Condenar Auschwitz, absolver Hiroshima

7 de Agosto de 2005

Ontem cumprírom-se 60 anos do maior ataque terrorista da história da humanidade, protagonizado polos Estados Unidos, que inaugurou a era atómica massacrando 140.000 pessoas na cidade japonesa de Hiroshima. Poucos dias depois, outras 130.000 morriam no segundo ataque nuclear ianque, em Nagasaki. Apresentamos a traduçom galega do brilhante artigo em que o filósofo Santiago Alba sintetiza a funçom e importáncia histórica dos ataques lançados pola única potência que até hoje utilizou armas nucleares de destruiçom massiva.

Condenar Auschwitz, absolver Hiroshima

Santiago Alba (publicado em Rebelión)

Pensar depois de Auschwitz, o que fica de Auschwitz, sobreviver a Auschwitz, nom esquecer Auschwitz, nunca mais Auschwitz: a questom ocidental, a seguir à segunda guerra mundial, de converter os lager (1) e o chamado Holocausto judeu numha fenda metafísica e num novo limiar cronológico, acontecimento do mal a partir do qual cumpriria voltar a pensar toda a história e de cujo horror a humanidade no seu conjunto (incluídas as outras numerosíssimas vítimas do nosso imperialismo) teriam de sentir-se culpadas, tem tido escasso efeito moral na barbárie quotidiana, salvo o muito duvidoso de dar a razom a Israel no seu violento anschluss (2) tribal da Palestina.

Mas tivo, sem dúvida, um efeito ideológico: o de fazer esquecer ou aceitar, com um estranhamente radical servilismo, as bombas de Hiroshima e Nagasaki, a 6 e 9 de Agosto de 1945, as quais constituem o primeiro dos acontecimentos verdadeiramente mundial da história do homem. De um jeito talvez esquemático, Costanzo Preve descreve muito bem os factos: "A humanidade produziu Auschwitz e pediu desculpa; produziu também Hiroshima e nom pediu perdom. Desta assimetria escandalosa nasce nom apenas a condiçom post-ocidental em que nos encontramos, como a legitimaçom ulterior de todos os bombardeios futuros, mais exactamente do Bombardeio como acçom legítima contraposto ao Campo de extermínio como acçom ilegítima". Muito pouco se tem pensado depois de Hiroshima e é muito o que resta dela. Enquanto nos horrorizamos umha e outra vez, numha saudável reacçom moral, ante as cámaras de gás, parece-nos natural continuarmos a ver normalmente sob esse modelo inaugurado de modo experimental em Gernika e que sobreviveu e sobrevive -como um novo meio ecológico do homem novo- os horrores condenados de Auschwitz: Camboja, Viet Nam, Panamá, Bagdad, Jugoslávia, outra vez Bagdad, Afeganistám, Faluja, Qaim. A carnificina horizontal de inocentes é um crime; a carnificina vertical de inocentes é natural, como a neve, ou se calhar divina, como esses aguilhons de fogo que destruírom Sodoma e Gomorra por ordem de um Iavé menos radicalmente bíblico do que os estado-unidenses, os quais nom acham nem que seja um Lot (3) -nem que seja um Noé- entre os habitantes de Faluja.

Porque -porque- condenamos Auschwitz e absolvemos Hiroshima? Porque nos fai pensar tanto Eichmann, com as suas virtudes assassinas, e tam pouco o coronel Thibet, aos mandos do Enola Gay, orgulhoso da sua acçom e pronto a repeti-la, homenageando polos seus concidadaos e condecorado polo seu governo? Que tenhem de extraordinário os lager, onde se exterminava rotineiramente outros povos, e que de antropologicamente normal a catedral atómica de fumo, baixo a qual, num raio de dous quilómetros, derretiam os corpos invisíveis dos japoneses? Antes de filosofar, simplifiquemos um bocadinho: a única diferença moral que existe entre Auschwitz e Hiroshima é que Hiroshima é o modelo eleito polo vencedor estado-unidense; a única diferença histórica é que Hiroshima continua vigorante. Por isso, porque é o nosso modelo e porque continuamos a utilizá-lo, convém esquecer Hiroshima e lembrar apenas Auschwitz.

