Francisco Martins avalia figura política de Álvaro Cunhal

Em linha com o nosso habitual interesse pola actualidade política e história do vizinho povo português, reproduzimos um texto publicado no semanário Expresso após a morte do líder histórico do Partido Comunista, Álvaro Cunhal. O artigo é da autoria de quem foi um dos também históricos dirigentes do PCP na altura da ditadura, protagonista junto ao próprio Cunhal e outros oito opositores comunistas, da famosa fuga do castelo de Peniche, prisom de alta segurança salazarista.

Francisco Martins, autor do artigo que apresentamos, abandonaria a direcçom do PCP e o próprio partido na década de 60, mantendo até a actualidade a actividade e compromisso revolucionários. Solidário com a causa dos direitos nacionais da Galiza e amigo da esquerda independentista, dirige a revista comunista portuguesa Política Operária.

 

13 de Junho de 2005

No momento da morte de Álvaro Cunhal, nom vou juntar-me às expressons de "profundo pesar" institucional que chovem de todos os lados, sobretodo dos seus adversários políticos. Muito menos às frases feitas sobre a sua dureza, ambiçom, modéstia ou imodéstia, etc. Acho que o peso da sua figura merece umha apreciaçom política séria.

Em primeiro lugar, nom podo acompanhar os elogios das figuras gradas deste regime à "coerência" do falecido - elogios que apenas reflectem o desconforto perante um homem que chefiou a longa resistência dos comunistas à ditadura fascista e que, só pola sua presença, lhes atirava à cara a vergonha de nom terem feito o mesmo quando era preciso provar o amor à "Democracia" que estám sempre a proclamar.

Apesar do seu valor como antifascista, coerência é justamente a qualidade mais problemática na carreira política de Álvaro Cunhal. Ele foi, como todos sabem, admirador fervoroso da grande revoluçom conduzida por Lenine, mas também das misérias que vinhérom depois, com Staline, Krutchov, Brejnev… até o miserável desabar da URSS. E nunca explicou o que o levara a julgar socialista um regime onde os trabalhadores eram arregimentados.

Pior ainda a sua "coerência" na política interna: depois de ter apelado ao longo de décadas à "revoluçom", quando esta finalmente começou a desenhar-se, passou a bradar contra os "actos irresponsáveis". Pode dizer-se com justiça que Álvaro Cunhal contribuiu para fazer abortar a revoluçom que se esboçava em 74-75 no miserável forrobodó que por aí vai. Os burguesotes que o pintavam como um diabo vermelho bem lhe podem agradecer o favor que lhes fijo.

Nesse caso, porque teimam mesmo assim alguns em acusá-lo de que quis "tomar o poder"? Naturalmente, porque precisam de ter umha justificaçom para o infame golpe militar de 25 de Novembro. E sobretodo, porque, habituados a ver o movimento de massas como umha marioneta nas maos dos políticos, confundem o avanço irreprimível dos trabalhadores com planos tenebrosos da cúpula do PCP - a qual, na realidade se limitou a seguir a reboque da onda popular.

Promovem-no agora também a "homem de cultura". Para além do mérito que tenha a sua produçom literária e artística, acho difícil reconhecer valor cultural a um líder político que instituiu no seu partido o clima da ortodoxia, da aceitaçom obediente e do medo à crítica e que, pola extrema pobreza do seu pensamento político, formou toda umha escola de militantes convictos de que o marxismo é umha colectánea de fórmulas sagradas.

Álvaro Cunhal fica na história de Portugal nom como revolucionário (que nunca foi) mas como um anti-imperialista e um progressista de vistas curtas, que conseguiu a proeza de, sem se desacreditar perante os trabalhadores, poupar à burguesia o calvário de umha revoluçom. Nestes últimos trinta anos, o prestígio da sua carreira de resistente antifascista já nom era suficiente para apagar a falência de toda a sua política e os custos que esta acarretou para os explorados.

Toda a sua vida foi passada na busca de um meio-termo, capaz de acalmar a indignaçom dos pobres sem atemorizar as classes médias. Nom é umha qualidade honrosa para quem sempre se reivindicou do título de comunista.

Francisco Martins Rodrigues. Lisboa, 13 de Junho de 2005

 

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