Mudanças em Cuba
31 de Dezembro de 2005
Em relaçom com o debate aberto em Cuba em torno da possibilidade de que a revoluçom poda autodestruir-se a partir de falhas internas do próprio desenvolvimento do processo revolucionário, reproduzimos a traduçom para o nosso idioma do artigo de opiniom publicado ontem polo jornal progressista mexicano La Jornada. O autor, Octavio Rodríguez Araujo, é professor e investigador da Faculdade de Ciências Políticas e Sociais na UNAM (Universidade Nacional Autónoma do México).
Mudanças em Cuba
Octavio Rodríguez
Araujo
La Jornada (México)
No chamado "discurso da universidade" (17/11/05), Fidel Castro falou da corrupçom no seu país e dos riscos que corre a construçom do socialismo se nom for corrigida. "Ou vencemos esses problemas, ou entom morremos", declarou, segundo a nota de Gerardo Arreola neste diário (19/11/05). A corrupçom principal a que se referiu é a que existe entre aqueles que vivem do mercado negro, directo ou indirecto, e no qual participam tanto pessoas correntes como funcionários públicos. Umha das medidas anunciadas para combater esse problema é acabar com os subsídios ao consumo de bens e serviços, para evitar que sejam objecto de contrabando ou revenda com lucros pessoais e privados a partir de aquilo que devia continuar a ser público e em favor do conjunto da sociedade.
Felipe Pérez
Roque, em alusom ao "discurso da universidade", lembrou a 23 de
Dezembro, perante a Assembleia Nacional do Poder Popular (parlamento cubano),
o que já tinha dito Fidel: que a revoluçom podia ser reversível,
"e nom polo inimigo, que tem feito todo o possível para tal, mas
polos nossos erros" (nota de Arreola, ibidem, 26/12/05).
A tomada de consciência
por parte dos principais dirigentes cubanos de que existe corrupçom
e, a partir dela, desigualdades inaceitáveis num sistema como que se
quer construir, é um signo importantíssimio de que se querem
fazer as cousas bem e nom cair nos vícios generalizados e nunca combatidos
dos países europeus ditos socialistas, antes da queda do Muro de Berlim
e da própria Uniom Soviética.
Nesses países,
desenvolveu-se umha burocracia privilegiada que se enriqueceu mediante a corrupçom
no exercício dos seus cargos na administraçom estatal e paraestatal,
quer central (nacional), quer local. O problema nom foi novo nem um achado
dos críticos do "socialismo" soviético e dos seus
satélites europeus. Foi um problema que que já tinha observado
Lenine nos últimos anos da sua vida, que criticou a partir da esquerda
Trotski, que salientárom muitos intelectuais que, tendo tido razom,
fôrom riscados pola mesma burocracia como agentes anticomunistas, fantoches
do imperialismo, do nazismo no seu momento e da CIA mais adiante. Vários
desses críticos fôrom encarcerados na mesma Uniom Soviética
ou nos seus respectivos países, acusados de crimes que nom tinham cometido,
enviados para campos de trabalho em locais afastados da Sibéria, perseguidos
por traiçom à pátria e até assassinados, sem umha
pitada que fosse de autocrítica dessas burocracias que nom só
continuárom a ter privilégios, como, ao verem ruir o sistema
social que era suposto estarem a construir, nom vacilárom em facilitar
a privatizaçom de todo o que estava em maos do Estado (devendo estar
em maos da sociedade se realmente tivessem querido construir o socialismo).
O suposto socialismo
desses países, numha palavra, nom ruiu polas pressons do imperialismo,
que nunca deixárom de existir, mas pola contra-revoluçom que
estava dentro e ocupava as mais altas hierarquias da burocracia civil e militar.
O inimigo, portanto, estava no interior, e aqueles e aquelas que o denunciárom,
pagárom a sua audácia com a vida ou a liberdade. Os que ordenárom
o silêncio à crítica som os mesmo que agora, no capitalismo
da Federaçom Russa ou dos países "ex-comunistas",
destacam como homens ricos e poderosos ou como sócios destes.
Por esta experiência,
cada vez mais conhecida, é que as declaraçons de Fidel Castro
e do seu chanceler Pérez Roque, ganham singular relevo. "Ou vencemos
esses problemas, ou entom morremos" é a chave do assunto. É
verdade que desde há anos se tenhem denunciado alguns problemas de
corrupçom e especulaçom com o mercado negro de bens e serviços;
e qe essas críticas fôrom desprezadas polo dirigentes governamentais,
ou polo menos nom se figérom públicos os reconhecimentos oficiais
desse fenómeno. Mas nom é tarde de mais que agora esses problemas
queiram ser corrigidos, e sem dúvida vam ser corrigidos, pois Fidel
Castro é, ainda, umha autoridade moral e política reconhecida
pola maioria do povo cubano, apesar da oposiçom que se tenha vido desenvolvendo,
e que nem toda é de direita.
Alguns cubanos,
dentro e fora do país, nomeadamente os segundos, quereriam que a ilha
voltasse para o capitalismo, e no período especial apostárom
nessa volta de porca. É natural que muita gente veja mais verde o pasto
do seu vizinho e que nem todo o mundo comungue com a ideia do socialismo.
Mas há outros cubanos, parece que a maioria, que nom pensa assim, que
querem o socialismo a sério, ao mesmo tempo que ansiam ver as suas
vantagens sem restriçons impostas tanto polo bloqueio estado-unidense
como por quem encontrou no sistema as formas de arranjar certos privilégios
mediante a corrupçom.
O bloqueio económico
dos Estados Unidos contra Cuba nom pode ser unilateralmente evitado polo Governo
de Castro, pois é um capricho irracional dos mandarins de Washington
desde há várias décadas. Mas os privilégios e
as desigualdades sociais derivadas de condutas imorais de quem, à sombra
do poder, tiram vantagens, é algo que sim pode ser combatido se existir
vocaçom de o fazer. E todo indica que esta sim existe e que se quer
corrigir o que, infelizmente, se deixou crescer por vários anos -pois
nom creio que tenha surgido de um dia para outro. Algo de novo vamos ver em
Cuba, e parece que será positivo.