Alguns pormenores sobre o defunto rei Fahd

3 de Agosto de 2005

Coincidindo com a morte, em dias passados, do ditador saudita, os soberanos e governantes do mundo capitalista dérom mais umha mostra da "firmeza" dos seus valores democráticos, fazendo coro de carpideiras polo falecimento de um autêntico monarca absolutista medieval que mantinha o seu país sob umha férrea ditadura.

Publicamos um artigo do jornalista Pascual Serrano, traduzido para o nosso idioma, em que apresenta as chaves para compreendermos as gabanças dos governantes capitalistas ao multimilionário ditador saudita.

 

Alguns pormenores sobre o defunto rei Fahd

Pascual Serrano

Morreu depois de umha longa doença o rei Fahd da Arábia Saudita. Fahd Ben Abdul-Aziz Al Saud, chefe de Estado e de governo de Arábia Saudita, governava seu país desde há vinte e três anos, ainda que tivesse delegado desde 1995 a maioria das funçons ao seu meio-irmao e agora herdeiro Abdalá bin Abdelaziz. A Uniom Europeia expressou o seu pesar pola morte do rei Fahd e salientou a "coragem e visom" com que governou a Arábia Saudita e a "amizade" que mostrou para a Europa. "Foi um homem com grande capacidade de liderança e visom que fijo muito polo seu país e seus cidadaos. Era também um grande amigo da Uniom Europeia", vincou a presidência británica através de um comunicado.

Também o Alto Representante para a Política Exterior e de Segurança Comum da Uniom Europeia, Javier Solana, enviou uma mensagem pessoal de condolências ao novo monarca de Arábia Saudita polo falecimento do rei Fahd. "O defunto rei governou a Arábia Saudita com coragem e visom numha época turbulenta e desafiante. A cordialidade e a amizade que mostrou para com a Uniom Europeia foi muito apreciada e será recordada", assinala a mensagem de pésame. "Confio em que sua sabedoria e bom juízo farám possível que as boas relaçons entre a UE e Arábia Saudita continuem e se fagam ainda mais profundas", escreveu Solana ao novo rei Abdalá.
O presidente da Comissom Europeia, José Manuel Durão Barroso, também remeteu a Arábia Saudita umha mensagem de pésames pola morte do rei Fahd e de felicitaçom ao seu sucessor.

O director gerente do Fundo Monetário Internacional, Rodrigo Rato, que se dixo muito "entristecido", elogiou o falecido rei Fahd e o considerou umha força chave para a moderaçom no rico reino petroleiro e para a estabilidade dos mercados mundiais.
O presidente espanhol José Luis Rodríguez Zapatero exprimiu as suas condolências e as do povo espanhol pola morte do rei Fahd, em dous telegramas enviados ao novo soberano. "Depois do seu dilatado reinado, a personalidade e trajectória da Sua Alteza o Rei Fahd ocupam já o destacado lugar que merece na memória do povo irmao de Espanha", di Zapatero nas suas missivas.

"Nestas horas de profunda tristeza, os espanhóis aderimos ao pesar de todos os cidadaos sauditas ante tam sensível perda", acrescenta o texto. O Governo espanhol decretou inclusive um dia de luto oficial e as bandeiras nos edifícios oficiais e os navios da Armada ondearám a média haste.

Com certeza, Juan Carlos de Bourbon, cuja família mantinha umha estreita amizade com a sua homóloga saudita, tem intençom de viajar à Arábia Saudita para expressar formalmente as condolências de Espanha pola morte do Rei Fahd.
Juan Carlos de Bourbon enviou hoje um telegrama de pesar e quijo fazer chegar "as suas mais sentidas condolências" em nome seu e de toda a família real, bem como do Governo e o povo espanhol. Também destacou os estreitos laços que o uniam ao rei Fahd, que chegou ao trono em 1982 depois da morte do seu meio-irmao o rei Jaled, estreitos vínculos de "afecto e amizade".

Os governantes que ditam as pautas de bons e maus no mundo aplaudem a este ditador que estivo mais de duas décadas como chefe de Estado sob umha monarquia absoluta medieval e que amassou umha fortuna pessoal de 30.000 milhons de dólares, enquanto condenam os governos que nom lhes compram armas nem lhes presenteiam suas riquezas naturais. O rei Fadh é diferente, o seu país dedica 12'8 % do Produto interior bruto a gastos de Defesa (Espanha destina 1'5 e a Alemanha 1'7), importaçons na sua maioria dos Estados Unidos. O seu petróleo, a diferença do do Iraque antes de ser invadido ou o da Venezuela, está em maos das multinacionais norte-americanas.

A última ocasiom que o ditador saudita visitou Espanha foi a 14 de Agosto de 2002; foi umha das suas temporadas de folga em Marbella. A notícia abordava-se nas páginas de sociedade dos meios de comunicaçom. Alguns dados de sua riqueza eram estes: umha corte real de três mil pessoas, jet privado mais outros três jumbos para os seus 400 familiares, 200 Mercedes, cinco milhons de pesetas de gasto diário, 500 telefones móveis...

Os meios espanhóis escrevêrom como pícaro episódio a existência de umha empresa inglesa que sortirá de raparigas aos acaudalados sauditas. Só o bochorno superava à indignaçom quando se lia isso.

As autoridades do "mundo democrático" recebiam-no com os braços abertos e gabavam-no até a exaustaçom, tal como agora o choram. Ainda lembro a fotografia da sua visita do ano 2002 com o delegado do governo, isto é o Governo espanhol, reverenciando-o na sua chegada ao aeroporto de Málaga. Umha dúzia de veículos das forças de segurança espanhola escoltavam-no até sua mansom. Ali o visitarom o rei de Espanha, o entom presidente espanhol José María Aznar e o secretário de Estado de EEUU, Colin Powell.

