Três doenças da esquerda: intervençom de Francisco Martins nas X Jornadas Independentistas

26 de Março de 2006

Continuamos a publicaçom das intervençons dos companheiros e companheiras participantes nas X Jornadas Independentistas Galegas, a 18 de Março deste mesmo ano. É a vez de Francisco Martins, camarada português que apresentou a esclarecedora comunicaçom "Três doenças da esquerda".

Três doenças da esquerda

As perspectivas da esquerda para o século XXI som seguramente muito duras. Há 50 anos, nós, comunistas, imaginávamos o século XXI como umha alvorada do socialismo mundial, alastrando imparavelmente a partir da Uniom Soviética. A vida ensinou-nos que a construçom do socialismo é muito mais complicada do que supúnhamos e que o estertor da agonia do sistema capitalista é mais prolongado e sangrento do que podíamos entom imaginar.

Estamos em dificuldade, mas nom por falta de argumentos a nosso favor. A voracidade dos centros capitalistas, a decomposiçom moral da sociedade burguesa, a bestialidade da "guerra infinita" aos povos subjugados, com os EUA a seguir as pisadas da Alemanha hitleriana e a CIA transformada na Gestapo do "mundo livre", dispensam-nos de muito do nosso esforço de explicaçom. O mal está à vista de todos.

A social-democracia, polo seu lado, tem cada vez menos espaço para fazer flores de esquerda. Quando governa é com a política de direita. Em Portugal temos agora um governo "socialista" que aplica o programa de espoliaçom dos trabalhadores que os anteriores governos de direita nom tinham sido capazes de impor.

Temos razom, mas isto nom basta para ganharmos as massas para o nosso campo. Para isso, falta-nos explicar, polo menos, duas cousas: 1ª o que será essa sociedade socialista de que falamos, sem patrons, sem mercado, sem concorrência, sem guerras; 2ª como conseguiremos reunir forças para lá chegar, isto é, como seremos capazes de desmantelar o Estado burguês e expropriar a burguesia. Por nom saber explicar nem umha cousa nem a outra, a esquerda atravessa um longo período de crise, de isolamento, de cisons e de reconstruçom.

Naturalmente, também eu nom tenho resposta para estas questons. Mas podo falar-vos de três doenças que tenho observado na esquerda portuguesa e que julgo que som hoje gerais.

O medo de parecer umha seita

Na situaçom péssima a que a esquerda chegou, instalou-se a ideia de que o que interessa é falar daquilo que pode agradar à maioria, abandonar os temas difíceis ou demasiado "ideológicos", nom fazer figura de extremista, tornar-se umha espécie de comissom de melhoramentos.

Em Portugal, o Bloco de Esquerda lançou-se a aplicar essa receita e tem-se dado muito bem: em poucos anos, ganhou um grupo parlamentar, um deputado europeu e é citado como exemplo de "esquerda moderna".. Os meus antigos camaradas exultam porque já ninguém lhes chama "seita de iluminados". "Sabendo crescer, mesmo à custa de algumas concessons, dim eles, amanhá teremos força para aplicar um programa anticapitalista". Mal sabem eles que estám a repetir umha "descoberta" da velha social-democracia que Rosa Luxemburgo comentava assim: "Os social-democratas alemáns tentam aplicar à revoluçom a sua sabedoria caseira: 'Para conseguir fazer algumha cousa, precisamos primeiro de ganhar a maioria'. Mas a dialéctica da revoluçom é oposta. O avanço nom se fai da maioria para a táctica revolucionária, mas através da táctica revolucionária para a maioria".

Som grandes palavras estas, plenamente confirmadas polo partido bolchevique russo. Considerado umha seita em Fevereiro de 1917 devido ao radicalismo das suas posiçons, oito meses depois conduzia milhons de trabalhadores à tomada do poder. Eu sei que foi há muitos anos, mas ainda nom apareceu nengumha experiência que desmentisse a justeza do leninismo.

