Comunicaçom de Joseba Álvarez às X Jornadas Independentistas Galegas

24 de Março de 2006

Como já anunciamos, nos próximos dias iremos pendurando as intervençons das e dos intervenientes nas X Jornadas Independentistas Galegas decorridas em Compostela no passado dia 18 de Março. Começamos com a comunicaçom apresentada por Joseba Álvarez, dirigente de Batasuna que nom pudo assistir devido à ameaça de prisom por parte da Audiência Nacional espanhola, que finalmente nom se verificou, felizmente. Os últimos acontecimentos no País Basco dam maior relevo ainda ao conteúdo deste texto, cuja leitura recomendamos encarecidamente.

INTERFERENCIA DA AUDIÊNCIA NACIONAL


A nossa intençom como BATASUNA era participar neste interessante debate na Galiza sobre o futro da esquerda no século XXI, umha reflexom hoje mais necessária do que nunca, polo rumo que está a tomar o planeta guiado pola política neoliberal e o imperialismo norte-americano. Pensamos, aliás, que as naçons sem Estado, os povos oprimidos, temos a obrigaçom de contribuir com o nosso próprio ponto de vista, sem o qual a referida reflexom ficaria incompleta. Com esse intuito, íamos a Santiago de Compostela com dous trabalhos. O primeiro, "A esquerda no século XXI", para ser lido como introduçom ao debate; e o segundo, "A Globalizaçom e a questom nacional", como material de desenvolvimento.

Infelizmente, hoje ao meio-dia, sexta-feira e véspera do deslocamento, acabei de receber umha citaçom desse outro grande juiz substituto de Garzón, chamado Grande Marlaska, para me apresentar perante ele no próximo dia 22, quarta-feira, às 17.30 horas. Tendo em conta que nesta mesma dous dos meus companheiros, Juan Mari Olano de Askatasuna e Juan José Petrikorena de Batasuna já fôrom levados a prisom, é mais do que provável que o citado juiz ordene o meu encarceramento. Perante tal possibilidade, decidim passar este fim de semana com a minha família. Pido-vos desculpa por isso, mas nom tenho nengumha dúvida que entenderám a minha posiçom pessoal. Comprometo-me, sim, a voltar à Galiza logo que poda, oxalá seja na próxima quinta-feira, ou, entom, aginha que fique em liberdade.

Um abraço a todos e boa reflexom.


Joseba Álvarez
Donostia, 17 de Março de 2006.

A esquerda no século XXI
Santiago de Compostela, Março de 2006
Joseba Alvarez, Batasuna

O debate sobre o futuro da esquerda no mundo, na Europa e em Euskal Herria, é um motivo de preocupaçom e de reflexom permanente em Euskal Herria e, especialmente, no conjunto da Esquerda Abertzale, cuja expressom política é BATASUNA. E é um debate complexo, por abranger tanto o problema da ética como o da luita ideológica, a articulaçom dos diferentes métodos de luita, o modelo organizativo, a política de comunicaçom com a sociedade e, como nom, o modelo de integraçom económica que emana da contradiçom entre Capital e Trabalho no modelo neoliberal e globalizado a que estamos submetidos e submetidas todas e todos. A esquerda deve responder a todos esses reptos de maneira coerente, quer a nível teórico, quer na prática diária que desenvolve, a partir sempre das condiçons objectivas mutantes, e sem esquecer nunca a percepçom subjectiva que delas tem a militáncia e a sociedade que tenciona transmformar. Portanto, pretendemos abordar um debate especialmente complexo e necessariamente com muitíssimos matizes. A nossa pretensom é simplesmente fazer umha aproximaçom do mesmo, sem pretendermos resolvê-lo.

De outra parte, os que hoje cá estamos presentes, levamos anos a trabalhar esse enorme e complexo espaço social que corresponde à esquerda, por isso nom vamos enganar ninguém. Todos nos conhecemos, quer no que di respeito ao nosso ideário político, quer, e sobretodo, no que toca à nossa prática diária. Nom nos devedes analisar nem acreditar o que dizermos, senom conhecer o que fazemos para conferir se somos coerentes ou nom na nossa prática. Além disso, também somos cada qual, representamos cada qual, o resultado da nossa política, umha vez que o objectivo da esquerda é transformar a sociedade em que trabalha e nom ter razom sem dispor de capacidade de transformaçom. A esquerda nom deve viver no ciber-espaço, na rede, nem se limitar à ediçom de materiais… tem de ser um instrumento de mudança e, portanto, de luita.

