos em cheio na questom que hoje nos convoca, cumpre manifestar que existe umha interligaçom dialéctica entre os desafios e as necessidades da esquerda do século XXI. Os desafios estám vinculados com as necessidades, e as necessidades nom se podem compreender e superar sem interiorizar os desafios.

Hoje, neste mundo globalizado, de caos sistémico, de guerra aberta e sem quartel do capitalismo contra os povos, contra a classe trabalhadora e as mulheres, de furioso imperialismo no sentido mais criminoso do conceito, de militarismo extremo e genocida, de destruiçom sistemática das conquistas sociais e laborais em aras desse totem chamado competitividade, de estrangulamento das liberdades sob a justificaçom do combate antiterrorista, de reforçamento do patriarcado e de todos aqueles mecanismos que submetem a mulher; a esquerda, lamentavelmente, a maioria da esquerda, continua à defensiva, acomplexada, com dificuldades para reagir. Segue instalada nos parámetros da derrota e da claudicaçom.


A esquerda, entendida num sentido amplo como o conjunto de forças políticas e sindicais, organizaçons e colectivos sectoriais, os denominados movimentos sociais, assim como todas aquelas ferramentas de que se dota com o objectivo de contribuir para a tranformaçom do presente num sentido de progresso, emancipaçom e justiça, -da qual logicamente devemos excluir os velhos partidos social-democratas e "socialistas" de prática neoliberal-, tem três tarefas urgentes que realizar, três deveres pendentes que superar:

Em primeiro lugar, renunciar categoricamente a gerir o presente seguindo os parámetros impostos polo neoliberalismo, ou seja, aplicar políticas socioeconómicas de direita sob um morno palavreado de esquerda, abandonando a sua natureza transformadora.

A esquerda com representaçom parlamentar, -salvo contadas excepçons-, embora governe instituiçons municipais, regionais, comunidades autónomas, governos estatais, tam só aplica receitas semelhantes, às vezes idênticas e mesmo até em ocasions mais agressivas, às dos partidos tradicionais da burguesia. Ou seja: legislando para o patronato com reformas laborais permanentes, privatizando serviços públicos, restringindo ainda mais as raquíticas liberdades e os direitos cívicos, excluindo as maiorias da tomada de decisons.

Um diagnóstico rigoroso da maioria destas experiências ditas de esquerda, -basicamente no nosso restrito ámbito ocidental-, conclui que fica reduzida a esporádicas e epidérmicas intervençons que tam só aperfeiçoam a perpetuaçom dos instrumentos de opressom, contribuindo para reforçar o descrédito da política entre os sectores populares.

Em segundo lugar, deixar atrás todos aqueles tópicos assumidos como indiscutível dogma, emanados da interiorizaçom do desconcerto e da derrota.

A esquerda deve ser capaz de desmarcar-se da rigidez, do mimetismo, da fosilizaçom, dos anacronismos disfarçados de modernidade e futuro em que parece estar instalada. Isto é: deve abandonar a aplicaçom supersticiosa do parlamentarismo burguês como única via plausível, recuperando portanto a movimentaçom de massas, o combate político na rua, empregando, sem excepçons, todos os método de luita em dialéctica sintonia com as condiçons subjectivas sobre as quais age.

A esquerda maioritária que conhecemos hoje a nível mundial tem constrangido a sua acçom, e mesmo o seu ser, às eleiçons. Tem entregado a sua alma libertadora ao demo eleitoral.

A lógica eleitoral, a conquista de votos a qualquer preço tem absorvido a funçom de combate e movimentaçom, tem fascinado, integrado e subornado as suas elites na perversa lógica da burguesia.

Em terceiro lugar, é precisamente a composiçom maioritária de classe das direcçons dos partidos, e mesmo do sindicalismo, com umha afogante presença de quadros pertencentes à pequena-burguesia, que provoca e explica as derivas reformistas e social-democratizantes da esquerda a escala mundial que se venhem agudizando desde há mais de 15 anos.

