Intervençom da AMC no Debate Futuro e perspectivas do feminismo galego

Intervençom da AMC no Debate Futuro e perspectivas do feminismo galego

Ponte Areas, 4 de Março de 2006

Para traçar sinteticamente o modelo de feminismo, assim como os mais importantes reptos e desafios que tem o movimento social em defesa dos interesses das mulheres trabalhadoras galegas, vou realizar umha radiografia do nosso colectivo que contribuirá para dar a conhecer e esclarecer o que somos a Assembleia de Mulheres do Condado e que modelo de feminismo defendemos.

1- A AMC é um colectivo comarcal cujo ámbito de intervençom é umha comarca semi-rural, muito envelhecida, com forte estigma e influência do catolicismo e das mais diversas expressons do caciqusmo.

A diferença da prática totalidade das organizaçons feministas galegas, nom agimos estritamente sobre um espaço urbano.

Que nós saibamos, no Condado nunca houvo, desde o franquismo, umha organizaçom de mulheres feministas. Somos pioneiras nesta tarefa.

Desde o primeiro momento, o nosso nascimento nom sentou bem entre a maioria dos homens, inclusive entre aqueles que se declaram de esquerda e comprometidos com a emancipaçom das mulheres. Que as mulheres nos auto-organizemos, tenhamos espaços próprios de debate e intervençom, nom é entendido, nem digerido pola maioria dos homens. Mas também, seria absurdo negá-lo, também nos movemos, e seguimos movendo-nos, entre a incompreensom de muitas mulheres tam profundamente alienadas polo sistema, que assumem os piores tópicos da ideologia machista e patriarcal.

2- Somos um colectivo novo, com menos de três anos de vida. Nascemos a inícios do Verao de 2003; porém, temos umha intensa trajectória que tem atingido certa referencialidade nacional. Para o sucesso da nossa génese, temos estudado diferentes experiências do feminismo galego e de outros ámbitos. A reflexom, estudo e debate teórico tem sido umha das nossas preocupaçons.

3- As nossas principais características como colectivo feminista é a de um grupo de mulheres jovens conformado basicamente por trabalhadoras e estudantes. Aqui também radica outro particular perfil que nos diferença da maioria do feminismo hegemónico na Galiza.

A maioria do feminismo na Galiza está a dia de hoje excessivamente institucionalizado, mediatizado polos partidos sistémicos.

Actualmente corre o risco de ser fagocitado polas instituiçons com subsídios milionários, infraestruturas, e com a cooptaçom de parte das suas quadros e mulheres referenciais. As instituiçons só pretendem neutralizar os movimentos sociais, integrando-os, polindo o seu perfil transformador.

Este é um dos perigos mais imediatos que temos que superar para evitarmos ser devoradas polos virtuais meles das promessas e postos que ofertam concelhos, ministérios e conselharias.

O feminismo galego, como o da maioria de ocidente, é um feminismo dirigido a esse sector de mulheres que podemos qualificar como classes médias: as funcionárias. Portanto, recolhe as suas particulares preocupaçons e modelos organizativos. Um feminismo dirigido a um reduzido sector de mulheres, que a diferença da imensa maioria das que conformamos o povo trabalhador, tem atingido umha segurança laboral e uns relativamente bons salários. Isto permite compreender que seja um feminismo ideologicamente diluído, moderado nas formas, pouco comprometido com os direitos nacionais da Galiza e as reivindicaçons das mulheres trabalhadoras, com as suas condiçons materiais de existência.

Um feminismo que pretende satisfazer todo o mundo, que evita chamar as cousas polo seu nome, que foge da denúncia e a acçom directa.

Quando realizamos, em Janeiro de 2005, a concentraçom das Neves contra as violaçons, achamos em falta as siglas hegemónicas a nível nacional. Nom aparecêrom, embora teoricamente estivessem em campanha contra as agressons machistas.

Lamentamos que às vezes este feminismo manifeste alergia à rua, e à denúncia concreta sobre situaçons concretas. Semelha que preferem emitir um comunicado via correio electrónico em solidariedade com as vítimas de Ciudad Juárez que denunciar o que acontece com as do seu bairro ou comarca.

4- A AMC carece de meios económicos, de grande infraestrutura, basicamente pola nossa composiçom de classe, e porque nom temos apoio institucional. Desde a abertura deste Local Social, do Baiuca Veremelha, sim contamos com algo tam simples, mas que nom sempre é fácil de ter, como um espaço para realizar actividades, sem submetimento da arbitrariedade e caprichos institucionais.

5- O nosso principal espaço de intervençom é a rua, a conscientizaçom e movimentaçom social das mulheres, -e também dos homems-, empregando os métodos clássicos de agitaçom e propaganda, ou seja, seguimos fazendo pintadas, murais, colando cartazes, distribuindo panfletos, convocando concentraçons, impulsionando mobilizaçons; mas também combinamos isto com a apresentaçom de moçons e propostas aos concelhos, dando apoio jurídico às mulheres agredidas polo machismo, organizando ciclos de cinema feminista, certames literários, palestras e debates como o que hoje nos reúne aqui. Em 2004 convocamos umha maratona feminina, no que provavelmente foi a primeira iniciativa deste género realizada na Galiza.

A movimentaçom das mulheres, a luita organizada, é vital para ganharmos espaço, para conquistarmos direitos, para fazer frente ao machismo, para lhe pararmos os pés.

Somos pois, ou polo menos pretendemos ser, ante todo um feminismo de combate, que intervém nos problemas concretos e reais, que nom se dedica a denunciar o machismo em abstracto.