E esse é precisamente o núcleo do debat da esquerda no mundo: como enfrentar os planos de dominaçom capitalista, tanto mundiais, quanto regionais, estatais ou nacionais. Na América do Sul e na América Central, estám a debater e pôr em prática umha alternativa nom apenas ao Plano Colômbia, à Iniciativa Andina, ao Plano Puebla Panamá, mas à ALCA no seu conjunto. Nesse plano é que se situam modelos e realidades tam diferentes como os de Cuba, Venezuela e Bolívia, ou os do Brasil, Uruguais e a Argentina. Hugo Chávez e Fidel Castro proponhem a ALBA como modelo alternativo à ALCA. Na Colômbia, as FARC e os do ELEN mantenhem em pé as guerrilhas. No México, Marcos, agora autoproclamado "delegado zero", leva avante o seu plano. Som modelos e experiências bem diferentes, mas todas tenhem um denominador comum, fazerem frente ao capital, que é o objectivo da esquerda.

Na Europa acontece a mesma cousa, a diferente escala e a diferente velocidade, com certeza. Cá o plano de dominaçom capitalista nom é a ALCA, mas o projecto constitucional europeu. O debate da esquerda lá é como defrontar a ALCA. Cá, o nosso debate é como defrontar o Tratado da Uniom.

É verdade que a ALCA e a Constituiçom Europeia nom som a mesma cousa, mas os dous respondem ao mesmo modelo neoliberal de integraçom económico, apenas adaptado ao desenvolvimento capitalista imperante em cada umha das regions mundiais. Tanto lá como cá, nega-se a existência dos povos, das suas línguas, das suas culturas, das suas economias, dos seus direitos humanos, civis e políticos, individuais e colectivos… lá, como cá, privatizam-se os sectores estratégicos, os recursos naturais, a energia, os serviços públicos, precariza-se o mundo laboral, deslocalizam-se e re-localizam-se as empresas, mantém-se o analfabetismo e a miséria, exploram-se selvagemente as mulheres e a juventude, maltratam-se os imigranteslegais e ilegais, antepom-se a segurança à democracia, limita-se o direito à liberdade de expressom, luita-se de maneira preventiva contra a dissidência e o suposto terrorismo, até há pouco fenómeno guerrilheiro, fazendo verdadeiro terrorismo de Estado e inclusive a guerra de alta ou baixa intensidade… em definitivo, garantem-se os privilégios de umha minoria, a que acumula os benefícios do capital, explorando a maioria e nom repartindo a riqueza.

Isss acontece lá e cá, se bem que o nível e o método seja diferente, mas essas som as características do modelo neoliberal globalizado, que outra cousa nom é que a nova versom do capitalismo. É verdade que o mundo já nom é bipolar; é verdade que unilateralismo norte-americano fracassou, nomeadamente devido à resistência dos povos; é verdade que existem contradiçons internas ao capital, que devemos levar em conta; mas o capital é o capital, cá e lá. É verdade que a velha Europa nom coincide sempre com os EUA, mas a divergência vem mais polo reparto do novo imperialismo do que por umha contradiçom antagónica dos modelos que pretendem ser impostos.

E, onde é que ficam as diferentes internacionais políticas de esquerda ou os movimentos traidicionais perante este mundo cada dia mais desequilibrado? O que é que andam a fazer perante a destruiçom do Estado de providência, perante a vulneraçom dos direitos humanos, dos direitos civis, dos direitos sindicais, dos direitos políticos, da democracia tam duramente conseguida pola luita da esquerda e dos trabalhadores no século passado? Onde é que ficam os partidos comunistas…? Onde a social-democracia…? Onde os sindicatos da CES…? O que foi que figérom nas três ou quatro últimas décadas se nom foi abandonar a luita e o ideário socialista e pactuarem todas as reconversons impostas polo capital…? É evidente que fracassárom. Fracassárom porque, para conquistar o poder, abandonárom o seu ideário e a luita, e quando o conquistárom, servírom a e pactuárom com o capital contra os interesses dos trabalhadores.

