«Nunca digas "nunca Hamas"»
2 de Fevereiro de 2006
O analista político basco Gabriel Ezkurdia, especialista em temas de política internacional, apresenta neste artigo algumhas das chaves para compreendermos a vitória de Hamas nas eleiçons legislativas palestinianas, bem como as vias que se abrem para a resoluçom do histórico conflito entre o povo da Palestina e o imperialismo ianque-sionista. O artigo foi publicado no diário basco Gara no passado dia 30 de Janeiro.
«Nunca digas "nunca Hamas"»
Gabriel Ezkurdia
O Ocidente "democrático" ficou perplexo. Proclive a abençoar os resultados de todo processo eleitoral, apesar de que no caso palestiniano se desenvolveu sob ocupaçom, os ocidentais sempre aplaudírom qualquer eleiçom que "vertebrar a democratizaçom" para o assentamento de possíveis governos-sucursal. Desta vez nom.
Apalermado porque de repente se desfijo o traiçoeiro cenário sobre o qual se tenhem ido "construindo todos os processos de paz do Oriente Médio" que tam bons réditos davam a Israel na sua expansom sem trégua, aos EUA na legitimaçom do seu discurso genérico antiterrorista e à UE no seu pequeno negócio com "as ajudas à ANP", base da sua falaz imagem de "criança bem-comportada", a quem "nom deixam fazer mais".
Acabou. Hamas,
o grupo que Israel instrumentalizou a modo de pequeno submarino durante a
primeira Intifada para enfraquecer as formaçons laicas e de esquerda
nacional palestinianas, que lideravam o levantamento, converteu-se pola calada
no legítimo interlocutor nacional da Resistência palestiniana,
a contragosto dos seus manipuladores de outrora.
A que denominam
como "organizaçom terrorista" é agora, muito apesar
de todos, quem vai marcar a praxe da agenda. E por isso, porque até
agora Hamas tem demonstrado umha capacidade de pragmatismo real, mas que nom
tem nada a ver com a renúncia aos princípios que se coloca como
"necessário pragmatismo", parece que para o tandem Israel-EUA
terminárom os tempos da ameaça coactiva "democrática"
para "negociar" sobre propostas mentirosas como as de Madrid ou
Oslo, nunca cumpridas. Acabárom os tempos em que os processos de paz
eram instrumentos tácticos para vertebrar novas fases expansivas sionistas
de "baixa intensidade" e mais álibis desmobilizadores em
prol do sempre iminente "Estado palestiniano" nos Territórios,
tam mentado que já nada di. Acabárom os tempos da manipulaçom
sharoniana em torno do desprestigiado e instrumentalizado "Roteiro"
que procurava a guerra interpalestiniana e a autodestruiçom da Resistência.
Agora, o povo palestiniano utilizou as "eleiçons votocráticas",
que sem qualquer garantia democrática a ANP convocava por imperativo
exógeno, para continuar "a gerir democraticamente" o esmorecente
e putrefacto desastre da ANP, na acçom mais "terrorista"
imaginável, dando ao verdadeiro "Estado" palestiniano, o
poder simbólico da ANP a Hamas, "a organizaçom terrorista".
O verdadeiro
Estado
Com efeito, Hamas
é o verdadeiro Estado palestiniano. O Estado em andamento, o que funciona,
com os seus impecáveis e nada sectários serviços sociais,
educativos, sanitários. Com as suas "forças armadas",
os seus relacionamentos internacionais, os seus tratados de cooperaçom.
Um Estado de facto, que na água da corrupçom generalizada da
ANP, da inoperáncia pseudoburocrática extrema, do entreguismo
conjunturalista dos líderes da velha guarda de Fatah, é puro
óleo impermeável. A impecável trajectória geral
de Hamas, o facto de que, pola primeira vez, aceite participar de pleno num
"processo eleitoral" em que nunca acreditou, e os esforços
mastodônticos dos "velhos de Fatah" por evitar como líder
máximo postarafatiano do popular e reivindicado preseo Marwan Barghouti,
única alternativa popular que podia ter feito sombra à esmagadora
maquinaria verde, fôrom as chaves do "atentado" eleitoral.
Hamas foi o voto útil que arrastou votos de muito diversos ámbitos
sociológicos e políticos, é a "OLP do século
XXI", mais homogénea, disciplinada e sobretodo teocrática.
E perante o novo cenário que regenera os parámetros reivindicativos
e de evoluçom de um hipotético "processo de paz" partindo
da nova interlocuçom que Hamas protagonizará, provavelmente
a partir de umha posiçom de convergência e concentraçom
nacional com outras forças resistentes, as interpretaçons ocidentais
continuam a ser pró-sionistas.
Deixando em evidência
o sistemático uso de dous pesos e duas medidas que dá por bons
uns resultados ou outros em funçom dos seus interesses, exigem renúncias
e ameaçam com retirar "fundos e ajudas" à ANP, insultando
assim o eleitorado palestiniano, que maciçamente aprovou os critérios
de interpretaçom que Hamas fai do conflito, e próximo do ridículo,
já cegos de prepotência, nom som conscientes de que Hamas já
tem recursos e ajudas internacionais estruturada como para atenuar esse propagandístico
"fim das ajuas europeias" e vertebrar assim a "nova ANP"
com outros financiamentos.
A vitória de Hamas é trascendental para a vertebraçom de um verdadeiro Processo de Paz, alheio à agenda e ao fracassado ciclo impositivo que após o 11-S tenhem protagonizado Israel e os EUA, com a sua lógica "preventiva", e que podemos intuir no caos iraquiano, o despropósito afegao, as "balas de festim" baratas contra o Irám e a própria evoluçom do Oriente Próximo. Por enquanto, nunca negociarám ou dialogarám com Hamas. No seu tempo, tampouco iriam fazê-lo com o sinistramente assassinado Arafat. Já agora, por quem teria ele votado?
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