Máfia e democracia neoliberal

21 de Fevereiro de 2006

Numha altura em que a corrupçom volta à actualidade política do nosso país, recuperamos um artigo da analista política e historiadora basca Alizia Stürtze, de Novembro de 2005, dedicado às relaçons entre corrupçom, crime organizado e neoliberalismo capitalista. Leitura formativa e altamente recomendada.

 

Máfia e democracia neoliberal

Alizia Stürtze

Mostram-nos assim, de repente, umha reportagem a falar dos elevados índices de corrupçom nas altas esferas da administraçom mundial.

Como é costume em todos os relatórios veiculados polos grandes media (como esse da tortura sistemática negada por Bush e por Rice), ameaçam sem chegarem a agir, quer dizer, trivializam e mostram como algo puramente esporádico, excepcional e, portanto, facilmente eliminável, o que na verdade é inerente a essas... democracias? de mercado actuais que nos vendem como o melhor dos mundos possíveis: a corrupçom e o comportamento mafioso das suas instituiçons (as máfias apenas podem perdurar mediante coabitaçom e/ou simbiose com o poder público) e o facto de que o grande crime organizado se tenha convertido já numha potência militar, económica e moral na cena internacional, com grande autonomia e até com capacidade de decisom geoestratégica. Sabemos, com certeza, que esse berço da democracia que, segundo dim, som os EUA, levam decénios (polo menos desde Roosevelt, Truman e Kennedy) a serem, na prática (que é o que conta), um sistema corrupto/mafioso dirigido polas grandes multinacionais e pola Cosa Nostra; o que implica que o dinheiro do crime (drogas, prostituiçom, armas, falsificaçons, imigraçom clandestina…) é reinvestido quer na economia informal, quer nos circuitos legais e institucionais.

Mas, podemos igualmente afirmar, como Jean-François Giraud fai no seu "Le monde des mafias", que a grande maioria das democracias estám a converter-se em sistemas criminalizados ou mafiosos, acaçapados atrás do fumo mesto da "guerra contra o terrorismo"? É errada essa representaçom ideológica do mundo imposta polos media, que situa o chamado crime organizado no terreno do marginal e o associal, e que nom poderemos compreender a nossa história contemporánea (o que está a acontecer-nos) enquanto nom situarmos as máfias no coraçom mesmo do nosso "democrático" sistema?

Polos vistos, no se trata de casos esporádicos nem excepcionais, nem, decerto, triviais. Nom é apenas que a Tate Gallery de Londres tenha pago recentemente 5 milhons de euros a mafiosos balcánicos para recuperar obras roubadas, ou que a Forza Italia de Berlusconi (como a Democracia Cristá de Andreotti) feda tam forte a Cosa Nostra. Som inumeráveis os exemplos que demonstram que ignorar o parámetro mafioso pode ter conseqüências graves para esse "mundo seguro" por que tantas tropelias cometem Bush, Blair e os seus acólitos.

Eis o facto comprovado de que, após a "queda" do muro de Berlim, as máfias italianas investírom enormes quantidades na Europa oriental; ou esses dados que demonstram que as Tríadas de Hong Kong, a seguir à reunificaçom, encetárom fortes "investimentos" na China continental, branqueando assim o seu dinheiro em troca de apoiarem a transiçom política e económica pacífica da ilha e de colaborarem no desenvolvimento do gigante asiático. Agora que nos informam por activa e por passiva da detençom de um "genocida" croata, tampouco convém esquecermos que o vácuo político deixado polos sérvios expulsos de Kosova pola NATO foi preenchido pola UCK que, embora se proclamasse exército de libertaçom nacional, nom era mais do que um disfarce da máfia albanesa que, com a aceitaçom internacional, converteu a zona numha "pequena Colômbia" balcánica, a partir da qual se deslocam incessantes fluxos de estupefacientes, armas e prostitutas. Um outro exemplo sangrante e paradigmático desta relaçom entre democracias de mercado e máfias seria o objectivo principal do golpe de Estado contra Aristide em 2001: a militarizaçom ianque da ilha, com o intuito nom só de pressionar Cuba e Venezuela, como também de proteger o comércio multimilionário de drogas que passa polo Haiti em direcçom aos EUA, e proporciona milhares de milhons de dólares ao grande crime organizado e as instituiçons financeiras que tratam do branqueamento desse dinheiro negro.

Os números cantam: é evidente que grande parte do prédio económico e bancário mundial ficaria enfraquecido e até ruiria se essas centenas de milhares de milhons de euros de lucros anuais do crime fossem bruscamente retirados dos circuitos "legais", e deixassem de investir em bolsa, na construçom civil, nas obras públicas, na indústria do espectáculo e do turismo, e até em clínicas privadas, asilos para idosos ou tratamento de lixo e resíduos. Em conseqüência, essas razzias pontuais contra membros das máfias ou as protomáfias (os cárteis latino-americanos, as "bravta" russas…) nom passam de ser um fai-de-conta atrás do qual se oculta a crescente penetraçom mafiosa nos negócios e na alta política, favorecida polo neoliberalismo selvagem, a mundializaçom da economia e a desregulaçom dos mercados e do trabalho.

Nove som as máfias existentes: quatro italianas, umha albanesa, umha turca, umha chinesa, umha japonesa e umha norte-americana. Entre as nove, constituem umha espécie de "burguesia" mafiosa que domina o resto de organizaçons criminosas, que anda de braços dados com as elites mundiais e que aparece como inquietantemente indestrutível e impermeável à repressom. As nove conformam, em palavras de Gayraud, "um crime de muito alta intensidade e de muito baixa visibilidade", cuja crescente influência implica o que o autor chama "a criminalizaçom do mundo moderno", e que evidencia o carácter criminalizado ou mafioso dessa democracia que os amos do mundo querem exportar a ferro e fogo ao Iraque, Irám, Sudám, Coreia do Norte, Cuba, Venezuela e restantes "países canalhas".

Mais umha vez, chegamos à mesma conclusom: do mesmo modo que as peras nom dam maçás, um sistema criminoso como o capitalista nom pode engendrar mais do que roubo e crime; nunca democracia real.

Socialismo ou barbárie.

 

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