Os indicadores mais evidentes desse fracasso, os mais socializados, embora nom sejam os únicos, som os foros sociais e assembleias dos movimentos sociais que neles se reúnem, quer nas suas ediçons mundiais, quer nas continentais ou locais. Um outro indicador claro desse fracasso da esquerda oficial está na sua falta de capacidade mobilizadora. Todas as últimas grandes manifestaçons internacionais contra a guerra do Iraque, por exemplo, ou todas as contra-cimeiras na Europa ou na América, emanam das assembleias dos movimentos sociais alter-mundialistas: Seatle, Génova, Florença, Edimburgo, Mar de Plata… Por se isto nom fosse suficiente, devemos reconhecer que as centenas de milhares de pessoas que nelas participam nom vem como referentes sindicais ou políticos as organizaçons tradicionais da esquerda, ao ponto de se gerar um claro divórcio entre as estruturas sociais e políticas.

A conclusom a que chegamos é que toda a mobilizaçom teórica e social contra o neoliberalismo e a globalizaçom, ou polo menos grande parte dela, estrutura-se fora do espaço da esquerda tradicional, tanto no seu ámbito político quanto no sindical. Existem no mundo milhons de cidadás e cidadaos, antineoliberais, inclusive anticapitalistas, alheios por completo aos agentes da esquerda tradicional, e isso produz-se, além do mais, nos cinco continentes. A resistência ao neoliberalismo e a sua alternativa é muito plural e multicolor, quer nos temários como nos modos de participaçom. Nom queremos dizer com isso que os Foros Sociais sejam umha panaceia, mas sim, sem dúvida nengumha, que som umha clara expressom do fracasso das organizaçons clássicas da esquerda, e devem por isso ser levadas muito em conta. Som o sujeito principal e reconhecido, inclusivamente contraditório, da luita por um outro mundo, por mais que poda pesar às organizaçons tradicionais da esqurda que continuam a tentar manipulá-los.

De se manter esta divisom entre o mundo tradicional da esquerda e os movimentos sociais, a esquerda nom só nom vai renovar-se, como acabará por desaparecer das instituiçons públicas em benefício da direita. Por se fosse pouco, irá fomentar-se no espaço de luita social umha ideologia antipartido, nefasta na situaçom actual, porque som os partidos os únicos rerpesentados nas instituiçons e nos processos eleitorais que os conformam. Sme referente político claro, esse movimento social também está condenado ao fracasso institucional, conclusom a que já chegárom os zapatistas no México, motivo que os levou a mudar de estratégia para criarem um movimento político que reagrupe toda a massa social alheia à esquerda tradicional reunida em torno do PRD ou do PT, sem falar de sectores progressistas do PRI.

Um claro expoente do que afirmamos produziu-se em pouco tempo em dous eventos sociais maiores no Estado francês. O primeiro foi o rejeitamente no referendo do projecto constitucional europeu contra a opiniom das organizaçons da esquerda tradicional, tanto do ámbito político como no sindical. E a outra, os protestos incendiários das "banlieu" ou bairros periféricos das grandes cidades galas. A crise política e social aberta entre a classe política e a sociade a que pretendem representar é maiúscula e transversal, tanto na esquerda como na direita. A crise política no Estado francês nom é territorial como no Estado espanhol, é ainda pior e ninguém consegue nem está legitimada para a resolver, nem a LCR, nem o PCF, nem o PSF à esquerda, nem a UMP à direita…

Essa crise está a desenvolver-se na Europa toda, e só tem duas alternativas. A primeira, a criaçom de umha nova esquerda que termine de enterrar a tradicional, algo que os sectores mais combativos propugnamos, BATASUNA está nessa aposta junto a um numerosos grupo de organizaçons, ou esse espaço altermundialista se converterá em espaço de luita das esquerdas tradicionais, mas com espírito eleitoralista, o qual, além de ser um desastre, acabaria por dividi-lo em benefício do capital e a direita.

Contributo da experiência basca

Euskal Herria, espaço de luita e de alternativa desde há mais de quarenta anos, nom só é um laboratório para a luita "contra insurgente", mas também um espaço de avanço para a nova esquerda e, além disso, tem sido em todo este tempo. A Esquerda Abertzale tem sido e é ainda hoje, inovadora em muitos aspectos.

Foi a própria ETA que pujo os alicerces do nacionalismo moderno em Euskal Herria há mais de quarenta anos. Face ao nacionalismo conservador, confissional e até racista do PNB, a ETA propujo um nacionalismo revolucionário anti-étnico, lacio e socialista, baseado na língua e a cultura e nom na raça ou a religiom. Do pensamento da ETA surgírom com o passar do tempo as organizaçons bascas de esquerda como LKI (LCR basca), EMK (MCE basca), KAS, EHAS (socialistas bascos) ou Herri Batasuna, além de grande parte do tecido social e associativo basco, como as ikastolas, as gau estolas de AEK, as associaçons vicinais, os comtés de bairro, muitíssimos comités de empresa, os comités anti-nucleares… se bem o juiz Garzón nom tem razom quando afirma que todo é ETA, sim é verdade que sem o contributo ideológico da ETA na década de sessenta, todo o que tem criado o movimento independentistas basco, hoje nom existiria ou seria residual.