Mas depois -digamo-los sem ambages- há muita mais cousa que pensar em Hiroshima do que em Auschwitz. A ninguém deveria resulta ofensiva, salvo ao homem mesmo, a afirmaçom de que os lager se inscrevem numha continuidade histórica de que só som, no máximo, a sua conclusom industrial: decenas de povos, pior protegidos -se isso for possível- do que os judeus, desaparecêrom da terra nos últimos 10.000 anos, reunidos, transferidos e apanhados como gado antes de ser riseiramente aniquilados polo inimigo (a Bíblia mesma conta-nos como a tribo de Gad acabou com todos os membros da de Efraim após indentificá-los um por um por umha diferença de pronúncia).

Face à prática antiquíssima, dolorosamente descrita por Primo Levi (4), de desumanizar prisioneiros de Auschwitz antes de os matar, para tornar assim mais fácil ou mais justo o seu extermínio, há algo radicalmente novo, por muito que nos tenhamos afeito, na desontologizaçom absoluta das vítimas do bombardeio, privadas de existência de umha vez e retrospectivamente por umha força cadente e imparcial que nem sequer as numera.

Face à antiquíssima maldade banal de Eichmann (5), rigoroso contável e fiel subordinado, que em nada se diferencia da estrita racionalidade e diminuto moralismo dos tratantes de escravos (ver alguns exemplos in Os negros escravos, de Fernando Ortiz), há também qualquer cousa radicalmente nova na figura de Thibet, ou na desse piloto maravilhado que julgava "enfeitar umha árvore de Natal" enquanto deixava cair os seus mísseis sobre Bagdad: o problema do mal é muito menos enigmático e, em todo o caso, muito mais velho do que este outro, descendente do Bombardeio, da ausência de mal como fonte de destruiçom. Já nom se trata de como o mal infiltra ou constrói a sua própria normalidade, mas de como a normalidade mesma -a inocência mais inatacável- destrói o universo através de umha janela. A normalidade governa o lager; a normalidade (ou nom-bondade) bombardeia.

Face à velha e familiar destruiçom particular (contra os comunistas, contra os homossexuais, contra os judeus) do lager, a bomba de Hiroshima introduz a virtualidade de umha destruiçom total, de um verdadeiro Holocausto no seu sentido etimológico, um extermínio geral que apagaria as fronteiras entre vítima e carrasco e entre morte natural e morte nom-natural: o uso de facto desde 1945 de armas radioactivas (o uránio empobrecido, por exemplo) instalou já a ameaça, como umha larva, nas condiçons mesmas da vida biológica, o ar, a água, a cadeia alimentar, de maneira que a normalidade mesma torna nom só criminosa, mas também suicida. Por isso Gunther Anders, um dos poucos filósofos que pensou depois de Hiroshima, podia escrever em 1958 acerca das duas bombas atómicas lançadas sobre o Japom como produtoras de um homem novo e fundadoras de umha época radicalmente distinta, sem precedentes e sem volta atrás: do "todos os homens som mortais" do estado natural e do "todos homens som elimináveis" do lager passou-se, sem possibilidade de retorno, à premissa silogística da nova era: "a humanidade inteira é eliminável". Podemos dizer, de facto, que a humanidade nom existia antes de Hiroshima; podemos dizer que a Humanidade nom produziu Hiroshima, senom que é um produto dela: antes havia classes, naçons, indivíduos e a Humanidade consituía escassamente o Sujeito ilusório sob o qual se tentava borrar diferenças irreconciliáveis. A bomba atómica lançada sobre Hiroshima, com a sua latência de Holocausto, constitui a Humanidade pola primeira vez, mas como objecto de ameaça, como unidade negativa susceptível de destruiçom. Nem a globalizaçom nem a televisom nem a revoluçom tecnológica: desde 6 de Agosto de 1945 existe a Humanidade; desde 6 de Agosto de 1945 -muito antes da invençom da Internet- todos vivemos já no mesmo mundo. E só porque esse mundo, dure o que durar, estará sempre à beira de desaparecer.