6- Desde praticamente o nosso nascimento, a denúncia da violência machista tem sido o fio condutor da actividade. Perante cada morte dumha mulher na Galiza, realizamos umha concentraçom diante do Concelho de Ponte Areas. Este ano 2006 lamentavelmente já tivemos que sair à rua por Águeda e Argelia.

Apoiando sem reservas Rosa e Vanessa, e portanto denunciando com nomes e apelidos o terror que o violador das Neves José Luís Esteves sementou durante anos na nossa comarca, logramos demonstrar que com silêncio e resignaçom só estamos contribuindo para perpetuar práticas que nom só vemos na televisom, sendo habituais nas nossas aldeias, bairros, centros de ensino e de trabalho.

Temos modestamente aberto um caminho: realizamos a primeira concentraçom de mulheres na história das Neves e, simultaneamente, com a ajuda solidária de companheiras da esquerda independentista, e das Mulheres Transgredindo, ocupamos a Cámara Municipal durante o pleno, logrando que a corporaçom tivesse que respaldar Rosa, Vanessa e todas aquelas mulheres que até esse momento vinham sofrendo em silêncio, entre o sentimento de "culpabilidade" e a incompreensom social, umha dramática situaçom que deve ser erradicada do ámbito privado para lhe dar a dimensom pública que tem.

7- Porém, nom só nos temos centrado nesta questom. A denuncia e superaçom da opressom, marginalizaçom e exploraçom da imensa maioria das mulheres polo Capital e o Patriarcado, em aliança simbiótica, o que pretende denunciar a escala internacional o 8 de Março, Dia das Mulheres Trabalhadoras, e nom simplesmente das Dia das Mulheres, é a nossa razom de ser. Sabemos que isto nom é factível no actual quadro geral de opressom, o capitalismo; porém, somos conscientes que sim podemos atingir conquistas parciais, frear mais agressons e retrocessos.

A luita contra a marginalizaçom salarial das trabalhadoras em activo ou das pensionistas, contra a perda de direitos laborais e de género, polo reconhecimento salarial das trabalhadoras domésticas nom remuneradas, o que popularmente se conhece como donas de casa, é outro dos nossos específicos objectivos.

A participaçom e apoio à luita das trabalhadoras de AVIGAN assim o constatou.

8- Somos ante todo um colectivo feminista; no entanto, estamos conscientes que o feminismo em abstracto nom se pode aplicar, como tampouco fai sentido o ecologismo puro, ou o sindicalismo à margem da formaçom social sobre o que age. Como mulheres feministas galegas, nom podemos ser alheias à realidade do nosso país, Galiza, nem à situaçom da imensa maioria das mulheres galegas, pertencentes à classe trabalhadora. Eis porque somos um colectivo que tomou partido, que se declara sem complexos, nem ambigüidades, independentista e comprometido com a emancipaçom de classe, ou seja, com o socialismo. O feminismo na Galiza nom fai sentido se é pré-fabricado fora da nossa particular realidade.

9- Nestes três anos, temos denunciado a violência machista, empregando sem complexos, nem eufemismos, a formulaçom terrorismo machista frente à descafeinada violência de género do politicamente correcto. As cousas há que chamá-las polo seu nome. Nom por maquilhá-las asseguramos atingir mais referencialidade e introduçom social e, portanto, incidirmos na realidade que pretendemos mudar.

10- Todo isto nom tem sido em balde. Logramos atingir umha referencialidade na nossa comarca, somos um modesto, mas real, sujeito sociopolítico, que nom passa despercibido; reconhecido inclusivamente polas instituiçons municipais governadas pola direita e a extrema-direita. Contamos com a simpatia e o apoio de muitas mulheres e também de homens; com o respeito de forças políticas e organizaçons sociais.

Demonstramos sobre o terreno que se podem fazer cousas com audâcia e empenhamento.

Mas também, e isto é sintoma dos nossos modestos êxitos, temos que padecer a perseguiçom e repressom da Guarda Civil que, seguindo instruçons do Subdelegado do Governo espanhol em Ponte Vedra, Delfim Fernandes, do PSOE, pressionou diversos estabelecimentos comerciais e hoteleiros que colaboram connosco para que cessassem na distribuiçom da nossa propaganda: ou seja, para que nom permitam colocar os nossos cartazes.

A Guarda Civil persegue as nossas activistas mediante identificaçons e denúncias, aplicando multas administrativas e denúncias judiciais numha clara tentativa de intimidar-nos e criminalizar-nos para que renunciemos na defesa dos interesses as mulheres trabalhadoras do Condado.

A Guarda Civil e a Subdelegaçom do Governo espanhol, com esta prática, apoiam o violador das Neves e estigmatizam a valentia de Rosa e Vanessa na luita contra as violaçons.

Aqui podemos constatar na prática a hipocrisia e o cinismo dum partido que pretende hegemonizar a luita feminista. No Condado, o PSOE tem demonstrado que está do lado dos violadores, nom das mulheres que sofrêrom e sofrem umha das mais execráveis formas de terrorismo machista.

Para finalizar, a nossa experiência procura recuperar o feminismo hegemónico na Galiza há uns anos.

O que paulatinamente tem sido abandonado por fórmulas erróneas que tam só procuram influir nas instituiçons, deixando-se adular por falsas promesas. Nom queremos um feminismo fascinado polo parlamentarismo, um feminismo academicista e pactista, sob a direcçom da pequena-burguesia.

A nossa acçom teórico-prática é umha das contribuiçons da nossa curta trajectória, o que quereríamos ver noutras comarcas galegas.

A coordenaçom de iniciativas e reflexons na MMM, da qual fazemos parte, mas sobretodo com aqueles colectivos e organizaçons com que temos umha maior coincidência, é outro dos objectivos que perseguimos.

 

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