O contributo histórico que a ETA fijo há mais de trinta anos, assinalando, contra o que pregava grande parte da esquerda tradicional internacional, que a luita de libertaçom nacional e a luita pola libertaçom social som dous lados da mesma moeda, marcou o devir da Esquerda Independentista Basca, além do confronto com todos os representantes políticos e sindicais da esquerda tradicional, a começar polo PCE e CCOO.

No mesmo sentido, quando se produziu a transiçom, a esquerda independentista basca optou por nom criar um partido político, cousa que figérom todos os outros, mas criar umha unidade popular, plural, democrática e assemblear, expressom política do movimento social basco, um instrumento eleitoral e institucioanl para e ao serviço do movimento social e popular basco: HERRI BATASUNA. Para nós, o movimento social é o equivalente à água para o peixe. Essa é umha das principais razons que explicam hoje, quase trinta anos mais tarde, que a ilegalizaçom de BATASUNA nom implique a desapariçom da esquerda independentista basca que tivo de mudar de referente político institucioanl várias vezes nos últimos anos, tentando evitar o assédio do Governo de Madrid: Herri Batasuna, Batasuna, AuB, HZ… Inclusive quando EHAK ofereceu as suas siglas nas últimas eleiçons autonómicas ao Parlamento de Gasteiz, mais de 150.000 pessoas votárom com boletins comunistas com a fouce e o martelo sem nengum problema, apesar de nom ser comunistas na maioria dos casos, ainda que sim de esquerda. Sem movimento social de base fundamental e esteratégico, todo isso teria sido impossível.

Como conseqüência desta maneira de pensar e agir, em todos estes anos todas as iniciativas políticas de importáncia que lançou a Esquerda Independentista Basca, como som a Alternativa KAS (1975), a Alternativa Democrática (1995), Lizarra-Garazi (1998), Udalbiltza (1998), Foro de Debate Nacional (2000) e a Proposta de Anoeta (2005), por citarmos as mais importantes, sempre tivérom umha forte participaçom directa sindical e social, além de Bastasuna. Sempre fôrom, som e serám, iniciativas partilhadas do conjunto da Esquerda Independentista, e nom unicamente de BATASUNA.

Portanto, até hoje, em Euskal Herria evitou-se, em grande medida, o divórcio entre o movimento social, o movimento sindical e o movimento político, e todo isso num cenário onde a repressom, a luita armada da ETA e a política institucional do PNB criárom sempre um clima político e social tenso e complicado.

Hoje, após mais de trinta anos de luita pola libertaçom nacional e pola transformaçom social de Euskal Herria, depois de termos superado duas legislaturas do Partido Popular, quer dizer, após termos ganho a guerra de desgaste e da ilegalizaçom de inúmeras organizaçons políticas e sociais bascas, decidimos passar da resistência à construçom nacional, porque consideramos que criamos em Euskal Herria as condiçons políticas necessárias para a mudança.

Por isso, no fim de 2005 e começo de 2006, em plena ilegalidade, realizamos um debate na militáncia da Esquerda Independentista basca em que tomárom parte directamente mais de sete mil pessoas, e polo menos outras tantas de maneira indirecta, para estabelecermos as bases do modelo de país que vamos oferecer nos próximos anos à sociedade basca. O debate chamou-se "Euskal Herria ezkerritik eraikz" (Construindo Euskal Herria a partir da esquerda). Nom vamos apenas resolver finalmente de maneira negociada o conflito histórico que o nosso país vive, por inúmeros entraves que nos forem colocados no caminho, como apostamos por ganhar a maioria social, sindical, política e institucional que nos permita construir umha outra Euskal Herria, a socialista, que nom só é possível, como necessária, se nom quigermos desaparecer como Povo no século XXI.

Eis o melhor contributo que podemos fazer a partir de Euskal Herria a essa imensa luita popular mundial contra o neoliberalismo e a globalizaçom. Eis a nossa maneira de pensar no global e agir no local.


Muito obrigado.


Joseba Álvarez
Santiago de Compostela
Março de 2006
BATASUNA

 

:: Especial X Jornadas Independentistas Galegas

 

 

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