Com isto nom quero dizer que devemos ficar na toca a escrever proclamaçons, à espera que chegue o dia da revoluçom. De modo nengum. Só conservaremos a nossa identidade de revolucionários se intervinhermos diariamente na luita, com realismo, flexibilidade e abertura a outras correntes. É o que nós, da Política Operária, com a nossa pequenez, procuramos fazer.

Nesse caso, qual é a diferença que nos separa da outra esquerda? A diferença é que recusamos fazer política com os olhos nos votos e nos subsídios. Vemos nas reivindicaçons e acçons diárias um meio de ajudar as massas a descobrir pola luita a sua razom e a sua força, um meio de cavar o antagonismo entre oprimidos e opressores - nom um meio de ganhamos popularidade fácil e lugares nas instituiçons.

Gostemos ou nom, somos umha fortaleza assediada, em tremenda desvantagem debaixo do fogo inimigo. Com conversa mole e panos quentes nom iremos longe. A nossa única saída é falar claro, ser agressivos na denúncia do sistema, incutir desprezo polo inimigo, porque só assim formaremos umha corrente combativa.

Na situaçom contra-revolucionária como a que se vive hoje na Europa, um partido de esquerda nom pode ser um partido de massas. Ou goza das vantagens de se instalar no sistema, ou sofre as conseqüências de ser revolucionário. Somos umha força estranha ao sistema, que a burguesia procura invariavelmente eliminar - a tiro, como fazia no tempo do fascismo, ou a dinheiro, como fai agora. Amanhá, quando surgir umha situaçom revolucionária, entom sim, a esquerda poderá e deverá crescer. Por agora é bom nom entrarmos em pánico por ser um partido "marginal".

O medo de parecer "ortodoxo"

O mundo mudou, e de que maneira! O proletariado já nom é o que era, crescem as novas classes médias, desaparecem os camponeses, surgem novas exigências, a vida social é muito mais complexa. Daqui partem muitos para a conclusom de que a política de classe contra classe, proletariado contra burguesia, já nom se aplica. Lenine, com a sua crítica impiedosa a todas as correntes intermédias e o seu plano para a conquista do poder, poderia estar certo na sociedade russa, dizem, mas nom serve para o nosso tempo.

Experimentemos porém a afastar as ramagens das novidades que fazem andar a cabeça à roda a tantos. Se formos ao tronco da sociedade, ao osso das relaçons entre as classes, o que vemos? Vemos que, por trás da aparente soberania dos cidadaos através do sistema representativo, a guerra de classes prossegue sem tréguas. O despotismo do capital sobre a vida dos seres humanos nom se afrouxou, polo contrário está a tornar-se asfixiante.

A realidade imutável é que há um núcleo restrito que detém o poder apoiado em corpos de homens armados, leis, tribunais, ideólogos; que, abaixo dele, vem um segundo anel de auxiliares de confiança, cuja fidelidade é assegurada com fartos privilégios; mais abaixo, as classe médias, os pequenos patrons, os especialistas, ainda com direito a umhas sobras; e no fundo, o resto, que som os oito décimos da populaçom, a quem cabe a tarefa de fazer andar o carro e para os quais nom há bónus - assalariados de todo o tipo, operários, empregados, desempregados, precários, "donas de casa"... Som oito décimos da populaçom, mas como as suas vozes nom tenhem direito a fazer-se ouvir, há quem nom dê por eles.

Estes som os factos da vida. Sendo assim, nom vejo como se pode contestar que a única tarefa do partido de esquerda é conferir identidade política e ideológica a essa massa oprimida e silenciosa, mostrar pola acçom diária que os seus interesses som diferentes dos de todas as camadas da burguesia, que a ordem social existente é a causa das suas frustraçons e que é possível mudá-la.

Será isto muito cru, demasiado "ortodoxo"? Ou nom será que se passou a chamar "ortodoxia" aos factos brutais desta sociedade para nos descartarmos deles?

