O sonho fai-se à mao e sem permissom: intervençom de Igor Lugris nas X Jornadas Independentistas Galegas

28 de Março de 2006

Intervençom nas X Jornadas Independentistas Galegas: Desafios e necessidades da esquerda do século XXI

Igor Lugris, membro da Direcçom Nacional de NÓS-Unidade Popular e activista cultural no Berzo, apresenta-nos a transcriçom da sua intervençom na sessom da manhá das X Jornadas Independentistas Galegas em que reflecte sobre o conceito e realidade de esquerda.

Igor Lugris, 18 de Março 2006. Compostela.

1.- De que falamos quando falamos de esquerda? Como é que seguimos a empregar um termo que significa tam pouco, à força de significar tantas cousas? Di o título destas Jornadas "Desafios e necessidades da esquerda do século XXI". Mas de que falamos? De que esquerda falamos? É ainda útil este significante?. Tendo em conta que abaixo deste guarda-chuva cabem, para resumir, desde o PSOE até o soberanismo socialista galego, que hoje existe dividido entre diversas forças como NÓS-UP, passando polo BNG, e as sucursuais galegas doutras forças estatais, para nom falarmos também de outras forças sociais, sindicais, etc... de que nos serve empregar ainda esta categoria?.

Um dos mais, ou se calhar o mais importante desafio, e a mais urgente necessidade que tem a esquerda, neste século XXI, é o que se situa à volta da sua própria identidade. O que é que é a esquerda, o que é que significa o termo "esquerda", para que realidade remete, o que queremos dizer quando falamos em termos de "esquerda".

2.- O termo "esquerda", no sentido político, surgiu em França, quando nos Estados Gerais franceses de 1789, o entom chamado "Terceiro Estado" ocupava os lugares situados à esquerda do rei, dado que os representantes da nobreza e do clero ocupavam o lugar situado à direita. Esta simples distinçom espacial, acabou por ser umha distinçom política, opondo assim progressistas e conservadores, a partir de entom nominados como de esquerdas ou de direitas, respeitivamente. Ainda hoje algumhas definiçons de esquerda fam referência a este primário significado político, e assim, por exemplo, o dicionário electrónico e-Estraviz, na terceira acepçom de esquerda explica que é a "parte de uma assembleia que toma lugar à esquerda do presidente e representa as tendências mais avançadas".

Outros dicionários oferecem umha definiçom mais política, e o da Academia Galega editado por Xerais e Galaxia, na sua 4 acepçom di que esquerda é a "colectividade política de carácter reformista e nom conservador". Outros optam por oferecer ambas as definiçons. O da Porto Editora di-nos, como terceiro significado, que esquerda é o "grupo político partidário da doutrina socialista ou comunista", mas também recolhe que é a "parte dumha assembleia que toma lugar à esquerda do presidente". E o dicionário on-line Priberam recolhe um signficado mais restrito dizendo que é o "grupo parlamentar que se senta à esquerda do presidente", como se nom pudesse existir outra política além da parlamentar, e acrescenta também que o termo pode ser referido ao "grupo político ou intelectual cuja ideologia é progressista, quando comparada com a de outros grupos". Interessante definiçom esta última por quanto entra em cheio numha parte importante da questom: "grupo político ou intelectual cuja ideologia é progressista, quando comparada com a de outros grupos". É claro que algumhas organizaçons só podem ser tidas por progressistas ou de esquerda quando comparadas com organizaçons declaradamente de direita.

Ainda mais, muitas vezes, a única forma de sabermos se umha organizaçom ou umha pessoa é de esquerda, é comparando-a com umha outra organizaçom ou pessoa de direita. Porque quando essa comparaçom se fai entre organizaçons e pessoas de esquerda, o único que sabemos é que ficamos como estávamos.

3.- Sentei na casa diante do computador, liguei-no, liguei-me à internet e procurei num buscador a frase que dá título a estas jornadas "Desafios e necessidades da esquerda do século XXI". Em menos de um segundo, pudem ver que ante mim se abria a possibilidade de aceder a mais de cem mil páginas que faziam referência, dumha ou outra forma, a essa frase. Já todas e todos sabemos que na rede podemos encontrar de todo, e que escrever num buscador qualquer palavra (mesmo que muitas vezes sejam palavras inventadas) e nom conseguir que apareça nengum resultado é practicamente impossível. Ainda assim, a existência dessas mais de cem mil entradas, evidencia o que também todas e todos sabemos: que existe um debate, ou por melhor expresá-lo, que existem e co-existem muitos debates paralelos, algumhas vezes entremesclando-se, outras ignorando-se, sobre a esquerda, o seu presente e o seu futuro: o que é, o que deve ser, o que foi até agora e o o que será proximamente, etc...

