La Voz de Galicia, em ofensiva contra a Galiza

29 de Setembro de 2005

Reproduzimos o artigo de opiniom de Maurício Castro publicado ontem no Portal Galego da Língua. Nele, o autor comenta a reacçom mediática ante algumhas iniciativas de reforço simbólico da identidade galega anunciadas polo novo Governo autonómico.

 

La Voz de Galicia, em ofensiva contra a Galiza

Maurício Castro

Nos últimos dias, o jornal mais poderoso dos realizados na Galiza, máximo expoente mediático do espanholismo, promove a publicaçom de "notícias" e artigos de opiniom de inaudita agressividade contra os principais sinais da identidade nacional galega, no que parece ser umha tentativa de pressionar o Governo autónomo e evitar assim qualquer tentaçom de transbordar os limites da "correcçom política", segundo a concepçom mais integrista do chauvinismo espanhol.

Referimo-nos, em concreto, a artigos como os publicados nos dias 24, 25 e 27 deste mesmo mês, nas páginas de opiniom do citado jornal, orientados a atacar a denominaçom galega do nosso país, desprezar a possibilidade de contarmos com selecçons desportivas próprias e denegrir tam directa como abertamente a língua nacional da Galiza.

No primeiro dos dias referidos, o colaborador habitual de La Voz Roberto Blanco Valdés, catedrático de Direito recentemente recompensado polo próprio jornal com o prémio Fernández Latorre de Jornalismo, fai umha inaudita incursom na Filologia Galego-Portuguesa para afirmar, com pomposa e vácua contundência, que "Galiza no existe". Trata-se, como o leitor ou leitora já terá adivinhado, de umha lamentável tentativa de rebater o uso do nome galego do País nas camisolas da selecçom nacional de futebol, anunciado pola Direcçom Geral dos Desportos da Junta da Galiza.

Numha contraditória sucessom de lugares-comuns, Blanco Valdés começa reconhecendo que "Galiza" é a forma cientificamente mais "acorde", mas continua impondo o seu "critério" de jurista e sentenciando que o determinante é o que estabelece "a actual norma estatutária", que denomina "Galicia" a Comunidade Autónoma em ambas línguas oficiais, para acabar apelando a que as Cortes madrilenas evitem que umha "provocación intolerable" afecte ao que ele considera "uno de los consensos básicos" da nossa sociedade. Na visom de tam distinto colaborador de La Voz, utilizar "Galiza", como Castelao e Carvalho Calero faziam, atenta contra um dos pilares desta "democracia" que sem dúvida sustenta no trabalho de juristas e jornalistas tam tolerantes e democratas como o próprio Blanco Valdés.

Na ediçom do dia seguinte, o mesmo jornal da Corunha publicava um artigo assinado polo director da secçom de Opiniom, Ernesto Sánchez Pombo, dedicado de princípio a fim a tentar ridicularizar a criaçom de selecçons nacionais próprias. O recurso que utiliza, com mais azar que fortuna, é o de reduzir ao absurdo aquilo que os media espanhóis exploram com tanto empenho num sentido oposto: a utilizaçom de símbolos desportivos como recursos de autoidentificaçom e orgulho colectivo. Recurso, como se sabe, plenamente legítimo quando dedicado a premiar com a máxima distinçom principesca a "trajectória desportiva" de algum piloto espanhol antes incluso de conseguir o seu primeiro título; mas totalmente fora de lugar quando pretende contribuir, sequer minimamente, para que um povo sem Estado como o nosso recupere parte da auto-estima destruída por séculos de colonialismo. Em linha com o artigo do dia anterior, o egrégio opinador define o possível uso da palavra "Galiza" nas camisolas da nossa selecçom de futebol como "una de las majaderias de mayor tamaño cometidas desde Amalarico". Umha palavra, Galiza, que, para este comprometido jornalista, evoca "una marca de aguardiente o una denominación de origen de pimientos". Por aí fica o nível de ironia e a discutível piada deste honorável renegado a soldo da família Fernández Latorre.

Mas, o prato forte da bateria de agressons verbais distribuída nos últimos dias polo diário de maior tiragem na Galiza contra os galegos e as galegas que nom renegamos da nossa condiçom nacional e lingüística, foi o artigo assinado por um provocador profissional que já noutras ocasions tem aproveitado a "abertura e pluralidade" de La Voz para publicar as suas baboseiras anti-galegas. Trata-se de Juan José R. Calaza, prezado amigo de outro ilustre renegado: o pseudo-historiador e neo-facha Pío Moa. Desta vez, o tal Calaza intitulou o seu detrito "Mejor en español". A sua tese, tam absurda como afirmar sem rubor que o espanhol é um idioma superior, transmissor da cultura clássica, o que torna "mil veces preferible para los intereses generales de los habitantes de Galicia un discurso reivindicativo en español" do que "otro en gallego con menos peso que una pompa de jabón". Neste caso, o escrevedor aproveita o ensejo para dar graxa ao patrom, referindo-se com nome e apelidos ao presidente de La Voz de Galicia, Santiago Rey Fernández-Latorre, como autor de um recente artigo nas mesmas páginas, que Calaza define como "sonoro aldabonazo en defensa de Galicia... pero en español". Já o di o ditado popular castelhano: "es de bien nacido el ser agradecido".

Exemplos como os anteriores abundam na imprensa mais adepta a esta particular democracia constitucional, monárquica e espanhola. Nada de novidoso, salvo o momento e a insistência com que estas proclamas se produzem nas páginas da rotativa corunhesa. Coincidindo, nom por acaso, com o anúncio da criaçom de selecçons desportivas próprias, mesmo que só seja para encontros amigáveis, e com a também anunciada inclusom do nome galego do País nas camisolas, em lugar do espanholizado "Galicia".

Tam elementares medidas de promoçom da auto-estima e o orgulho colectivos provocam umha agressiva campanha mediática que procura, usando o símil desportivo, incrementar a pressom ao adversário, para garantir que nom haja novidades no já crónico acanhamento dos valedores do impossível equilíbrio co-soberanista.

Algumhas perguntas finais em relaçom com esta campanha de La Voz e os seus possíveis efeitos na política institucional no que toca à língua e identidade galegas:

Será que La Voz de Galicia continuará a cobrar suculentos subsídios da Secretaria Geral da Política Lingüística, em funçom do seu contrastado compromisso com a língua deste país, ou o novo Governo fechará por fim a torneira?

Agüentará o BNG a pressom mediática, ou voltará a "roja-y-gualda" a luzir em breve em todos os actos e locais oficiais das conselharias que controla?

E umha última pergunta, esta dirigida aos nacionalistas e até independentistas de prática isolacionista: terá por acaso algum significado para nós o facto contrastado de os espanholíssimos Blanco Valdés, Sánchez Pombo, Calaza, etc, combaterem o reintegracionismo com a mesma veemência que demonstram nestes dias contra o galego e a Galiza?

 

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Ernesto S. Pombo, Juan José R. Calaza e Roberto Blanco Valdés, colaboradores habituais de La Voz de Galicia