Digo pois que a tarefa do partido de esquerda é elaborar um corpo de ideias revolucionárias - ideias, argumentos, demonstraçons, nom slogans -, e criar umha vanguarda de revolucionários profissionais - revolucionários, nom burocratas nem aparatchiks -, que sejam o fermento capaz de fazer subir a tensom revolucionária adormecida nas massas.

Se o partido nom servir para isso, nom serve para nada, e mais vale deixar o campo livre aos sindicatos, movimentos cívicos, comissons, intervençom cultural, que, no seu ámbito próprio, defendem os interesses das massas.

Preocupam-se alguns porque o partido que manifesta intransigência revolucionária na acçom e na crítica corre o risco de entrar em choque com as outras forças democráticas e progressistas. Mas essa é a condiçom imprescindível para se formar umha corrente revolucionária e para as massas franquearem um passo decisivo - de oposiçom crítica dentro do sistema à oposiçom contra o sistema.

Vejam este exemplo: em Portugal, na luita contra a guerra imperialista colaboramos com o PCP, sem dúvida a força mais à esquerda no leque partidário. Mas quando o PCP conduz os operários de umha grande fábrica à conciliaçom com o patronato, ou quando apresenta (como fijo agora) umha proposta de lei para que sejam dadas mais verbas às forças de segurança - aí combatemo-lo sem contemplaçons. A defesa de umha política revolucionária nom implica isolamento sistemático; exige sim umha participaçom independente em todas as acçons em que haja interesses comuns. Como dizia Lenine, "atacar juntos, marchar separados".

O medo de ajustar contas com o passado

Bombardeados diariamente com a "falência do comunismo", julgam alguns que o melhor é evitar o assunto da Uniom Soviética e andar para a frente - como se as conseqüências da maior revoluçom da história se pudessem varrer para debaixo o tapete. Disse-o no início: nom vejo que a esquerda poda recuperar inteireza ideológica e postura ofensiva se nom explicar de forma convincente o que aconteceu.

Ora, a posiçom assumida polo PCP (e nom só), exaltando por um lado as "conquistas do socialismo" e admitindo ao mesmo tempo "graves erros e desvios", pode parecer umha forma de se demarcar do que houvo de negativo sem dar o flanco à campanha anticomunista da burguesia, mas indica umha estranha concepçom do que seja o socialismo.

Que a antiga URSS, com as suas nacionalizaçons, planificaçom, medidas sociais, desenvolvimento económico, resistência anti-imperialista, desempenhou até certa altura um papel favorável à luita dos povos nom oferece dúvida. Basta pensar na derrota do nazismo. Mas partir daqui para a considerar socialista é dar um salto no absurdo. Teríamos entom que admitir que o socialismo pode ser compatível com um regime ditatorial, o unanimismo do partido único, o terror policial, o culto do líder supremo, a esterilizaçom da vida intelectual, a regressom de todos os direitos conquistados durante a revoluçom... Teríamos que admitir, sobretodo, que o socialismo poda existir sem o exercício efectivo do poder polos trabalhadores - ou atribuindo a um partido a representaçom desse poder, o que vem a dar no mesmo -, e esta aberraçom é verdadeiramente o que pensam os nostálgicos da antiga Uniom Soviética.

Partido representante da pequena burguesia "esclarecida" e "amiga do povo", o PCP nom consegue conceber o socialismo senom como um capitalismo de Estado, um "poder popular" sob tutela. Vende aos trabalhadores a trágica deriva da revoluçom de 1917, tornada inevitável apenas polo atraso económico-social da Rússia, como se fosse umha lei da "transiçom para o socialismo". Procura, com essa miragem, amarrá-los à menoridade política e desviá-los do verdadeiro objectivo da sua luita - a instauraçom da sua ditadura de classe sobre a burguesia, a edificaçom de umha autêntica democracia do Trabalho.
Esta é outra das doenças da esquerda que temos que combater frontalmente para recuperarmos a iniciativa na luita contra o capital.

 


:: Especial X Jornadas Independentistas Galegas

 

 

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Francisco Martins, director da revista comunista portuguesa Política Operária, durante a sua intervençom nas X JIG (Compostela, 18 de Março de 2006