Mas esse debate nom é novo, também o sabemos. É impossível percorrer a história do século XIX e do século XX (por nom viajarmos mais atrás no tempo) sem atender ao debate que sobre a sua própria identidade realiza a esquerda e as suas muito diversas e variadas expressons existentes ao longo desses anos. É umha característica própria, inerente, da esquerda. Nos seus genes leva escrito a necessidade de sempre estar a reflectir sobre ela própria.

4.- Infelizmente, esta necessidade da esquerda para estar sempre a interrogar-se sobre si própria, deu lugar nos últimos anos do século passado, a um debate que foi construído sob a influência da crise ideológica e política a que deu lugar a queda do muro de Berlim, primeiro, com todo o que isso simbolizava, e à dessapariçom, depois, da Uniom de Repúblicas Socialistas Soviéticas e os demais estados denominados "socialistas" da Europa do Leste, com todo o que isso significou. A mescla de medo ao abismo que entom se abriu abaixo dos pés da esquerda, a desesperança, o pessimismo, provocou, dum modo inconsciente em muitas ocasions e plenamente consciente em outras muitas, um lamentável processo de autodestruiçom de grande parte da esquerda a nível mundial. Dia a dia, entravam em crise, em diversos pontos do planeta, todo o tipo de organizaçons comunistas, revolucionárias, marxistas, radicais, alternativas,... Parecia que o muro de Berlim tivesse caído directamente sobre essas organizaçons e, sobretodo, sobre as pessoas que dirigiam e conformavam essas organizaçons, que, seguindo as palavras de ordem de "Chegou o fim da história" e "Nom há futuro", lançavam-se de cabeça a nadar, no melhor dos casos, nas águas do muito mais atractivo mundo das ONG's ante o medo a ter que nadar na areia, quando nom optavam, decididamente, polas cómodas piscinas do sistema estabelecido e realmente existente, o capitalismo. Muitas vezes, muitas mais das que a simples vista poderíamos pensar, a atitude predominante naqueles sectores de esquerda dos anos 60 e 70 foi "repensar" -por dizê-lo de algum modo- a esquerda a partir de ideias que implicavam renunciar à transformaçom e aos objectivos dumha mudança radical do sistema.

Som muitas as vezes que temos visto pessoas a fazerem parte de organizaçons de esquerda (nem só políticas, também sociais, sindicais...) que um bom dia começam a deixar de sentar-se à esquerda e pouco a pouco vam abandonando posturas transformadoras até que um bom dia as escuitas dizer, ou lhes lês umha entrevista nalgum meio de propaganda do sistema, na qual dim isso de que "cada vez a palavra esquerda significa menos para mim". Tem muitas variantes a frase, e alguns acrescentam, junto com a palavra esquerda, outros termos como "nacionalismo", "independentismo", "revoluçom", etc...

Mas a palavra esquerda continua a significar o mesmo, segue a significar muitas cousas, tal vez mesmo cada dia signifique mais cousas que o dia anterior. Nom é a palavra que mudou, nom é que perda significado nem sentido. Som essas pessoas que mudárom, que perdêrom o sentido. Som essas pessoas que optam por abandonarem a incómoda luita transformadora para ocuparem, primeiro, os cómodos gabinetes da política pretensamente reformista, e, depois, os muito agradáveis postos nas instituiçons burguesas. Lembremos que umha das definiçons vistas anteriormente dizia que a esquerda era a "colectividade política de carácter reformista e nom conservador". Mas quando a esquerda começa a percorrer o caminho do reformismo para ir abandonando a ideia da transformaçom, entom, podemos ter certeza que essa esquerda começa a deixar de sentar-se à esquerda para se ir achegando dos cadeirons que oferece a direita. Já o di a tradiçom oral: "achegar, acheguei-me, fum-me achegando..."

5.- Aceitemos que actualmente ainda pode ser definida a "esquerda" como aquela corrente política, formada por pessoas, colectivos e organizaçons, que se situam acarom do povo, das trabalhadoras e dos trabalhadores, das clases populares, das pessoas oprimidas, na luita pola igualdade.

A esquerda, recolhendo o significado primeiro que tivo naqueles Estados Gerais de 1789, seria, agora igual que entom, a promotora, a defensora, a impulsora daquela palavra de ordem revolucionária, tam revolucionária entom como agora: "Liberdade, igualdade, fraternidade".

A liberdade é a ausência de submissom, de servidom, quer dizer, a independência: do ser humano, dos povos, das naçons. A igualdade é a nom existência de diferenças entre indivíduos, entre povos, entre naçons. A fraternidade é a relaçom de igualdade, de irmandade, que se estabelece com os semelhantes com os que vivemos em comunidade. Podemos asegurar, que de nom ser porque está escrito e fai parte da história, hoje haveria quem consideraria que defender o artigo primeiro da Declaraçom Universal dos Direitos Humanos seria umha mostra de utopismo, de falta de realismo, de pouca seriedade, de nom aceitar as regras que hoje em dia marcam o rumo do mundo capitalista existente, de nom ter os pês na terra: "Todos os homens -deveria dizer também: todas as mulheres- nascem livres e iguais em dignidade e direitos. Estam dotados de razom e de consciência e devem agir uns para com @s outr@s em espírito de fraternidade".