É à classe obreira que compete dirigir a sua própria emancipaçom. Nom necessita, nem deve delegar a direcçom política sobre aquelas camadas mais próximas, objectivamente mais preparadas e instruídas, -o semiproletariado e a pequena-burguesia-, mas que pola sua natureza de classe sempre tendem à colaboraçom e concertaçom com o Capital.

O proletariado continua a ser, é sem lugar a dúvidas, o sector mais avançado e objectivamente mais capaz do povo trabalhador para exercer de vanguarda nas mudanças sociais.


Sem estas três premisas, nom é possível exercer umha política de esquerda. Ou, dito de outro jeito, sem estas três condiçons, nengumha força política, sindical ou social, por muito que se autodefinir de esquerda, poderá merecer este qualificativo, e muito menos aplicar políticas ao serviço das maiorias oprimidas. Poderá ser esquerda na simbologia, poderá ser esquerda nas siglas, poderá ser esquerda nas origens, na trajectória e na sua particular experiência histórica, mas carecerá do mais importante e definitivo: umha coerente acçom teórico-prática, digna e definitória deste qualificativo.


A esquerda tem que erradicar esse cancro que como umha metástase tem corroído na última década o cerne do corpo organizado do movimento obreiro e popular: o possibilismo.

A realpolitik foi inundando como um letal veneno a consciência média das massas: o descrédito na possibilidade de qualquer perspectiva de transformaçom colectiva e organizada que só a luita pode conferir, reforçando deste modo a resignaçom, a passividade, o conservadorismo, em definitivo: a derrota subjectiva d@s oprimid@s, sejam obreir@s, mulheres, jovens, povos negados, massas deserdadas.

Chegados a este ponto de crítica implacável contra o presente, que esquerda necessitamos?

Fugindo de absurdas generalizaçons e incorrectas visons universalistas, consideramos que a reconstruçom da esquerda do século XXI tem umhas tarefas comuns, das quais destacamos:

·Passar à ofensiva contra o Capital, combinando dialecticamente, em funçom de cada conjuntura específica, medidas de resistência, de desobediência, com a participaçom em todos aqueles campos de batalha, -sem nengumha excepçom-, que servirem para avançar na direcçom correcta. Portanto, isto exige deixar de seguir conduzindo as massas de derrota em derrota, de retrocesso em retrocesso com base em falsas promessas eleitorais.

·Ser capaz de integrar, ser capaz de incorporar à luita do Trabalho contra o Capital, as outras contradiçons consubstanciais ao capitalismo, ou que este incorporou simbioticamente e mesmo agudizou. A opressom das mulheres, nom entendidas como um colectivo minoritário, mais como a juventude ou os desempregados, senom como a metade, e nalgumhas formaçons sociais concretas, mais de metade da força de trabalho social. Sem Feminismo nom é possível construir umha sociedade Socialista merecente deste nome. Ou se o preferirdes assim, sem Feminismo nom há Revoluçom.
-Mas também a luita pola autodeterminaçom e a independência naqueles projectos colectivos negados como o galego que padecem umha opressom nacional.

-A defesa do meio natural e dum modelo de consumo alternativo à esbanjadora e suicida corrida ao abismo a que o modo de produçom capitalista está guiando o planeta. A crise ecológica global só terá soluçom superando as cuasas que a provocam.
-Os direitos sexuais, d@s imigrantes, das minorias esmagadas e oprimidas, recolhendo todas aquelas bandeiras velhas e novas, cómodas ou incómodas, que levantam excluídos, pobres e deserdadas.

·Superar o fetichismo eleitoral, a obsessom polo imediatismo dos votos.

·Renunciar à conciliaçom de classes, à política de negociaçom e adaptaçom às regras impostas pola burguesia. A esquerda deve manter umha fidelidade aos princípios gerais.