Eis a novidade de Hiroshima, universalmente vigorante, face à caduca modernidade de Auschwitz, cujo totalitarismo de baixa intensidade ainda encontra ilhéus onde ficar enquistado e se reproduzir sem resistência (Guantánamo, Abu Gharaib, os gulag flutuantes da CIA) à espera de o Terror difuso e geral legitimar novamente o seu uso contra o Mal. O destino do mundo, se nom o evitarmos antes, é que Auschwitz e Hiroshima se unam num último abraço e fundam de vez as excelências, vertical e horizontal, do Bombardeio e do Campo.

Hiroshima, como bem demonstrou Jacque Pauwels, foi o primeiro acto da Guerra Fria, a qual tivo ao menos a virtude de congelar a ameaça mediante o aumento mesmo dos seus meios de destruiçom. Hiroshima, por isso mesmo, é a terrível metáfora da hybris (6) capitalista e da sua capacidade ilimitada para multiplicar os seus meios sem aumentar os seus efeitos (mais alimentos e a mesma fame, mais bombas e o mesmo dano total). Hiroshima é também, como sugere Fennell, o limiar de umha nova época post-ocidental que, ao condenar os lager e absolver a bomba atómica, abandona de vez toda ilusom de humanismo (difusamente substituído, como na Roma imperial, por um funcional e despectivo humanitarismo).

Hiroshima, finalmente, é o paradoxal acto inaugural de umha época sem medo: a mesma bomba que obrigou e obriga os homens a assumirem a mortalidade como espécie (e nom apenas já como indivíduos) abriu em Ocidente em 1945 um período -que sobrevive a todas as evidências contra- marcado pola ilusom de crescimento ilimitado e de imortalidade garantida. Contra o destino humano revelado, como um Deus bíblico, no fungo da bomba estado-unidense, a nossa normalidade -se nom já de pensamento- continua a ser muito ocidental e teimar em ser normal nestas circunstáncias é votar de facto em favor simultaneamente do Bombardeio e dos lager.

O propósito deve ser, portanto, o de conquistar umha normalidade post ou para-ocidental. Ainda há classes: a classe dos que vem o perigo e a classe dos que nom querem vê-lo. Esta luita de classes, que nom por acaso continua a ser a do Manifesto Comunista, é a luita por resgatar a Humanidade -mortalmente Una- ao mesmo tempo da injustiça e da extinçom.

Notas da ediçom digital galega

(1) Lager: campos de concentraçom nazis

(2) Anschluss: em alemám, "anexaçom", parte da política imperialista praticada polo III Reich na Europa.

(3) Lot: único sobrevivente de Sodoma e Gomorra após a destruiçom ordenada por Iavé, em prémio à sua defesa de dous anjos ameaçados polos habitantes de Sodoma, "a cidade do pecado".

(4) Primo Levi: judeu italiano libertado de Auschwitz polo Exército Vermelho, na sua obra escrita descreveu os horrores do extermínio nazi nos lager

(5) Karl Adolf Eichmann: Tenente-Coronel da SS e Chefe da Gestapo para assuntos de judeus, organizador das deportaçons massivas aos campos de concentraçom. Fugido a Buenos Aires, acaba sendo apanhado polos serviços secretos israelitas e executado em Jerusalém a 31 de Maio de 1962.

(6) Hybris: na mitologia grega, soberba, falta de medida, prepotência

 

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Imagem da explosom da bomba atómica largada polo exército norte-americano sobre a cidade de Hiroshima, a 6 de Agosto de 1945, que fijo 140.000 vítimas mortais