Mas se esse artigo pode parecer mesmo subversivo a olhos de algumhas mentes bem-pensantes, que dizer doutros como por exemplo o quarto, que di que "ninguém será mantido em escravitura ou servidom; a escravatura e o tráfico de escravos serám proibidos em todas as suas formas", ou o quinto: "ninguém será submetido a tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante". E, para pôr um último exemplo, citaremos o artigo vinte e três, que estabelece que: "1º. Toda pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condiçons justas e favoráveis de trabalho e à proteçom contra o desemprego. 2º Toda pessoa, sem qualquer distinçom, tem direito a igual remuneraçom por igual trabalho. 3º Toda pessoa que trabalha tem direito a umha remuneraçom justa e satisfatória, que lhe assegure, assim como à sua família, umha existência compatível com a dignidade humana, e a que se acrescentarám, se for necessário, outros meios de protecçom social. 4º Toda pessoa tem direito a organizar sindicatos e a neles ingressar para a proteçom dos seus interesses". Nem som necessários os comentários.

E o lido nom é, já o sabedes, nengum programa maximalista de nengumha organizaçom revolucionária, comunista, marxista ou anarquista. O lido som artigos da Declaraçom Universal dos Direitos Humanos adoptada e proclama pola Assembleia Geral das Naçons Unidas na sua resoluçom 217 A (III), de 10 de Dezembro de 1948. Todos ou praticamente todos os Estados que nom mundo som hoje em dia subscrevem esta declaraçom, ainda que nengum ou praticamente nengum a respeite completamente e muitos prefiram simplesmente ignorá-la, senom para o comum da sua populaçom, sim para partes muito significativas da mesma, como podem ser as pessoas emigrantes, as pessoas presas, @s independentistas etc...

6.- A esquerda precisa seguir na procura da sua razom de ser, do sentido da sua existência, na luita pola justiça. E essa justiça é a que se constrói sobre a liberdade, a igualdade e a fraternidade, porque é umha justiça para a humanidade, para todos os homens e para todas as mulheres. A prática política da esquerda, as suas ideias, os seus projectos, as suas iniciativas, só podem ser entendidas, só podem ter sentido aceitando que o que se pretende é a justiça para o ser humano, e nom só a liberdade para umha pequena parte da humanidade, a igualdade para uns quantos milhons de eleitos do mundo ocidental e a fraternidade entre os privilegiados.

Mas é a injustiça a que reina no mundo. Milhons e milhons de pessoas sofrem e nem tam sequer tenhem a esperança de poderem solucionar as suas mais urgentes necessidades, sem direito a umha vida digna, a um trabalho digno, a umha educaçom e sanidade que garanta o seu presente e permita o seu futuro. Para eles, para elas, sobretodo para elas, nom há liberdade, nem mais igualdade que a que os fai ser igual que os seus irmaos na injustiça, mas sabendo que nunca jamais poderám ser iguais que aqueles que, comodamente, dos gabinetes das empresas e os governos, decidem se poderam malviver uns anos mais ou deverám morrer já mesmo. A fraternidade, a palavra de ordem mais esquecida, é entom o que deve chamar a esquerda à acçom. A acçom, a acçom transformadora, quer dizer, aquela destinada a transformar o mundo, é necessária porque ainda há injustiça, porque a pobreza pode e deve ser erradicada, porque existe a discriminaçom, porque a luita de classes ainda está presente, porque devemos pôr fim à destruiçom do meio ambiente, porque os povos oprimidos tenhem direito a se libertarem e a empregarem nessa luita todos os meios que considerarem oportunos, etc... Estas razons, junto com outras muitas, som suficientes para querermos que o mundo seja distinto, para querermos construir um outro mundo, para acreditarmos que um outro mundo é possível.

7.- Dixo Lenine que os seres humanos sempre fôrom vítimas do engano e a quimera, e que o seguiriam sendo enquanto nom aprendessem a descobrir quais som os interesses de classe que se ocultam por trás das frases, as declaraçons e as promessas morais, religiosas, políticas e sociais. E isso continua a ser umha grande verdade.