·Chamar as cousas polo seu nome, fugindo de eufemismos e maquilhagens da realidade, semelhantes e mesmo às vezes idênticas às que emprega essa imensa bateria de propaganda burguesa que som os grandes meios de comunicaçom de massas. O inimigo da humanidade é o Capitalismo e os seus bárbaros métodos de imposiçom: o imperialismo, o militarismo, a exploraçom. E quem se beneficia disto é essa minoria denominda burguesia ou oligarquia.

Temos que combater a inércia e a comodidade intelectual disfarçada de modernidade. As categorias, os paradigmas, os conceitos, as ideias força, ou como quigerdes chamá-lo, empregados polo marxismo revolucionário no século XX, seguem na sua prática totalidade vigentes neste século XXI.

·Conectar com e defender as reivindicaçons imediatas das massas. A esquerda tem que ser um movimento do presente em íntima relaçom com o futuro. Porém, nom pode renunciar aos objectivos estratégicos, ou seja, cair no imediatismo economicista, mas tampouco centrar-se no estrategismo agitando palavras de ordem correctas, mas desigadas do nível de consciência socialmente compartilhado.

Nom temos que inventar luitas especiais, tam só participar em todas aquelas que se desenvolvem diante de nós, imprimindo consciência e enquadrando-as no seu carácter estratégico.

·Defender, promover, impulsionar todas as formas possíveis de democracia socialista. O comunismo, nom as deturpaçons estalinistas e maoistas, deve ser garante, um firme defensor das mais avançadas e aperfeiçoadas formas de democracia popular. Um povo organizado é a melhor vacina contra toda forma ou tendência autoritária, por muito popular e proletária que se declarar.

·Buscar fórmulas de entendimento e convergência entre todos ou polo menos entre o maior número de sectores do campo popular, fugindo de sectarismos e exclusons. As unidades populares som as fórmulas mais acaídas para o avanço da esquerda.

·A luita hoje, tal como há cem ou cinqüenta anos, nom pode ficar reduzida à escala local. A esquerda deve fomentar e aprofundar espaços internacionais de debate, coordenaçom e combate. É urgente construir ferramentas organizativas supranacionais contra o Capital. Frente à agressom global, a resposta deve ser também global. Há que refundar e reforçar o internacionalismo proletário do século XXI.

Isto tem sido, -com todos os acertos e erros que acompanham umha experiência militante-, o horizonte genérico que provocou o nascimento há agora dez anos de Primeira Linha.

A nossa particular trajectória sempre estivo presidida por estas ideias forças. Em muitas ocasions, fomos capazes de acertar e de transmitir correctamente o que defendíamos. Noutras nom estivemos tam acertad@s, nom atinamos, e mesmo erramos, e às vezes nom fomos capazes de reconhecê-lo publicamente.

No entanto, como partido comunista, sempre fomos conscientes de que somos um corpo estranho na sociedade burguesa que pretendemos derrocar. Nunca nos acomplexou esta circunstância. Nom exigimos mais reconhecimento que o ganho a pulso polos nossos próprios méritos.

Levamos umha década agindo nesta sociedade, tentando demonstrar sobre o terreno que umha outra esquerda nom só é possível, é necessária.

Que os contributos teórico-práticas de Marx e Engels, aperfeiçoados e desenvolvidos por Lenine, e tant@s outr@s, o que se denomina marxismo-leninismo, nom só nom estám obsoletos como afirmam os apologetas do Capital, som mais necessários do que nunca.
Que a máxima luxemburguiana de "Socialismo ou barbárie" está desfasada polos acontecimentios históricos a que nos tem conduzido o capitalismo real.

Hoje, mais que do nunca, -basta com subir essas escadas e observar sem paixons e preconceitos o mundo-, só há umha alternativa de futuro "Comunismo ou Caos".

 

:: Especial X Jornadas Independentistas Galegas

 

 

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