O rei da Arábia Saudita foi a Marbella para gastar em putas e champanhas trinta mil euros diários, enquanto no seu país a mortalidade infantil é de 23 por mil habitantes, similar à da Colômbia ou a Roménia, países com metade do PIB por habitante que Arábia Saudita. O Indice de Desenvolvimento Humano, cifra manejada polas NNUU para expressar o estado de bem-estar de um país, no feudo do ditador é similar ao do Brasil, Polónia ou México, países com um PIB por habitante de 5.000 dólares frente aos 9.700 da Arábia Saudita.

O dinheiro que dedica o rei Fahd para educar o seu povo nom chega para alfabetizar os 37% dos adultos, umha situaçom similar à dos Camarons e pior do que a da Tanzánia. A escolaridade em Arábia Saudita é similar à do Salvador ou a Albánia e muito menor do que a do Zimbabué.

Quanto aos direitos humanos, a situaçom na Arábia Saudita é apavorante. Um último relatório anual da Amnistia Internacional assinalava este país como o terceiro do mundo em executados por pena de morte, 79 pessoas durante o ano 2002 e 766 na década de noventa. Atrás dele vai o seu principal sócio internacional, os Estados Unidos. Entre os delitos que implicam pena de morte estám a sodomia e a "bruxaria". As execuçons fam-se mediante decapitaçom, às vezes em público. A maioria dos condenados costumam ser imigrantes pobres que em ocasions nom conhecem o idioma e nem sequer sabem que fôrom condenados à morte e nem eles nem os seus familiares conhecem com antecedência a data da execuçom.

Amnistia Internacional leva anos denunciando as detençons de alegados activistas políticos e religiosos e o secretismo sobre a situaçom legal dos detidos. No feudo de nosso difunto turista marbellí estám proibidos os partidos políticos, as eleiçons, os sindicatos, os colégios de advogados independentes e as organizaçons de direitos humanos. O sistema de justiça penal funciona a porta fechada, todos os meios de comunicaçom som censurados, o governo nom permite o acesso das organizaçons internacionais nom governamentais de direitos humanos. A tortura é a norma freqüente no sistema saudita. Amputaçons, flagelaçom e decapitaçom depois de julgamentos som umha paródia da justiça.

Em Maio de 2002, a Amnistia Internacional publicou o documento intitulado "Arábia Saudita: Ainda um terreno fertilizado para a tortura impune", em que denuncia que "apesar de que a Arábia Saudita passou a ser Estado Parte da Convençom contra a Tortura e Outros Tratos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes há mais de quatro anos, o país continua a ser caldo de cultura para a tortura, que se facilita e perpetua graças a diversos fatores, a saber: a ausência de uma proibiçom legal inequívoca que qualifique a tortura como delito, as deficiências graves do sistema de justiça penal, a prática (tanto judicial como extrajudicialmente) de castigos corporais que constituem tortura, a discriminaçom, de facto e de direito, de mulheres e trabalhadores estrangeiros, e a ausência de qualquer tipo de mecanismo de reparaçom credível. Todos estes factores institucionalizaram a tortura na Arábia Saudita durante décadas e dérom como resultado umha longa lista de vítimas, entre as que se contam homens, mulheres e crianças".

A repressom e marginalizaçom das mulheres sauditas nom tem nada a invejar ao regime talibám do Afeganistám. Na Arábia Saudita, as mulheres, quer sejam cidadas do país ou estrangeiras, ficam expostas a serem discriminadas por razom de sexo segundo as leis, normas sociais e tradiçons vigorantes no país. Os seus direitos civis, políticos e sociais som violados sistematicamente. A sua liberdade de circulaçom, por exemplo, está severamente limitada. Umha mulher precisa do permisso de um familiar varom para viajar ao estrangeiro. Nom só nom pode conduzir um automóvel, senom que, se passear sozinha ou acompanhada de um homem que nom seja o seu esposo nem um parente próximo, arrisca-se a ser detida por suspeita de prostituiçom ou "outros delitos morais". Estas restriçons da liberdade de circulaçom nom som a sua única limitaçom: as mulheres vem severamente restringido o desfrute de muitos outros direitos. Muitos terrenos continuam a estar-lhes vedados, especialmente no ámbito educativo e laboral. Na Arábia Saudita nengumha mulher desempenha o cargo de juiz e, com respeito à participaçom na vida política, se já está bastante limitada para a maioria dos cidadaos, para as mulheres é um terreno totalmente fechado.

A opiniom pública estremeceu-se a 11 de Março do ano 2002 quando 14 nenas perdêrom a vida e dezenas mais resultaram feridas ao se incendiar o colégio a que assistiam na Meca e impedir a polícia religiosa saudí (Al Mutawa'een) que escapassem do fogo porque nom levavam lenço para lhes cobrir a cabeça e por nom terem nengum familiar varom para as recolher. Os relatórios também indicam que a polícia religiosa impediu às equipas de resgate que entrassem no colégio porque eram homens e portanto nom podiam misturar-se com mulheres.

Nom creio que muitos destes dados sejam lembrados agora, com motivo de sua morte. O homem que ditava essas leis, geria os recursos desse país e assinava as sentenças de morte acaba de morrer provocando a tristeza e desolaçom dos líderes europeus e mundiais. Já sabemos que valores e princípios admiram os que governam o mundo.


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