Umha boa parte das organizaçons e as pessoas que se autodenominam "de esquerda", ou "progressistas", ou mesmo "socialistas", seguem a fazer jogos de palavras, a lançar discursos ao sol, a entreter-se com jogos florais e batalhinhas dialécticas inofensivas e inócuas, para aparentarem e fazerem pensar que som o que realmente nom som. Por isso é fundamental que construamos umha definiçom de esquerda que faga funcional esse termo, e que evite que se converta (se é que nom se converteu já) num termo que signifique tantas cousas que praticamente nom signifique nada.

Nom pode ser que esquerda signifique o mesmo que direita. Nom pode ser que esquerda seja defender a NATO, a Uniom Europeia ou Banco Mundial. Nom pode ser que esquerda signifique contribuir para manter com a prática diária o modelo patriarcal de sociedade. Nom pode ser que esquerda signifique defender a legitimidade dum estado imperialista construído sobre as bases do franquismo. Nom pode ser que esquerda signifique negar o direito de autodeterminaçom às naçons sem Estado da Península Ibérica, e mesmo negar a própria existência de tal direito. Nom pode ser que esquerda signifique defender a monarquia, os privilégios senhoriais, o exército ou as desigualdades sociais. Nom pode ser que esquerda signifique aplaudir ao opressor e reprender ao oprimido quando se defende, por citarmos só alguns exemplos de posturas mantidas por organizaçons, mais ou menos maioritárias, que conhecemos bem.

8.- Nom existe um receituário de aquilo que seja ou nom de esquerda. Ninguém conhece as cento e umha receitas mágicas para construir a esquerda, e melhor assim. A esquerda deve seguir a construir-se como sempre se construiu: nom de cima para baixo, mas de baixo para cima. A partir da realidade, da práctica diária, do compromisso intransigente com a justiça, com a dignidade, com a liberdade em todos os terrenos e em todos os campos de acçom. A partir da rua, dos centros de trabalho, das escolas e universidades, e nom das cátedras, dos parlamentos ou dos púlpitos pagos polo sistema para tranquilizar algumhas consciências. Entre todos, entre todas, como sempre foi feito, devemos continuar a construir a esquerda, para, como di a cançom, bater no lume sagrado como ferreiros dum mundo melhor. Um outro mundo. Porque, e isto já está escrito em muitos sítios, falta talvez escrevê-lo novamente nas paredes das nossas ruas, o realmente revolucionário, o realmente imaginativo e transformador, nom é pedir o impossível, mas construir aquilo que é necessário. E a esquerda continua a ser necessária, porque a história nem se repete nem acabou e devemos seguir adiante.

O que sucede é que aquela velha ideia, pobre ideia, de que o socialismo ou o marxismo eram umha ciência capaz de predizer o futuro nom pode ser o guia que empreguemos. Hoje sabemos (possivelmente há vinte, trinta, quarenta anos também o sabiam, mas as dirigências das organizaçons de esquerda preferiam ignorá-lo), que a queda do capitalismo nom é inevitável, e ainda mais: sabemos que o que venha depois do capitalismo, do capitalismo que hoje conhecemos, nom tem porque ser obrigatoriamente melhor, pode ser, tem muitas possibilidades para ser, infinitamente pior. Pior, claro, para as grandes maiorias sociais, para o povo trabalhador, para as mulheres, para os jovens, para os povos asobalhados, para as pequenas naçons que luitam pola sua liberdade.

9.- Isso é o que fai precisamente necessária e imprescindível a luita da esquerda. Nom há que luitar porque a vitória seja segura: há que luitar porque a vitória é necessária mas nom é o único futuro possível. O capitalismo nom leva no seu ADN os genes da autodestruiçom, o capitalismo nunca jamais se vai suicidar. Profetizar, como figérom umha boa parte dos partidos comunistas e socialistas de meados e finais do século passado, também na Galiza, que o advento do paraíso comunista era questom de tempo, que o mundo, que o capitalismo, caminhava para esse futuro irremediavelmente, foi umha das causas da derrota da esquerda e da desapariçom ou corrupçom da maior parte daquela esquerda.

10.- A esquerda nom pode fazer seu esse velho discurso rançoso, devedor de seculares imposiçons religiosas, de esperança numha idílica vida futura. A esquerda deve caminhar convencendo-se de que um futuro distinto e melhor só pode ser construído com base na solidariedade, na justiça, na resistência, na liberdade, na intransigente negaçom da validez do actual sistema,... Enfim: na firme e insubornável decisom de mudar, de transformar a sociedade, contando só com as próprias forças e nom aguardando umha intervençom divina, sobrenatural ou alheia. O socialismo continua a ser o velho sonho da humanidade oprimida.

Nós todas, nós todos, devemos ser os protagonistas, @s primeiros combatentes, da nossa história, sem pedirmos licença a ninguém para caminharmos, porque, como di a cançom de Sílvio Rodríguez, "o sonho fai-se a mao e sem permissom".

 

:: Especial X Jornadas Independentistas Galegas

 

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